Jesus Cristo tinha o espírito liberal característico da Galiléia. Livre das amarras conservadoras, mantinha relação amistosa com mulheres, estrangeiros e membros de diversas correntes político-religiosas da época. Essa aura de simplicidade é descrita pelo padre Luís Antônio Sé, que estudou arqueologia bíblica em Israel e foi cativado pelas brisas do lago de Genesaré (Galiléia).
Ao perseguir literalmente os caminhos de Jesus para entender o contexto em que ele viveu, Sé garante ter voltado para o Brasil com os horizontes ampliados, compreendendo melhor as indicações deixadas aos cristãos na Sagrada Escritura.
Ele participou do programa de estudos bíblicos sobre Jerusalém oferecido pela universidade americana de St. Jonh, em 1997. Na oportunidade, estudou arqueologia, além dos cinco primeiros livros da Bíblia (Pentateuco). Também visitou 23 sítios arqueológicos e conviveu com judeus, palestinos e árabes.
A experiência conquistada vem sendo compartilhada na paróquia da Catedral do Divino Espírito Santo, onde o padre ministra um curso bíblico, que atualmente estuda o Evangelho de Marcos. Também ensina teologia para leigos. Segundo o padre Luís Antônio, foi justamente a vontade de auxiliar as pessoas na compreensão da Bíblia que o levou a fazer o curso.
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Jornal da Cidade - Quanto mais o senhor estuda, mais se apaixona...
Padre Luís Antônio - É. Principalmente depois da volta de Israel. Abriu muito a minha cabeça. Quando você vê ao vivo a peça arqueológica e o local onde aconteceram os fatos, é diferente.
JC - O senhor tinha alguma grande curiosidade?
Padre Luís Antônio - Eu tinha, por exemplo, uma grande curiosidade sobre Jerusalém pelo peso histórico que ela tem. Quando você chega lá, vê um ambiente mais pesado. É uma cidade muito tradicional. Tem muito dos hassidins (judeus tradicionais). E eu não tinha imaginado, por exemplo, o contraste com a Galiléia, no norte. A Galiléia é verde, é bonita, é um lugar mais aberto... ela é mais livre.
JC - Na Galiléia tem mais judeus, mais muçulmanos ou é tudo misturado mesmo?
Padre Luís Antônio - A Galiléia é um pouco atípica. Tem algumas cidades com uma população palestina superior à de judeus. (...) Jerusalém sendo mais tradicional e Galiléia mais aberta, deu para perceber o tipo de mentalidade de Jesus.
JC - Qual é?
Padre Luís Antônio - É justamente a mentalidade da Galiléia. Muito mais aberta. Dois mil anos depois, ainda é a mesma situação.
JC - O senhor poderia dar um exemplo dessa liberdade?
Padre Luís Antônio - Qualquer passagem que se refira ao mar da Galiléia. Ali, a relação com o lago de Genesaré, como era chamado o mar da Galiléia, é muito forte. Diversas vilas e vilarejos ficam em torno do mar. Gente que ainda vive da pesca. As pessoas vão para nadar, para ir com a família junto. É uma relação bem mais tranqüila. Os turistas são respeitados, os cristãos são respeitados.
JC - A relação de Jesus com Maria Madalena pode ser fruto desse ambiente com menos rigor?
Padre Luís Antônio - A relação de Jesus com as mulheres, com os cobradores de impostos, com os estrangeiros da região. Tudo isso é muito característico daquela área.
JC - A história mostra a relação de Jesus com as variadas correntes político-religiosas?
Padre Luís Antônio - Aí entra no campo de pesquisa histórica, não é tanto arqueologia. O que nós temos são diversos grupos que atuaram na época de Jesus. Nós temos certeza de que alguns apóstolos pertenciam ao grupo dos zelotas (zelo pela lei). Esse grupo queria o retorno do judaísmo original. É possível que Pedro e os irmãos também tenham sido Zelotas.
JC - E os fariseus?
Padre Luís Antônio - Fariseus, saduceus, já eram grupos religiosos que atuavam dentro do Sinedro (templo), que era o grande conselho religioso dos hebreus.
JC - Quais grupos mais se aproximaram de Jesus?
Padre Luís Antônio - Os zelotas, os essênios (que estavam próximos ao Mar Morto), que queriam a reformulação da estrutura religiosa de Israel. Algo muito mais militar.
JC - Algum representante?
Padre Luís Antônio - Um nome seria João Batista. Ele lembra um pouquinho aquele tipo de pessoa do deserto. Mas não se tem certeza de que João seria um essênio. Ele se aproxima daquele perfil.
JC - Existia algum outro grupo?
Padre Luís Antônio - Vários. O grupo mais interessante era o dos sicários. Eles eram um tipo de terroristas da época. Queriam o fim do domínio romano.
JC - Barrabás era um sicário?
Padre Luís Antônio - Existem várias teorias. Ele poderia ser um sicário, poderia ser um gladiador, que tivesse cometido um crime. Poderia ser um escravo...
JC - Por que Barrabás era adorado?
Padre Luís Antônio - Não sei se era adorado. Os Evangelhos vão colocar o julgamento de duas pessoas e uma manipulação da multidão soltando Barrabás.
JC - Manipulação por parte de quem?
Padre Luís Antônio - Aí entram os fariseus, que poderíamos chamar de classe alta. Fariseus, saduseus, doutores da lei. Eram a elite religiosa.
JC - Jesus representava uma ameaça para eles?
Padre Luís Antônio - Justamente.
JC - Jesus pertencia a algum grupo?
Padre Luís Antônio - Não fica claro nos Evangelhos uma preferência por algum grupo. Jesus vai formar seu próprio grupo, com a base nos pescadores galileus. Havia uma divisão em dois grupos: um que anda com Jesus e alguns elementos que são fixos, como Marta Maria e Lázaro. O grupo de Jesus não tem característica de nenhum grupo da época. E isso provoca um pouco. “O que esse grupo pretende?” é o que diria um fariseu.
JC - Então, os fariseus tinham medo de perder o monopólio?
Padre Luís Antônio - Sim. Os fariseus e saduseus brigavam entre si pela hegemonia judaica dentro da dominação romana, mas faziam parte da mesma panela. O controle era deles. Porque mesmo dominando, Roma não interferia nas questões religiosas. Roma queria o domínio político e econômico da região.
JC - Será que não havia um grupo fortalecendo Jesus para fazer frente aos fariseus?
Padre Luís Antônio - Não. Não temos nenhum documento a este respeito. O que nós temos são os grupos que nós já citamos. Tem o grupo independente de Jesus, que num dado momento cresce muito e, então, se dá o embate com os fariseus e o Império Romano. Aí o grupo de Jesus se dissolve e só se reagrupa depois da ressurreição, mesmo assim, perseguido e escondido.
JC - A Bíblia foi escrita por homens. Algum deles foge do relato comum? Exagera em alguma coisa?
Padre Luís Antônio - O que você tem são interpretações e épocas onde a mentalidade muda. Teve um tempo na igreja em que se falava mais no diabo do que em Deus. Hoje não. Nós preferimos falar muito mais da graça do que do mal. Na Sagrada Escritura você tem textos que mostram as dificuldades humanas e textos que mostram o que Deus está indicando para o homem. E esses textos são muito nítidos.
JC - Existe algum texto que humaniza o diabo?
Padre Luís Antônio - Eu posso te responder por aquilo que é mais a minha área. Nas escrituras você vai encontrar Lúcifer, Satanás, demônio...
JC - É tudo a mesma coisa?
Padre Luís Antônio - Não. Cada nome representa uma situação. Lúcifer, o filho da luz que se rebela contra Deus e que vai ser combatido por Miguel - um outro anjo, que ganha. Você tem Satanás, que é um nome grego que significa aquele que divide. Quem é que pode ser Satanás? Todo aquele que divide. Todo homem ou situação humana onde existe a divisão. A divisão provoca ódio, provoca guerra. Você ainda tem o demônio, que significa o mal, mas no sentido médico.
JC - Doença?
Padre Luís Antônio - Doença física, psicológica, espiritual. Não é uma entidade, mas qualquer coisa que represente o mal. O diabo está presente em todas as situações, não é uma encarnação da entidade diabo. Eu não vejo dessa forma. Eu vejo que o mal está presente e quando há divisão das pessoas, ou violência, fome. Então, quem é Jesus? É aquele que une. É aquele que cura do mal físico, do mal espiritual, psicológico.
JC - Quem tentou Jesus no deserto?
Padre Luís Antônio - Aí nós temos ainda aquele diabo, que se opõe a Jesus. É o antagonista a Jesus, é o tentador. Então aí o diabo vai se apresentar como aquele que oferece a oportunidade naquele momento. (...) Não estou descartando a possibilidade do diabo existir, não estou discutindo isso. Estou vendo como todas essas situações se apresentam na Sagrada Escritura.
JC - De tudo, o que ficou mais forte para o senhor?
Padre Luís Antônio - De tudo, o que fica é a mensagem principal da Bíblia. A mensagem de amor, de solidariedade. No Novo ou no Antigo Testamento, não importa, você vai ter isso. (Sobre) a experiência em Israel, eu acredito que ainda haja condições deles se entenderem. Porque um dia eles se entenderam. É uma região que vai ser sempre propensa a tensões, mas isso não tira a beleza do que ela traz de mais bonito, de mais interessante, que é justamente a mensagem de Jesus.