07 de julho de 2026
Ser

No ritmo do Brasil

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 7 min

Aos 32 anos, a cantora e atriz de musicais Andréa Marquee lamenta ter descoberto a música como profissão tão tarde. Mas desde a infância, quando ouvia a mãe, dona Francisca, cantarolando ao lavar roupa se divertia com as notas. Hoje é a mãe quem se diverte com o sucesso da filha.

Mas ela admite que seu processo criativo, ora doloroso, ora extasiante, começa cantarolando. “Tudo começa cantarolando”, brinca a paulistana descendente de nordestinos e com voz de diva negra, que passa do grave para um agudo, num segundo sem sujar o tom.

Como profissional de música, ela aponta, não precisa consumir tudo, mas tem que ter ouvidos para tudo.

“Eu me cobro muito. É horrível, tenho uma autocrítica cruel, mas estou tentando me livrar disso.”

Depois de fazer os principais musicais em meados da década de 90, como “Hair”, “Rent”, “Cats” e “Cabaré Brasil”, Andrea fez recentemente “Cambaio”, de Chico Buarque e Edu Lobo, sob a direção musical do pernambucano Lenine. No cinema, atuou como atriz em “Orfeu”, de Cacá Diegues.

Antes de participar da academia de música “Fama”, da Rede Globo, Andrea Marquee cantou na noite paulistana e européia com a banda paulistana Heartbreakers. Também foi na Europa e em Sampa que divulgou seu primeiro CD solo “Zumbi”, lançado em 1999.

E foi em Bauru, no último dia 8, no Sesc, que a cantora pisou pela primeira num palco fora deste circuito, iniciou a turnê nacional de seu trabalho e conversou com o Caderno Ser. Os principais trechos da entrevista você confere agora.

Jornal da Cidade – Você começou a gostar de música ouvindo a sua mãe cantar enquanto lavava roupa? Andréa Marquee – Era, era mais ou menos isso.

JC – Mas o que ela cantava? Você parava para ouvi-la? Andréa – Era mais diversão mesmo. Eu não cantava nada quando era criança, mas eu tenho essa lembrança dela. Da família inteira na verdade, porque família de nordestinos é sempre muito festeira. Lembro da minha tia cantando também. Mas cantarolando, não era música, música, elas cantarolavam para passar o tempo.

JC – E você? Quando descobriu que queria passar o resto da vida cantarolando? Andréa – Tarde. Aos 20 anos. Mas eu cantava no colégio quando tinha festinhas, mas nunca achei que isso seria uma profissão. Aí depois, uma coisa foi acontecendo depois da outra e eu acho que só muito recentemente caiu a ficha e eu entendi que era isso que eu queria fazer mesmo. Com o tempo, eu achava que poderia surgir alguma coisa na minha vida e eu podia desencanar.

JC – Foi por isso que logo que você se descobriu cantora resolveu gravar um CD e recuperar o tempo perdido? Pois o “Zumbi” é de 1999. Você tem 32 anos... Andréa – Eu já tinha gravado dois discos com os Heartbreakers, que é uma banda de São Paulo muito legal. Já tinha ido para a Europa com eles para fazer a divulgação desses discos. Eu fazia teatro e acho que tudo começou pelo teatro na verdade. Aí fiz alguns cursos enquanto eu não começava a faculdade de jornalismo, que não terminei, fiz só dois anos. Depois, quando eu parei a faculdade, era um misto, era muito divertido. Eu comecei a conhecer muita gente tão parecida comigo que comecei a sobreviver disso e acabou que virou minha profissão.

JC – Mas falando do “Zumbi”, como você define esse disco, a sua primeira cria? Andréa – Acho que foi um encontro de várias pessoas. Quando você faz um disco, ele é resultado de vários encontros, não é só seu. É um disco das parcerias que você faz. Através do Heartbreakers eu conheci a Y Brasil, Maurício Aguiar e o Lucas Israeli e essas pessoas fizeram um disco bonito junto comigo. Foi isso.

JC – O disco já tem cinco anos, mas só que nesse caminho você fez uma série de musicais para resgatar o teatro do tempo em que você se dedicou à música? Andréa – Eu não abandonei nem uma, nem outra coisa. Mas tem alguns períodos em que você trabalha mais ou menos. Nos períodos em que estava trabalhando menos com música eu me dedicava ao teatro. Nos períodos em que não havia nada em teatro em que se encaixasse o meu perfil, porque eu nunca fiz nada tradicional, me dedicava integralmente à música. Mas eu nunca abri mão de fazer música. Em todos os trabalhos que eu fiz, os diretores sabiam que eu tinha um trabalho paralelo e que este trabalho era mais importante. Mas o teatro me ensina muito e eu não sei se vou conseguir abrir mão disso. Foi através do teatro que eu conheci o Chico Buarque que era um ídolo, Edu Lobo, que eu pude fazer trapézio, circo... coisas que talvez eu não fizesse através da música. Eu pude aprender dança de uma certa maneira, porque eu danço mas não sou uma bailarina. Eu só danço porque fiz teatro. Então, eu aprendi várias coisas que eu acoplo ao meu trabalho cênico. É enriquecedor e eu não gostaria de fechar integralmente esse caminho.

JC – Ritmo é o que te move? Andréa – É. Certamente. Eu não tenho noção harmônica. A maioria do que eu faço é intuito. Claro que depois de dez anos de trabalho, trabalhando com teatro e com música, algumas coisas talvez eu realmente saiba, mas não é muito consciente. E eu acho que a coisa forte em mim, por não ter escola acadêmica, são os ritmos. Eu componho baseado nisso.

JC – Você então é uma auto-didata da intuição? Andréa – Perfeitamente (risos)

JC – E nesse aprendizado como entra o “Fama”? Ajudou? Trouxe fama? Andréa – Trouxe, trouxe sim. Mas é claro que não consigo avaliar isso agora. Eu entendi como um processo de teatro onde você só compreende o que aprendeu depois de muito tempo. Às vezes, durante o processo é até difícil de você compreender. Eu acho que todas essas coisas te acrescentam. É claro que também tem coisas boas e ruins. As ruins eu guardo para mim. As boas eu divido com todo mundo. Então, eu aprendi um outro processo de trabalho, diferente daquilo que eu vinha fazendo com a minha banda. Eu tive aulas que jamais eu poderia pagar e... teve uma coisa... Eu não tinha muita noção, por exemplo, que no mundo musical também tem competição e o Fama me trouxe para a realidade do negócio... Eu trabalhava de uma maneira muito mais lúdica, do que trabalho agora. Agora estou um pouco mais madura. Isso se deve ao processo do Fama. Eu ainda não consegui aprender todas as coisas que adquiri com esse processo. Eu acho que vai levar um tempo, mas eu estou no caminho, tentando entender o que significou.

JC – E nesse caminho o que vem pela frente? Andréa – Mais música, eu espero.

JC – Teremos outro disco? Ou você está na seleção para “Chicago”, já que participou dos grandes musicais que o País teve? Andréa – Eu fiquei sabendo dos testes e até fiquei pensando se teria algum personagem que se adaptaria a mim, mas eu acho que não tem. Então, se eu puder trabalhar com música, essa é a minha prioridade. E se eu quiser trabalhar com música, um musical nesse momento atrapalharia. Mas eu estou sempre disposta a trabalhar.

JC – O que a sua experiência européia trouxe de diferente ao seu trabalho no Brasil? Andréa - Essa é a primeira vez que saio de São Paulo com o meu show. Já saí de São Paulo com os HeartBreakers, mas para fora do Brasil. Só trabalhei na Capital. Esse é o primeiro, primeiro. O meu show, com esse formato, é a primeira vez que se apresenta no Interior. Lá fora fiz 11 países, várias cidades, públicos, casas. Mas não tive essa experiência aqui no Brasil. Espero que possa ter agora a chance de fazer várias frentes. Show em praça pública, show em casa noturna, shows em Sesc, em casas fechadas, eu não tive essas experiência aqui. Então, talvez eu possa trazer de lá, da Europa, o que aprendi, para cá. Eu também não sei como o público vai reagir ao meu trabalho. Pois o que eu faço, para a gente, é uma coisa muito tranqüila, em casa, porque eu trabalho com os ritmos brasileiros, música brasileira. Então, eu estou muito curiosa para saber como as pessoas vão reagir à minha leitura de música brasileira. É uma coisa que tenho muita curiosidade, mas de uma certa maneira eu entendi como o público europeu me entende, a aceitação foi boa e eu estou superansiosa para saber como vai ser daqui por diante.