08 de julho de 2026
Cultura

Atrás da cortina

Da Redação
| Tempo de leitura: 4 min

Os ensaios, a escolha dos personagens e a forma como se produz uma peça teatral. Esse é o tema principal do espetáculo “Um Grito Parado No Ar”, que será apresentado pela Cia. de Teatro Cena Aberta e Curso Livre de Teatro Paulo Neves na segunda e terça-feira, no Teatro Veritas da Universidade do Sagrado Coração (USC), em Bauru.

Baseado no texto homônimo de Gianfrancesco Guarnieri, “Um Grito...”, conta a história de um grupo formado por cinco atores e um diretor, que busca montar um espetáculo teatral.

Apesar de ter como pano de fundo a época da ditadura dos anos 70, quando o texto foi montado pela primeira vez, o intuito da peça não é evocar discussões políticas. Ao invés disso, visa mostrar ao público o cotidiano vivido pelos profissionais que atuam nos palcos, abordando as dificuldades e os pontos positivos do processo de criação de um espetáculo.

“Enfocamos a prática dos laboratórios, por exemplo, quando os atores vão às ruas entrevistar feirantes, professores, prostitutas, enfim todas as camadas sociais, para tirar a essência das declarações e depois montar as cenas e a escolha dos personagens”, explica o diretor da peça, Paulo Neves.

Denominada de metateatro, essa linguagem enfoca o teatro dentro do teatro. “O objetivo é mostrar a essência de cada um deles através do espetáculo. Os atores têm que assumir o próprio papel no palco, é uma simbiose”, aponta Neves.

Para isso, o cenário e o figurino dos personagens não ganharam tanto destaque, tudo para valorizar apenas o trabalho realizado pelo elenco. “Não trazemos iluminação especial, mas enfatizamos a garra e o profissionalismo deles”, diz o diretor.

Entre as semelhanças encontradas na história escrita por Guarnieri e o cotidiano real dos atores, destacam-se as dificuldades financeiras. “Falta apoio e uma política incentivo aos grupos de teatro de Bauru”, aponta Neves. Segundo ele, além do tema, o roteiro enfoca a determinação e paixão dos personagens pelo teatro, fator inerente também ao seu grupo.

Amadurecimento

A peça traz no elenco seis jovens atores: Renata Camila, Larissa Marques, David Gales, Marcos Cláudio, Osmar Júnior e Daniele Pozza, que interpretam personagens muito parecidos com aqueles vividos por eles no dia-a-dia. Embora a prática possa parecer fácil, ela requer um processo de amadurecimento profissional e pessoal do elenco.

Na opinião de Larissa, protagonista de “Um Grito...”, os ensaios a ajudaram a perceber a aproximação de pessoas interesseiras. “Existem aqueles que só falam comigo por causa das peças”, confessa a atriz, que está aprendendo a trabalhar pontos positivos e negativos de sua personalidade.

Para David Gales, que também integra o elenco, o essencial nesse processo de aprendizagem é mostrar ao público o trabalho desenvolvido pelos profissionais de teatro. “O teatro é um lugar sério e requer muita dedicação”, ressalta.

O ator Marcos Cláudio, que faz o papel do diretor teatral no espetáculo, conta que a peça o estimulou a reconhecer pontos de sua própria personalidade. “Faço um diretor, e ele tem que liderar o grupo. Entretanto, percebi que a questão da autoridade não é uma característica minha. Tive que pensar nisso”, revela.

Além do próprio elenco, quem sai ganhando com o resultado desse amadurecimento psicológico dos atores é a platéia, que tem a oportunidade de se aproximar ainda mais do trabalho desenvolvido dentro e fora dos palcos.

• Serviço

Peça “Um Grito Parado No Ar”, com a Cia. de Teatro Cena Aberta e Curso Livre de Teatro Paulo Neves, será apresentada segunda e terça-feira, às 20h30, no Teatro Universitário Veritas. Apoio: ISA Intercâmbio, Tilibra, Jornal da Cidade, CCI, Prevê Objetivo, Rádio 94 FM e Rádio Auri-Verde. Os convites podem ser adquiridos na escola de idiomas CCI, que fica na rua Rio Branco, 22-27, telefone: (14) 3223-5930; ou a partir de segunda, na bilheteria do Teatro. Rua Irmã Arminda, 10-50. Jardim Brasil.

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Peça foi escrita durante a ditadura

“Um Grito Parado no Ar” apresenta a história de um grupo de atores que se reúne para ensaiar uma peça ainda inacabada. Conforme a data da estréia se aproxima, as dificuldades fazem com que o ensaio transcorra num clima carregado. O grupo, composto por quatro atores, um diretor e um funcionário encarregado dos mais variados serviços, passa a discutir cada vez mais devido à falta de pontualidade e recursos da produção.

Somados aos problemas materiais da equipe, estão conflitos pessoais que se revelam no desgaste e impaciência recíproca entre seus membros que, apesar de tudo, não desistem da empreitada.

Encenada pela primeira vez em 1973, em plena ditadura militar, “Um Grito Parado no Ar” é um dos textos mais conhecidos e montados do ator, diretor e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri, autor também, entre outras peças, da já clássica “Eles Não Usam Black Tie”.

Na época de sua primeira montagem a peça enfrentou problemas com a censura. A canção de Toquinho (em parceria com Guarnieri) que leva o nome do texto deve de ser cortada. Apesar disso, o refrão que restou não deixou de ser contundente: “Quem souber de alguma coisa / Venha logo me avisar / Sei que há um céu sobre uma chuva / E um grito parado no ar”.(Gustavo Cândido)