08 de julho de 2026
Geral

Maioria faz 60 programas por mês

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

A maioria dos entrevistados na pesquisa “A difícil vida fácil: um estudo de caso sobre a prostituição da região Centro-Sul” faz uma média de 60 programas mensais. Dos 35 profissionais do sexo ouvidos por professores e alunos da Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino (ITE), 14,9% chegam a atender 90 clientes num período de 30 dias.

A freqüência do trabalho resulta numa média de renda mensal que varia entre R$ 1 mil e R$ 2 mil. O valor é suficiente para garantir casa própria para 25,71% dos entrevistados.

“Chego a tirar uma média de R$ 100,00 por dia. Às vezes dou sorte e consigo voltar para casa com R$ 300,00. É um bom salário, mas não sei o que faço com o dinheiro, ele some”, confessa Natasha.

A mesma média salarial é obtida por sua companheira Stephany, para quem nem sempre o dia é de sorte. “Às vezes volto para casa com as mãos abanando”, diz. Já Ingrid garante que nunca conseguiu obter tanto dinheiro (R$ 300,00 por dia).

E é justamente a falta de um emprego que garanta uma boa remuneração que as impede de sair das ruas. Pelo menos é o que informaram tanto para a reportagem do JC quanto para os pesquisadores da Faculdade de Serviço Social. Dos entrevistados, 88,57% sentem vontade de sair dessa vida, mas 77% dos profissionais do sexo permanecem na atividade em função do rendimento, diz o estudo.

“Estatísticas oficiais têm demonstrado que uma família com quatro integrantes não consegue viver dignamente com um salário inferior a este”, ressalta o historiador e professor dos cursos de Comunicação Social da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Maximiliano Martin Vicente.

Oportunidade

Mas não é só a importância monetária que os profissionais do sexo recebem que os mantêm nas ruas. Doze por cento atribuem à falta de novas oportunidades profissionais ao preconceito que enfrentam. Dos 35 entrevistados, 68,57% disseram que passam pelo problema.

“Não sofro preconceito, mas qualquer emprego seria melhor. Até hoje me sinto um lixo depois dos programas. Choro todos os dias. Só da primeira vez que não senti nada, porque foi numa balada”, diz uma mulher que pediu para ter o nome preservado.

Segundo ela, antes de batalhar nas ruas de Bauru, trabalhava como acompanhante de uma senhora idosa, que morreu. Depois, não conseguiu recolocação no mercado de trabalho.

Situação idêntica viveu Ingrid, que acabou se habituando com a rotina, mas que não esquece da primeira vez que se submeteu à prostituição.

“Foi horrível, chorei muito”, conta constrangida. Mesmo assim e contrariando a pesquisa, todos os ouvidos pelo JC negaram que sejam vítimas de preconceito. Mas sem saber explicar suas razões, Natasha garante que se tivesse muito dinheiro pegaria sua família e deixaria o País.

Já o sonho de Stephany, diante de uma vida abastada, é o de cursar uma faculdade de engenharia. A pesquisa elaborada pela Instituição Toledo de Ensino mostra que 25,71% gostariam de ser qualquer coisa, menos permanecer “na difícil vida fácil”. Do total, 14,29% optariam por trabalhar como cabeleireiro e 5,71% por ser dançarinos, como uma das moças ouvida pelo JC.

Essas possibilidades ficam ainda mais difíceis aos profissionais do sexo devido à baixa escolaridade constatada e à ausência de programas para capacitá-los em outras profissões. A administração municipal não oferece serviços complementares para atendê-los especificamente (além dos desenvolvidos pela Secretaria Municipal de Saúde).

Mas na opinião da psicóloga Ana Cristina Pereira, a prostituição não é apenas um problema de saúde pública ou de falta de opção de renda. Para ela, os profissionais do sexo exercem a atividade porque desenvolveram um mecanismo psicológico profundo de autodestruição.

“Eles arrumam uma série de justificativas e adotam um discurso, que se contradiz no dia-a-dia. Convivem com riscos horrorosos e com situações de degradação total. A única maneira de resgatá-los dessa vida, é desenvolvendo um trabalho de auto-estima”, conclui.

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