Difundir a dança árabe, que na maioria das vezes é divulgada de forma comercial ou apelativa, é o objetivo do 5.º Festival Internacional de Danças Árabes que começa hoje a partir das 19h30, no Teatro Municipal “Celina Lourdes Alves Neves”. O evento é realizado pelo Grupo Folclórico Nuriah - uma extensão do Ballet Vitória Régia - em parceria com o Lions Clube de Bauru Norte, e a entrada é um quilo de alimento não-perecível.
A idealizadora e coordenadora do festival, Márcia Nuriah, explica que grande parte dos países ocidentais possui uma visão equivocada das danças originárias dos povos do oriente. “As pessoas associam a coreografia árabe ao mito da odalisca sensual”, aponta.
Uma das modalidades árabes mais conhecidas no Brasil é a dança do ventre, que envolve movimentos corporais complexos, entre eles os ondulados e tremidos, associados à uma eficaz coordenação motora. Segundo Nuriah, apesar ser sensual, a coreografia não foi feita para seduzir os homens, como muitas pessoas imaginam.
“As letras são românticas, geralmente retrata um homem se declarando para uma mulher, e na maioria das vezes, é tocada em festas de casamentos árabes. Ela é extremamente bonita e feminina. A sensualidade acaba sendo conseqüência”, esclarece Nuriah, que morou por cinco anos em Israel e atua, há mais de duas décadas, como professora de danças árabes.
Além da dança do ventre, que se enquadra na lista das coreografias populares, o espetáculo traz diversas apresentações de danças folclóricas, que representam a cultura dos países árabes. No total, serão mostrados 23 números, dançados por bailarinos vindos de diferentes estados, como São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná.
De acordo com Nuriah, apesar de não trazer nomes de companhias internacionais, o evento optou por preservar seu nome de origem, criado em 1998. O festival, que recebe apoio da Confederação Internacional de Danças Árabes (Ciad), é aberto a todas as academias de dança do Brasil e do Exterior. “Desta vez, além de não ter recebido inscrições de grupos internacionais, não tivemos verba suficiente para trazer atrações de outros países”, explica.
Danças
Divididas em populares e folclóricas, as danças árabes misturam diversos ritmos, passos e movimentos diferentes, garantindo a beleza do espetáculo. Entre os números que serão apresentados, se destaca o Dabcke, dança folclórica comum em muitas festas orientais, principalmente as realizadas na Síria e no Líbano.
“As pessoas formam duas fileiras e, posicionadas lado a lado, tocam os ombros, enquanto fazem movimentos repetitivos”, conta Nuriah.
No festival, o público terá uma demonstração do Dabcke com o número “Duo Folclórico”, apresentado pelos bailarinos Rhamza Alli e Marciano Boletti, ambos da Cia. de Danças Árabes do Ballet de Camera de Londrina.
A “Dança do Jarro” é outra coreografia folclórica, que, segundo Nuriah, simboliza os beduínos buscando água nos oásis. Já o “Khaleege” é uma dança típica da Arábia Saudita, e seu figurino é feito de longas batas que escondem o corpo, representado as roupas das mulheres que vivem naquele país.
Caracterizado como um estilo popular, o “Raksa” faz muito sucesso nas festas árabes. Dançada de uma forma mais solta, mas com passos fortes e marcados, a coreografia pode ser conferida com a performance da bailarina Ana Helena Rizzi Cintra, de São Paulo, que apresenta o segundo número do festival, o “Raks Melea Lef”.
Interesse
A procura pelos cursos de coreografias árabes, em especial a dança do ventre, se deve à sua maior divulgação, principalmente através dos meios de comunicação. O primeiro contato com a cultura dos povos orientais ocorreu em 1995, por meio do movimento New Age. Conhecido como Nova Era, ele trouxe à tona o misticismo, além da prática de meditação, ioga e cromoterapia.
Já com a novela “O Clone”, transmitida pela Rede Globo em 2000, a cultura árabe realmente explodiu em diversos estados brasileiros. Era comum ver meninas vestidas como as personagens da trama, e brincos, anéis e pulseiras inspirados no estilo indiano, lotavam as prateleiras de muitas lojas.
Esse boom que aconteceu há três anos, e até hoje contribui para a venda de produtos árabes, é visto por Nuriah como extremamente comercial. “Com ‘O Clone’ houve um apelo, a meu ver, muito mais vulgarizado, associando a dança a um coisa mais sensual, estereotipada, que não correspondia à realidade”, diz.
Segundo a professora, após a novela, a procura pelos aulas de dança do ventre triplicaram. “As meninas buscavam o curso por causa do apelo comercial da TV. Mas quando elas percebiam que a dança exigia dedicação, esforço e que não era uma coisa que se aprendia em um mês, muitas desistiam”, revela Nuriah. Ela relata que atualmente, há uma diminuição do número de matrículas nos cursos de dança do ventre, mas existe uma maior preocupação com a qualidade técnica da dança.
• Serviço
5.º Festival Internacional de Danças Árabes. Hoje, a partir das 19h30, no Teatro Municipal de Bauru. A entrada é um quilo de alimento não-perecível. Avenida Nações Unidas, 8-9, Centro. Informações: (14) 3235-1072.