09 de julho de 2026
Geral

Homem disputa espaço na prostituição

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

Quase metade dos profissionais do sexo da região central de Bauru é homem. Em alguns pontos, a incidência de homossexuais e garotos de programa é maior do que a de mulheres. Hoje, eles somam 43% do total de pessoas que exercem a atividade nas imediações das ruas Presidente Kennedy, Marcondes Salgado e 1.º de Agosto.

A constatação é quantificada na pesquisa “A difícil vida fácil: um estudo de caso sobre a prostituição da região Centro-Sul de Bauru”, desenvolvida pela Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino (ITE) a pedido do Conselho de Comunitário de Segurança (Conseg) Centro-Sul.

O estudo realizado por alunos e professores em maio e junho deste ano ainda mostra que, mesmo nas regiões onde a concentração masculina é preponderante, eles dividem espaço com as mulheres, que preferem trabalhar nos arredores da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da Universidade de São Paulo (USP), na Praça Salim Haddad Neto e entre as quadras 14 e 19 da avenida Nações Unidas.

Ontem à tarde, nesta via pública, a reportagem do JC acompanhou travestis e mulheres trabalhando numa aparente harmonia. A maioria concorda que há uma “invasão” masculina no mercado.

“A preferência do cliente tem contribuído para essa realidade. Eles preferem homens e travestis. Mesmo quando saem com mulheres, adotam práticas sexuais passivas”, conta o travesti Stephany, dotada de belas formas femininas. Sua companheira de trabalho, Natasha, confirma a informação.

Natasha, que vive uma união estável com uma mulher, conta que vem de uma família estruturada e de classe média. Seu padrasto é gerente de uma das maiores empresas da cidade.

“Recebi o convite (para entrar na atividade) de uma amiga e aceitei. Minha família sabe. Aceitam mais minha opção de trabalho do que o fato de eu viver com uma mulher”, conta.

De acordo com a pesquisa, 5,71% dos profissionais do sexo são casados. A profissão para a maioria não é realizada às escondidas do parceiro, aponta o estudo da ITE.

“Ela vem comigo quase todos os dias até aqui. No começo foi difícil, mas agora ela aceita”, explica Natasha, embora não admita a possibilidade de sua companheira exercer a mesma atividade.

Segundo Natasha, devido à resistência decorrente de sua opção sexual, o contato com a família deixou de ser freqüente. Stephany, por sua vez, é bem próxima dos parentes, que aceitam a atividade desempenhada por ela. O contato estreito com a família foi confirmado por 68,57% dos entrevistados durante a pesquisa elaborada pela Faculdade de Serviço Social da ITE.

A manutenção da casa pode justificar a concordância da família, já que a maioria dos profissionais ouvidos pelo JC garante ser arrimo de família. “(...) esta é a razão (salário), que leva o parceiro, sempre desempregado, a aceitar o trabalho da mulher, pois supre as necessidades da casa”, aponta trecho do trabalho.

Duas das entrevistadas pela reportagem, que preferiram ter o nome preservado, atribuem à criação dos filhos a opção pela “difícil vida fácil”.

Uma delas explica que era maltratada pelo ex-marido e que passava necessidades básica. Incentivada pela irmã, passou a prostituir-se, há um ano e meio. “Ele me xingava de tudo que era nome, mas agora aceita porque mantenho nossos filhos, que sabem da minha situação”, diz.

Ela está entre as 37,14% profissionais do sexo que têm filhos (54,29% não têm). A gravidez teria empurrado 5,88% das entrevistadas para a profissão, conforme dados obtidos junto ao material elaborado pela ITE.

Quando questionados sobre os motivos que os levaram às ruas, 82,35% preferiram não responder, porém apenas 2,86% garantem que foi uma opção de vida.

Por essa razão, para a professora e chefe do Departamento de Serviço Social da Faculdade de Serviço Social, que coordenou o trabalho, Geceley Paccola Minetto, a prostituição é decorrência de um problema social.

Concorda com ela o historiador e professor dos cursos de Comunicação Social da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Maximiliano Martin Vicente.

“A prostituição sempre existiu na história, mas ganhou o contorno atual durante a Revolução Industrial, em função da expulsão do homem do campo para a cidade. O próprio processo industrial explorava e selecionava as pessoas para trabalhar. Dava preferência para crianças e mulheres. Quem não conseguia emprego, tinha que procurar uma forma para sobreviver”, esclarece.

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