11 de julho de 2026
Economia & Negócios

'Risco-Bauru' mobiliza novas propostas e ações para desenvolvimento

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 5 min

O sinal amarelo para os investimentos em Bauru está aceso, mas existe luz no fim do túnel. A constatação, feita pela Fundação Seade através de pesquisa realizada no primeiro semestre deste ano nas 15 regiões administrativas (RAs) do Estado de São Paulo e que mostra os investimentos anunciados para a região de Bauru, levou empresários, políticos e entidades de classe a discutir alternativas para fazer com que Bauru, coração do Estado, volte a ser um grande pólo atrativo. E propostas para o desenvolvimento da cidade não faltam.

A um ano do pleito que vai indicar novo prefeito, vice e vereadores, é unânime a afirmativa de que o município precisa urgentemente de um plano de investimento induzido, ou seja, medidas que devem ser tomadas em conjunto, independente de picuinhas políticas, para que a cidade não fique à mercê de iniciativas isoladas.

A fuga de investimento é atribuída a um “risco-Bauru”, alimentado pela instabilidade política que atinge a cidade há mais de cinco anos. A crise provoca insegurança nos investidores, que precisam reencontrar os mecanismos de confiabilidade do passado.

Segundo a Fundação Seade, no primeiro semestre deste ano os investimentos anunciados para a região de Bauru caíram 66,5% em relação aos seis primeiros meses de 2002. No primeiro semestre do ano passado, empresas privadas e estatais anunciaram investimentos no total de US$ 108,4 milhões, contra apenas US$ 36,3 milhões no mesmo período deste ano.

A tendência de queda é confirmada pelos números de anos anteriores: de janeiro a dezembro de 2002, Bauru recebeu US$ 165 milhões em investimentos anunciados. O valor representa pouco mais de um quarto do capital aportado em 2001 - US$ 619 milhões -, e cerca de um terço do anunciado em 2000: US$ 457 milhões.

O interesse empresarial em investir na região de Bauru vai na contramão do total do Estado, onde o volume de investimentos apresentou variação pequena, porém positiva. Foram US$ 7,37 bilhões em 2003, contra US$ 7,23 bilhões nos primeiros seis meses de 2002: 1,9% a mais.

O bolo cresceu, e a fatia destinada ao Interior do Estado foi maior que a recebida pela região metropolitana de São Paulo. Enquanto a Capital e os municípios próximos tiveram anúncios de investimentos no total de US$ 2,93 milhões, as cidades do Interior foram destino de US$ 3,59 milhões no primeiro semestre deste ano. Outros US$ 848 milhões não têm destino específico, como no caso de concessionárias de rodovias.

A região de Bauru, que esteve no ranking de investimentos em 2000 e 2001 atrás apenas dos grandes centros (São Paulo, Campinas, São José dos Campos e Baixada Santista), hoje recebe menos capital empresarial do que cidades como São José do Rio Preto, Araçatuba ou Marília. Esta, com população pouco maior que a metade de Bauru e distante apenas 100 quilômetros, viu investimentos anunciados para a cidade crescerem 60% neste ano.

Apenas o município de Bauru recebeu US$ 6,63 milhões. Com investimentos da sueca Volvo, Pederneiras recebeu US$ 7 milhões. Jaú foi destino de US$ 15,25 milhões, impulsionada pela Sanej, companhia de captação e tratamento de água. A cidade de Promissão, englobada pela região administrativa de Bauru, teve anúncios de investimentos da ordem de US$ 4,38 milhões.

Futuro e passado

Para o economista e analista da Fundação Seade, Guilherme Montoro, é preciso cuidado ao avaliar os dados da pesquisa, uma vez que o período de análise é curto e os investimentos são pontuais e sujeitos a grandes variações. “Uma vez que uma empresa anuncia um investimento, ele não é feito em uma semana ou um mês. Às vezes demora meses, até anos, para terminar de ser feito”, diz.

Se por um lado o economista explica que a pesquisa da Seade é “sobre o futuro”, indicadores sobre o passado de Bauru divulgados recentemente mostram que a cidade passa por crise. A desigualdade social se agravou na cidade na última década, de acordo com o Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil. Entre os 645 municípios paulista, Bauru despencou nesse quesito do 380.º lugar em 1991 para a 579.ª posição em 2000.

A eficiência da administração pública da cidade também deixa a desejar. De acordo com o Índice de Eficiência Municipal (IEM), um levantamento realizado pelo Instituto de Estudos Metropolitanos (IEME), Bauru está na 42.ª posição entre os 55 municípios paulistas mais importantes economicamente.

Botucatu, por exemplo, está em 4.º lugar e é referência na gestão de gastos com o Legislativo. O índice leva em conta três variáveis: gestão do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), gastos com o Legislativo e custos do funcionalismo.

"Risco-Bauru"

O economista Reinaldo César Cafeo, delegado do Conselho Regional de Economia (Corecon), afirma que a instabilidade política da cidade prejudica o desenvolvimento econômico. “O empresário analisa inúmeras variáveis, como a conjuntura econômica, a perspectiva de retorno e olha também o potencial da cidade do ponto de vista da sua estabilidade política”, diz.

A medida dessa desconfiança em relação à cidade remete ao risco-país, índice utilizado para medir a probabilidade de determinado país honrar seus compromissos - dívidas de títulos públicos. Apesar de se basear em cálculos técnicos, o risco-país é, fundamentalmente, político.

Neste ano, dois vereadores de Bauru foram cassados e dois renunciaram antes da votação de uma Comissão Processante. No dia 19 de janeiro, o prefeito Nilson Costa (PTB) foi cassado pela Câmara acusado de omissão em irregularidades na compra de carne para a merenda escolar. O vice Dudu Ranieri (PFL) assumiu e, 23 dias depois, deixou o cargo após uma liminar obtida por Nilson.

“Se as questões de disputa de poder ficarem acima das questões coletivas, é evidente que nós não vamos chegar a lugar algum”, afirma Cafeo, que defende uma discussão democrática “madura” na cidade. “Esse número (queda nos investimentos) é uma resposta aos políticos de Bauru”, declara.

De acordo com Cafeo, a cidade carece de uma política de investimentos induzidos - que passa por um mapeamento das riquezas locais, valorização das empresas locais e elaboração de um Plano Diretor - e depende apenas de inciativas isoladas. “A impressão que dá é que o setor público deixa um pouco a natureza levar”, diz.

O economista observa que, como houve um certo aumento de investimentos no Estado em relação a 2002, e centros como a região metropolitana, Campinas e mesmo Ribeirão Preto estão saturados, Bauru seria um pólo de atração natural.

“A cidade deveria estar se preparando para receber esse capital”, afirma Cafeo. E completa: “Como teve um aumento dos investimentos (no Estado) e houve um deslocamento para outras regiões, é porque nós perdemos por incompetência mesmo.”