10 de julho de 2026
Cultura

Artigo: O Poeta da Humildade e da Resignação


| Tempo de leitura: 4 min

Recordar o poeta Rodrigues de Abreu que, por volta de 1923, adotou Bauru como sua cidade e aqui fez a sua literatura efervescer, não é um simples fato, mas uma necessidade como paga por tudo quanto ele nos ofereceu: a exaltação da Cidade de Espantos!

Considerado pela crítica como uma das mais perfeitas celebridades de sua época, na área poética, desafia o tempo com a sua literatura universal. Capaz de comover os mais áridos espíritos, Rodrigues de Abreu permanece vivo, forte e presente em nossos dias, como um metal precioso ou um diamante dos mais caros e preciosos pela sua perfeição.

Há quem diga que Rodrigues de Abreu perambula pelas ruas de Bauru, espargindo a sua poesia, o seu encanto, a sua beleza de verbo, o seu encanto de artista e homem consagrado, desses que leva no peito a formosura dos versos e na fronte a sabedoria beneditina.

Há, pois, de situar Rodrigues de Abreu como um dos grandes, entre as cintilantes estrelas de quinta grandeza. E foi autêntico e fiel aos seus princípios e, com a sua nobreza, conquistou Bauru e cantou esta cidade que ele dizia ser de espantos.

Rememorar o poeta, avivando a sua memória, talvez seja a paga que lhe ofertamos pelo muito que ele produziu em bondade e literatura. Serve, a nós todos, como alento e como um exemplo edificante de pessoa, de bravura, de luta e de sinceridade. Poderia ter produzido muito mais, se a doença não lhe tivesse interrompido o seu caminhar, como bem disse Manuel Bandeira que, também, na mocidade, fora tuberculoso.

Bauru

Bauru foi para Rodrigues de Abreu uma expressão maior: uma casa acolhedora, onde ele pôde, em todo o momento de sua peregrinação, contar com mãos poderosas, sempre atentas a lhe amparar.

Seria desnecessário, em poucas palavras, relacionar a imensa lista de famílias, pessoas, entidades, empresas, amigos, admiradores, que lhe rendiam a homenagem e se associavam a sua dor. Numa rápida busca aos jornais de Bauru, da década de 20, bem como saber de antigos moradores da cidade, serão unânimes em manchetes elogiosas ao poeta e a palavra da história oral, dizendo realmente que Rodrigues de Abreu se confunde com a própria história de Bauru.

Foi um momento maior da cidade, quando a sua presença era motivo de curiosidade e, por onde andasse, uma febre extraordinária de pessoas querendo uma palavra sua, um gesto sequer, para guardar como relicário para a sua posteridade. Era assim o poeta da humildade e da resignação: um beneditino que tinha o poder eletrizante da palavra e do verso.

Até o derradeiro dia de Rodrigues de Abreu, não lhe faltaram com o apoio, a carinhosa acolhida, o conforto que o poeta necessitava para a sua longa viagem de ida. A crônica bauruense, sempre atenta, demonstrou o carinho que a população lhe tinha, não o deixando no desamparo.

Depois da sua partida, vieram as homenagens, perpetuando o seu nome e a sua literatura em escolas, praças, ruas e centros de cultura. Foi e é assim que Bauru pode ser considerada a sua cidade querida, o seu berço eterno, já que o próprio poeta pediu para que os seus restos mortais fossem sepultados no Cemitério da Saudade.

Rodrigues de Abreu foi um poeta bom. O “Desejo Bom”, que aqui reproduzimos, fala por si a grandeza do seu coração:

“Eu seria feliz, se os meus versos se impregnassem dessa humildade silenciosa e boa das estações pequenas dos subúrbios, das cidades velhas e castas, dos bairros pobres das cidades ricas e dos arrebaldes abandonados;

se eles tivessem a alegria honesta das tardes que caem nos bairros operários aglomerando boas almas nas calçadas;

se revelassem um pouco do alto encanto que há nos ranchos das crianças pobres bailando na poeira das ruas ou nos quintais varridos das fazendas;

se eles dissessem do contentamento ingênuo de operários que jogam aos serões domingueiros, ou bebem ruidosos nas tavernas rumorosas!

Mais do que isso, porém, quisera que em meus versos palpitasse o sofrimento dos anônimos tão fundo e tão doloroso!

Quisera que neles clamassem todos os homens oprimidos: os que esperam a festa dos dias vindouros, pobres pequenos que têm sede de justiça!

Assim os meus versos teriam, na alegria profunda e na tristeza profunda, o sabor das canções que nasceram nas ruas. E eu me orgulharia de escrevê-los, pois sou dos pequeninos e dos simples. E vi que a dor e o amor, entre os humildes, têm um sentido mais tocante no infinito!”.

O autor, José Roberto Guedes de Oliveira, é ensaísta, poeta e historiador. Autor de “Meu caro Rodrigues de Abreu”, um ensaio biográfico sobre o poeta “capivariano-bauruense”.