08 de julho de 2026
Pesca & Lazer

Pescador testa varas de fly


| Tempo de leitura: 8 min

A modalidade da pesca com mosca ou fly fishing, no Brasil, apesar de já ser praticada há muito tempo, ainda é muito pouco difundida e, até pouco tempo, muito pouco divulgada, em função de vários fatores, entre eles, a dificuldade em encontrar à venda, o equipamento necessário nas lojas especializadas. A falta de informações e de interesse por parte das importadoras, a aura de mistério e de mitos que alguns praticantes e pessoas desinformadas também contribuíram.

Quando se falava em fly, rotulava-se como modalidade de elite, como o último estágio de loucura de um pescador, como esporte para milionários, e quase sempre se ouvia dizer: “Fly? É muito difícil”.

E foi dessa forma que muitos pescadores interessados na modalidade, inclusive eu, tiveram contato com esse fascinante mundo. E desta forma, muitos de nós iniciamos e muitos mais desistiram sem ao menos começar.

Hoje, essa idéia está sendo abandonada. As revistas dão uma atenção maior à modalidade, existem alguns sites que se dedicam à sua divulgação e há algumas pessoas que, apesar das dificuldades impostas pela nossa tão combalida moeda, trazem alguns equipamentos tanto para a pesca, como para confecção de iscas.

Mas infelizmente, essas ações ainda são restritas aos pouco praticantes e a um círculo de amigos que orbitam em torno de sites e revistas, o que ainda é muito pouco para uma divulgação maior da pesca com mosca, para um aumento substancial de praticantes, que justifique um investimento de importação de uma linha de produtos e que, acima de tudo, haja continuidade nas importações.

Enquanto não houver um empenho maior por parte dos veículos de comunicação, como por parte dos lojistas e importadores, restará somente a eterna desculpa que não se importa porque não se vende, e não se vende por que não se importa.

Para tentar acabar com esta situação, algumas empresas começam a importar equipamentos para esta modalidade. O início ainda é tímido, porém aos poucos estamos nos acostumando a ver em uma ou outra loja, varas, carretilhas e alguns tipos de linhas, o que já é alguma coisa.

Empresas sérias, que se preocupam com o mercado e seu desenvolvimento, o que lhes possibilitarão auferir vantagens com o pioneirismo, já que lucrar não é pecado, e se há investimentos, deverão ocorrer retornos financeiros de modo a permitir novas importações e maiores investimentos de forma a fortalecer esse segmento do mercado que está começando a engatinhar.

Desta forma, a Hobby Fishing, uma das grandes lojas de equipamentos de Curitiba, resolveu apostar no fly e realizou a importação dos equipamentos Daiwa, mais precisamente, as varas e carretilhas Alltmor, equipamentos que vieram a acrescentar mais uma opção de equipamentos de qualidade aliado ao preço acessível.

Quando estes equipamentos chegaram em Curitiba, fui convidado para fazer a página de apresentação destes produtos para o site www.pesca.com.br. Após estudar os produtos, achei que só me ater às características técnicas do produto, seria pouco devido à qualidade do material que tinha em minhas mãos e resolvi partir para um teste como um possível consumidor desses equipamentos.

Para fazer os testes, convidei meu amigo Beto Vaucher, praticante da modalidade há alguns anos, o qual muito me auxiliou. Por não termos conhecimento das normas internacionais da AFTMA, ou da FFF, nossos testes não tinham nada de sofisticação ou de relatórios científicos e técnicos a respeito do projeto de construção das varas, tampouco às análises físico-químicas do grafite utilizado, e nem a preocupação com o grau de fadiga do material ou seja lá o que for.

Seriam testes de arremesso e comportamento das varas. testes simples e objetivos, tentando passar um pouco de informação das varas. Para nosso mercado, são varas novas, há muitos anos presentes em outros países, modelos que até então não existiam por aqui. Tampouco se tratam de varas adequadas às condições de pesca no Brasil, são varas fabricadas na Escócia, para os padrões mundiais como são as Orvis, Sage, G-Loomis, Cortland, Thomas & Thomas, Winston, Scott, St. Croix e tantas outras no mercado. Que são varas usadas pelos pescadores brasileiros.

Só que com dois diferenciais. Possivelmente não tenham a qualidade e a fama de algumas top de linha, mas também não possuem o preço que acompanham estas famosas marcas.

A minha intenção foi colocar minhas impressões a respeito do equipamento e não apresentar um tratado sobre as varas. Mesmo porque, dificilmente a Daiwa irá investir numa linha de varas especialmente desenvolvida para o Brasil. O nosso mercado não comporta tal investimento.

Caso a Daiwa assim fizesse, com certeza estas varas não poderiam ser comercializadas ao preço que está em vigor, cerca de 1/3 do preço das varas especialmente desenvolvidas para nosso mercado.

Às vezes o pescador não quer ou não pode pagar todo esse preço, aí então as varas mais acessíveis desempenham seu papel. Desde que tenham qualidade para tal.

Os resultados

Estes testes foram feitos em dias diferentes, pois devido à falta de algumas linhas, como a #2, #3 e #5, acabamos testando no primeiro dia as varas #3/4, #4, #6, #7 e #8.

As varas #2, #3 e #5 foram testadas após duas semanas, quando então recebemos as linhas faltantes no primeiro dia.

#2 – Quando tomei este equipamento em minhas mãos pela primeira vez, as 46 gramas de peso deixaram-me com uma boa impressão, porém com um certo temor ante a sua aparente fragilidade. Montei uma carretilha Super Ace 50, da ShinA com uma linha Rio DT 2 F, com um misto de admiração e curiosidade, por nunca haver manuseado um equipamento tão delicado.

No início, pela falta de prática com um equipamento tão leve (estou mais acostumado com um equipamento #4, mais rápido), fui fazendo arremessos curtos para sentir o carregamento da linha. No máximo, com sete ou oito metros e muito medo de partir a vara, pois ela é realmente muito delicada e leve ... Sua ação é lenta, o que a torna perfeita para apresentações delicadas.

Com o passar do tempo, surpreendi-me com o desempenho da vara, pois em pouco tempo acertei a pega e o tempo de arremesso, fazendo com que mais linha fosse retirada da carretilha e no final estava fazendo arremessos de 15 a 18 metros, fácil, fácil...

Ao meu ver, a distância não é o item que mais me preocupa, e sim com a apresentação da isca e a precisão do arremesso, principalmente na pesca do lambari, peixe o qual acredito ser de uma esportividade só comparada aos dourados, guardadas as devidas proporções, evidentemente...

Utilizei um leader cônico 5X, da Varivas, um leader seguindo uma receita retirada do site www.flyonline.com.br e um leader cônico trançado confeccionado pelo amigo Nivaldo Guerreiro, onde a delicadeza da apresentação da mosca, sem sombra de dúvida, ficou muito evidenciada com este último... Esse leader teve um desempenho muito superior aos outros, sendo que mesmo contra o vento, a apresentação da isca seja perfeita em trajetória, em velocidade e até no recolhimento, pois mesmo com a superfície do lago muito mexida em função dos ventos, fazendo com que a isca e o tippet afundassem, o leader manteve-se na superfície o tempo todo.

#3 – Este modelo de vara é em quatro partes, o que faz com que seja uma vara ideal para viagens, devido à facilidade de transporte. Neste equipamento utilizei uma linha semelhante, a DT 3 F. Trata-se de um equipamento de ação média, talvez em função das três emendas presentes no blanc da vara. Carrega muito bem e seus arremessos são precisos e firmes.

#3/4 – Esta se mostrou muito bem balanceada, de ação média, que carrega muito bem a linha e permite apresentações muito precisas e suaves com a linha DT 3 F. Também foi utilizada uma linha WF 4 F Rocket Taper, a qual ganhou um pouco mais em distância, em função do peso da linha. Apresentada em três seções, é outro modelo igualmente fácil de armazenar e transportar.

# 4 - A vara #4, é de ação lenta, é mais flexível e própria para arremessos curtos e suaves. Foi utilizada uma linha WF 4 F Rocket Taper. Como utilizo uma vara #4 da LamiGlass em quatro partes, senti um pouco de diferença ao arremessar, já que meu equipamento é um pouco mais rápido.

#5 – Outra vara surpreendente ... Ação média rápida, boa resposta de carregamento da vara utilizando uma linha muito pouca usada, a L 5 F, proporcionou bons arremessos, acredito que se houvesse testado-a com uma linha WF 5 F teria um resultado ainda melhor.

#6 - De ação média, porém um pouco mais rápida, permite bons arremessos e responde muito bem ao carregamento da linha, com arremessos precisos. No arremesso da linha ST 6 S, mostrou um desempenho razoável.

#7 - Ao meu ver, utilizando linha WF7F teve um excelente desempenho, ação média e permite ótimos e longos arremessos. Arremessando a linha ST 7 S apresentou um desempenho médio. Quando a utilizamos para arremessar a linha ST 6 F, seu desempenho foi acima da média.

#8 – Esta vara é um pouco mais dura, de ação mais rápida, que permite arremessos longos, com resultados excelentes no arremesso de iscas volumosas. Para quem costuma pescar Tilápias utilizando Spin Glo ou Varejeira, prática muito utilizada aqui em Curitiba, é uma vara que surpreende. Foi utilizada uma linha WF 8 F. Ao arremessar uma linha ST 7 S, ela teve um bom desempenho, apesar desta linha não ser a ideal para ela.

O autor, Nelson Maciel, é pescador e colaborador da seção Pesca & Lazer.