“Em meados de setembro de 2001, formamos uma caravana para pescar no rio Paraguai, em Porto Esperança. Lá fomos nós: Adelmo, Júnior e Kenjo, de Bauru, e eu, Minka e Lela, de Avaí, sendo que nós fomos na frente, na segunda-feira, pois o Adelmo e seu pessoal só iriam na quarta-feira devido a compromissos pessoais.
Depois de quase 15 horas de viagem, chegamos em Porto Esperança, lá pelas 16h e ficamos ‘arranchados' no confortável Rancho da Novoeste. Após descarregarmos nossa tralha, demos uma faxina geral no rancho e depois de uma comida leve fomos dormir mortos de cansaço.
No outro dia logo de manhã, enquanto o Minka e o Lela prepararam as suas tralhas de pescaria, fui fazer uma bela ceva, isso rio acima, no local denominado 'Cochicho do Mutum'. Logo após essa tarefa, desci ao rancho, apanhei os companheiros e fomos pescar de rodada (pescaria tradicional no rio Paraguai).
Nesse dia, apesar de não estar bom para peixe, conseguimos fisgar vários barbados, piaparas na ceva e um dourado, sendo que na quarta-feira, apesar de pescarmos quase o dia inteiro, não pegamos quase nada, assim aproveitei a tarde para buscar o pessoal de Bauru que já estava esperando lá em Morrinhos.
Com a chegada do pessoal, resolvemos que no outro dia metade do pessoal mais o piloteiro o ‘Mudinho' iriam descer até o Forte Coimbra onde, segundo notícias, estava dando muito peixe, principalmente pacu e dourado. Na madrugada do dia seguinte desceram o Júnior, o Kenko, o lela e o Mudinho para o encontro da cabeceira de pacu e dourado em Forte Coimbra.
Após o café da manhã, eu, o Adelmo e o Minka fomos pescar na ceva e lá pelas 10h devido ao forte calor resolvemos retornar ao rancho a fim de preparar o almoço. Aí a surpresa! O motor pifou e como estávamos rio acima descemos remando até o rancho.
À tarde, por insistência do Adelmo, resolvemos pescar debaixo da majestosa ponte férrea da Novoeste, do outro lado do rancho, onde existe um grande remanso, no qual já fisguei vários jaús, barbados, jurupocas e palmitos. Seguimos então para o local remando o nosso barco e lá apoitamos perto do pilar da ponte.
Já apoitados, começamos a lançar nossos anzóis repletos de minhocuçu e, por surpresa, era um peixe atrás do outro, talvez a melhor pescaria que eu tenha feito no Pantanal, pois rapidamente enchemos o barco de peixe.
Com o cair da tarde e com o calor intenso, o tempo começou a mudar, surgindo nuvens carrancudas e aquele vento sul terrível.
Foi quando alertei os companheiros para voltarmos para a segurança do rancho, pois eu já tinha passado dois ‘apertos' com tempestade naquele local e nem por sonho queria enfrentá-la outra vez.
Com a reclamação do Adelmo e do Minka, resolvi, apesar do tempo ruim, aguardá-los na última fisgada. Com isso, o Minka colocou um enorme minhocuçu em seu anzol junto com uma tuvira e arremessou bem no meio do remanso. Aí já começou o vento a aumentar e surgir aqueles pingos gelados de água. Foi quando ordenei para recolherem as linhas e irmos embora.
Quando acabei de levantar a poita, ouvi o grito do Minka: ‘me ajuda que tem um bichão no meu anzol!' O peixe era enorme pois puxava o nosso barco para o meio do rio e, conseqüentemente, o temporal despencou. Aí gritei para o Adelmo segurar o Minka pela cintura para não cair na água com a força do peixe e das grandes ondas que batiam no barco, enquanto eu, com remo, fazia o leme.
Após 20 minutos de briga com o peixe, com as ondas e a tempestade, chegamos ao outro lado do rio, bem defronte ao nosso rancho, ocasião em que pulei no barranco e amarrei o barco em uma árvore. De imediato fui ajudar o Minka a tirar o peixe, que já estava boiando de tão cansado que estava.
Era um jaú mais ou menos de 70 quilos. Com sacrífício, embarcamos o peixe no barco e, quase no mesmo momento, resolvemos devolvê-lo ao rio, pois inconscientemente ele nos salvou daquela tempestade terrível. Desde aquele inesquecível dia, nunca mais pesquei no rio Paraguai e tampouco fisguei jaú.
Sérgio Andrade Moreira Pescador e contador de história