A incidência da leishmaniose em Bauru, que já acomete oito pessoas, tem colocado em alerta principalmente parentes e vizinhos dos pacientes, que temem a disseminação da doença.
“Se também formos infectados pela doença, não teremos nem como cuidar das meninas. Já faz duas semanas que a primeira está internada e até hoje ninguém da saúde pública esteve no bairro”, lamenta Simone Aparecida Pereira. Ela é tia de duas crianças que estão internadas no Hospital Estadual (HE) de Bauru com a leishmaniose.
A mais nova, de 3 anos, foi o último caso da moléstia confirmado pela Secretaria Municipal da Saúde no Município. Aparentemente, as duas reagem bem ao tratamento.
“Como não têm dor, elas estão achando tudo uma festa. O terrível mesmo foi a nossa relação com os vizinhos, que demonstraram preocupação com o fato de criarmos animais em casa. Além de dois cachorros, temos galinhas e coelho”, conta Simone que, por estudar enfermagem, suspeitou da doença quando as crianças apresentaram os primeiros sintomas.
Informação
De acordo com ela, os órgãos públicos deveriam investir em educação e informação para controlar a propagação da doença, que para a família dela trará inclusive transtornos de ordem econômica.
“Estou faltando na faculdade e posso ser reprovada por isso. Por uma semana minha mãe ficou sem trabalhar para ficar com as meninas. Quando elas receberem alta, teremos de gastar com ônibus para trazê-las diariamente aqui. São duas conduções para ir e duas para voltar. As pessoas precisam se informar sobre as conseqüências da leishmaniose”, ressalta.
Pensa da mesma maneira sua vizinha Sônia Rosa de Oliveira, que reclama de sujeira no Núcleo Edson Francisco da Silva. A falta de higiene pode facilitar a procriação do mosquito palha - transmissor da doença -, que coloca seus ovos em material orgânico em decomposição, encontrado em terrenos baldios e casas abandonadas, por exemplo.
“As pessoas precisam se conscientizar e limpar o quintal e a frente de casa. A própria residência das meninas acometidas tinha um ambiente propício para a proliferação do mosquito”, reclama. Ela também se queixa de uma vizinha da frente e de um imóvel abandonado, que estariam colocando em risco a saúde de humanos e animais.
Pelo menos oito cães da mesma quadra apresentam sintomas da leishmaniose, informa a outra vizinha Rosmari da Silva Moraes. “Vários cachorros aqui apresentam unhas grandes, emagrecimento e inchaço da barriga, além de problema de pele. Estamos com medo. Se um veterinário confirmar a doença no meu cachorro, sou a primeira a pedir que ele seja sacrificado”, garante.
Em animais, os sintomas da leishmaniose são perda de peso, fraqueza, queda de pêlos, crescimento das unhas, febre regular e feridas no focinho, patas e orelha.
“Ligamos para a Vigilância Sanitária, mas por enquanto ninguém nos procurou. A consulta em veterinário particular é muito cara”, reitera, Rodrigo Pereira.
Conforme o JC publicou no início da semana, cinco duplas de agentes estão coletando amostras sangüíneas de cães na Vila Nova Esperança, onde o segundo caso da moléstia em humanos foi identificado. Até a semana passada, apenas dois funcionários tinham a incumbência de percorrer a vizinhança dos infectados para fazer o trabalho.
____________________
Lixo
“Passaram por aqui para colher as amostras de sangue. Dei graças a Deus porque estou muito preocupada. Mas o problema é que as pessoas continuam jogando lixo nos terrenos. Por falta de higiene e conscientização, todo mundo sofre”, lamenta Roseli de Fátima da Cruz, moradora da Vila Nova Esperança.
Enquanto passava pelo bairro, a reportagem constatou a presença de lixo orgânico em vários terrenos baldios e a despreocupação com a doença. Um morador que não se identificou alegou desconhecer os cuidados que devem ser adotados para evitar a propagação da doença.
Uma outra mulher ouvida pelo JC e que também pediu para ter o nome preservado demonstrou mais preocupação com a vida do seu animal de estimação do que com as conseqüências da leishmaniose em humanos.
Por enquanto, 17 cães foram acometidos pela doença – os que não morreram foram sacrificados. Como é a primeira vez que Bauru registra leishmaniose visceral em humanos, a confirmação de oito casos da moléstia coloca o município em estado de epidemia.