Olhares apaixonados, troca de alianças, buquê nas alturas e lua-de-mel. É este mais ou menos o roteiro dos 1,7 mil casamentos registrados por ano em Bauru. A quantia resulta em 5,57 uniões oficiais por grupo de 1.000 habitantes. Tal média, chamada de taxa de nupcialidade, supera a registrada no Estado de São Paulo, que é de 5,12 por 1.000 habitantes, de acordo com levantamento feito em 2000 pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade).
O perfil casamenteiro é desconhecido até mesmo de quem há anos é envolvido com casamentos. “São dados oficiais?â€, questiona admirado Ademilson Luiz Mendes Novelli, oficial do 1.º Subdistrito do Cartório de Registro Civil de Bauru.
A surpresa tem razão de ser. Passados os libertários anos 60, o retorno ao conservadorismo na década de 70 fez a taxa de nupcialidade voltar a crescer em Bauru, chegando a incríveis 9,14 uniões por 1.000 habitantes em 1979. Nos anos 80, o que se assistiu foi a queda do índice. Desse período até 1990, a média de casamentos caiu quase dois pontos percentuais, passando de 8,43 para 6,48.
A partir disso, novas quedas foram verificadas até 1995, quando os cartórios voltaram a ser procurados, fazendo a taxa de nupcialidade, até então estacionada em 4,59, elevar-se para 5,57 em 1999.
Em 20 anos, o índice de casamentos por grupo de 1.000 habitantes caiu três pontos em Bauru. Apesar disso, curiosamente, a taxa registrada na cidade em 1999 e 2000 manteve-se acima da média observada no Estado de São Paulo.
Segundo Alexandre Antonio de Matos Nascimento, oficial do 2.º Subdistrito do Cartório de Registro Civil de Bauru, o perfil casamenteiro do bauruense explica-se pela característica residencial do município e pelo fato de ser centro regional.
“Assim como Campinas e São Paulo, Bauru centraliza atividades. Isso motiva muitas pessoas a mudar para cá, onde conhecem o futuro marido ou a futura esposa. Além disso, muitas delas moram aqui e trabalham em cidades da regiãoâ€, aponta Nascimento, para quem a eficiência do sistema cartorário local também contribui para a elevação da taxa de nupcialidade.
Já o juiz de paz Artur Guedes, há dez anos atuando no 1.º Subdistrito do Cartório de Registro Civil de Bauru, arrisca outra hipótese: a tradição, que foi potencializada pelas facilidades introduzidas pelo Novo Código Civil, em vigência desde 10 de janeiro de 2003.
Seria o código recente, que introduziu a gratuidade para pessoas comprovadamente pobres, o responsável por manter praticamente inalterado o número de casamentos verificados entre janeiro e junho de 2002 e no mesmo período deste ano. “O código facilitou a vida dos cidadãos que já conviviam juntos anteriormente e queriam regularizar sua situaçãoâ€, aponta Guedes.
Para o monsenhor Almir José Cogiola, pároco da igreja Santa Rita de Cássia e bastante requisitado para cerimônias de casamento em outras paróquias da cidade, o perfil casamenteiro entre os católicos bauruenses deve-se ao trabalho da Pastoral da Família, que tem como uma das funções capacitar noivos para a vida em comum.
A pastoral prepara os jovens para o namoro e realiza cursos para noivos, recém-casados e pessoas unidas em matrimônio pela Igreja há anos. “O objetivo é preservar a vida em família, conscientizá-los de que é preciso preparar-se para as dificuldades e estruturá-los para viver o sentimento profundo do amorâ€, explica Cogiola.
As atividades da Pastoral da Família, acredita o religioso, estão ajudando os jovens bauruenses a compreender a plenitude desse sacramento, motivando-os a casar. “Mais conscientes, eles sabem que viver a dois é ceder um pouco de cada lado, mantendo-se o respeito mútuoâ€, aponta Cogiola, que realiza 40 casamentos por ano somente em sua paróquia.
Casamento duplo
Ao cuidar dos detalhes de seu casamento com o securitário Adauto José de Souza Lima, a corretora de seguros Priscila Taborianski Pereira percebeu na prática o perfil casamenteiro do bauruense.
“Foi muito difícil conciliar a data de casamento com bufê, fotógrafo e igrejaâ€, relata a noiva, que casou-se no religioso ontem, mas antecipou a oficialização da cerimônia em cartório para 2 de agosto.
Nesse dia, além dela e Adauto, a irmã, Daniela, e o cunhado, José Eduardo de Oliveira Lima Filho, também oficializaram a união - que já dura sete anos no religioso - perante o juiz de paz. O casamento duplo foi comemorado pelos pais das irmãs.
“Eu e minha irmã nos amamos muito e queríamos comemorar juntas, com a família unida. Os noivos também são muito amigos e concordaram na hora com a proposta. Ficamos muito felizesâ€, garante a corretora de seguros.