Asma Jahangir, da Comissão de Direitos Humanos, enviada da ONU para o Brasil, disse que temos uma “sociedade muito tolerante”. A crítica pode até não ser construtiva, mas também não é desmerecida. Façamos algumas considerações.
Políticos roubam rotineiramente mas não são tratados como criminosos (na maioria das vezes esse “Ibope” lhes rende a reeleição); criminosos destróem as penitenciárias durante as rebeliões, mas não pagam nada por isso; jovens de até 17 anos matam, roubam e estupram mas não são considerados criminosos; menores infratores destróem as unidades da Febem e agridem os servidores, mas não são responsabilizados pelos danos; a guerrilha do MST destrói prédios públicos, saqueia, invade, causa danos de grande monta a fazendas produtivas, mas é tratada pelo governo como problema social (ao invés de “problema de polícia”); a corrupção na máquina administrativa desvia bilhões rotineiramente, mas o governo não se preocupa em reaver o dinheiro público; a corrupção na reforma agrária não interrompe os fiascos em que estão se transformando os assentamentos; os motoristas infratores (e, muitas vezes, criminosos) são aclamados e apoiados pelas Câmaras de Vereadores de todo o Brasil, reclamando das multas de radares; o motorista se vê no direito de “furar o sinal vermelho” sem querer ser autuado automaticamente; o nível do ensino é que tem que baixar para alcançar a desídia dos alunos; estudantes agridem física e moralmente os professores e a sociedade se cala; furar filas é “tradição” do brasileiro; fraudar licitações e contratos é regra em 90% dos municípios do País.
Com esses poucos exemplos, não me estranha que tenhamos a imagem de país desorganizado, de povo indolente e de sociedade tolerante. Creio que seja incompreensível, para o mundo civilizado, entender como a 8.ª maior economia do planeta é ostentada por uma nação com os piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), piores índices de rendimento escolar, piores sistemas de saúde e previdenciário, altos índices de analfabetismo, maiores porcentagens de miseráveis, menores rendas per capita, enfim, é realmente um paradoxo incompreensível.
Mas, para nós brasileiros, não é difícil entender: quando se trata de defender o direito e a Justiça, políticos, criminosos, menores infratores e invasores de terras têm prerrogativas inquestionáveis, mas, quando se trata de realocar recursos para áreas essenciais, não se economiza com aqueles nem mesmo o mínimo que seria necessário para dar o mínimo de dignidade ao povo brasileiro. Mas se o povo escolhe os políticos...
Ivan Garcia Goffi - OAB/SP 165.173