09 de julho de 2026
Articulistas

Gírias mudam as conversas


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Tem muito de moderninha a maior parte das expressões, diferentes das regimentais, em forma de gíria, adotadas atualmente por não poucos jovens para se manifestar nos ambientes em que convivem ou nos contatos com colegas. Há, por isso, pais que costumam se queixar do linguajar propagado pelos filhos e que eles, os genitores, raramente atingem, por isso que, então, muitas vezes, acabam se zangando com a garotada, useira e vezeira em diálogos como, por exemplo, “Ocê num tá numa boa... Papai aqui tá numa legal... Curto isso adoidado... Tô nem aí...!” E assim por diante, em uma somatória fabulosa repetindo palavras com que meninos e meninas tentam fazer-se entender, porém nem sempre o conseguem porquanto sua avançada criatividade se perde no escuro das intenções e, não raro, é encarada como um repelível pouco caso. “Parece até que não são nossos filhos e nem brasileiros porque andam por aí, em nossa casa ou longe dela, proferindo termos que não são os da gente!”, explode um dos nossos entrevistados, completando: “Será que se trata de linguajar antigo ou novo demais para que fuja ao nosso entendimento?”

E não é só no dialeto, dificultado por todo tipo de gíria, que muitos jovens de hoje divergem dos de ontem. Também o seu comportamento pessoal é desigual e rejeitado pelos progenitores. Sócrates, Hesíodo e muitos escritores de velha guarda já classificavam os moços e moças como distantes dos caminhos normais dos seus responsáveis. “Nossa juventude adora o luxo, gostando mais de ter do que ser, caçoa das autoridades, responde mal a seus pais, desrespeita os avós e demais idosos etc etc”, escreveu a pena socratina, enquanto Hesíodo completava em uma de suas inúmeras análises: “Não terei nenhuma esperança no futuro do país se a juventude amanhã vier a tomar conta do poder com o desenfreio que pratica. Vai ter que mudar”.

Contudo, estudiosos destes nossos tempos encontram os motivos da problemática, justificando-a com o fato de que a juventude tem nascido e vai nascendo em uma civilização que transformou a vida numa horrível sucessão de “clics”, condicionados para inventar e fazer funcionar tudo quanto de moderno as populações aspiram, exemplo do telefone sem fio, semáforo, computador, automóvel, porta automática, motoca, refrigerador, lâmpada fluorescente, roupas feitas, comidas prontas e, naturalmente, as expressões verbais.

Daí a diferença deste com a dos outros tempos, que não se acomoda à sombra de conversas e práticas moderninhas, sendo admitidas por gente desta e de outras épocas. E, certamente, o serão das futuras também, sopradas pelos ventos da globalização, que, igualmente, vai se tornando gíria. É a nossa opinião.

O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.