09 de julho de 2026
Geral

Sem estrutura, Bauru não trata animais

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 3 min

A confirmação de casos de leishmaniose em Bauru (nove casos já foram diagnosticados em humanos) traz novamente à tona a discussão sobre o destino dos animais errantes, aqueles que andam abandonados pelas ruas da cidade. A falta de um local que possa recebê-los é apontada pelo Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), órgão da Secretaria Municipal da Saúde, como a principal causa do problema.

“Por lei, os animais que não possuem dono são tutelados pelo Estado. A gente jamais se eximiu dessa responsabilidade, só que não temos a estrutura para fazer o recolhimento”, afirma o médico veterinário e chefe do CCZ José Rodrigues Gonçalves Neto.

Segundo ele, essa situação deve ser amenizada até o final do ano, quando as obras de ampliação do centro, que começaram em maio, estiverem concluídas. “A gente trabalha com a expectativa de estar recolhendo por volta de 20 a 30 animais por dia, mas é lógico que há uma demanda reprimida que não sabemos qual vai ser”, prevê.

Atualmente, o único local que abriga animais errantes em Bauru é o espaço mantido pela União Internacional Protetora dos Animais (Uipa), que tem cerca de 500 cães e gatos.

Gonçalves Neto não arrisca calcular o número de animais abandonados na cidade, mas acredita que poderia ser bem menor se houvesse uma conscientização maior das pessoas. “Antes de arrumar um animal, você tem que pensar muito bem, porque ele é totalmente dependente do ser humano. Além de dar despesas, ele precisa de você para alimentação e higiene e tem que ficar dentro do domicílio”, diz.

O chefe do CCZ lembra que, nos casos de cães e gatos que pertencem a famílias carentes, é obrigação do município estar prestando atendimento veterinário apenas nas situações em que há riscos para a saúde pública, como é feito durante as campanhas de vacinação anti-rábica. “As doenças que acometem só os animais têm que ser de responsabilidade dos seus proprietários”, declara.

Ele acredita que o poder público jamais terá condições para mudar essa situação. “Isso é um vácuo que existe em todos os lugares e que deve ser ocupado por entidades não-governamentais”, opina.

Críticas

As explicações e argumentos do chefe do CCZ não convencem as entidades de proteção aos animais de Bauru. A Uipa e a Sociedade de Proteção Ambiental Mountarat fazem críticas ao trabalho que é desenvolvido na cidade. “O município nunca se incomodou com a posse responsável. Todos esses animais errantes tiveram um dono”, afirma a presidente da Uipa de Bauru, Maria Dolores Barbosa Gomez.

A delegada da Mountarat, Damair Pereira de Almeida, concorda. “O centro trata os problemas dos animais com tanto descaso que, quando vem o problema de saúde pública, fica muito fácil jogar a culpa neles”, opina.

Para ela, há duas providências que deveriam ser tomadas. “Primeiro, colocar uma medalhinha que funcionaria como um RG, o que incentivaria a posse responsável. Outra coisa é estimular a castração através de um convênio entre clínicas veterinárias e a prefeitura”, sugere.

Maria Dolores também defende a castração. “Se você começa a esterilizar os animais nas regiões mais carentes, eles param de nascer”, diz.

As representantes das entidades também acreditam que a ampliação do CCZ não resolverá o problema dos animais abandonados em Bauru. “Acho que o serviço vai continuar o mesmo”, afirma Damair.

Maria Dolores diz que há outros municípios que recolhem os errantes e, mesmo assim, não tiveram êxito na tentativa de diminuir o número deles. “Em São Paulo, ficou provado que matar não é a solução. A Uipa propôs um plano de castração, mas eles acham mais fácil pegar e matar”, declara.

A Uipa, aliás, é totalmente contra o sacrifício de animais. “Só fazemos isso nos casos indicados pelo nosso veterinário, para aliviar o sofrimento do animal”, afirma.

Já a Mountarat não vê obstáculos nessa prática. “Desde que se faça também algo para combater a conseqüência, como a castração”, diz Damair. Em função disso, a entidade não recolhe animais.