10 de julho de 2026
Saúde

Anestesia: Complicação ocorre a cada 150 mil casos

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

A primeira pergunta que os pacientes fazem quando o médico indica uma cirurgia é: “Vou ter que tomar anestesia geral, doutor?”. O medo que este procedimento causa nas pessoas vem de uma época em que os acidentes eram mesmo freqüentes. Hoje, porém, o risco de se ter uma complicação anestésica grave é de um para cada 150 mil anestesias aplicadas, ou seja, uma incidência de 0,00066%.

Na opinião do médico anestesiologista José Carlos Bonjorno Júnior, a principal causa do medo é a desinformação. “Temos muita propaganda contra, histórias de 20-30 anos atrás em que algo saiu errado. A anestesia evoluiu e evolui muito. O procedimento que usamos hoje é muito melhor que o que usávamos três anos atrás. Por isso, a melhor solução para curar esse medo é conversar com o paciente”, afirma.

Ele comenta que tudo o que se faz em medicina é baseado em minuciosos estudos e inúmeras evidências. A conseqüência disso reflete-se no aprimoramento tecnológico, farmacológico e de conhecimento, ou seja, os equipamentos usados hoje são muito mais precisos, as drogas aplicadas são mais eficazes e têm menos efeitos colaterais e o treinamento do profissional é muito mais rigoroso.

“Há 30 anos, o risco de uma complicação grave num procedimento anestésico era de um para cada 10 mil cirurgias. Caiu para um em cada 100 mil casos na década passada e, atualmente, é de um para cada 150 mil casos. Hoje sabemos que é dez vezes mais perigoso andar de automóvel que sofrer uma complicação anestésica”, compara.

Para reforçar esses números, Bonjorno Júnior afirma que, na cidade de Bauru, são realizadas entre 20 mil e 30 mil anestesias por ano, ou seja, a cada cinco a seis anos pode haver caso de complicação grave.

Para garantir essa segurança, todo paciente é submetido a uma avaliação pré-anestésica antes da cirurgia. É uma consulta em que o profissional vai avaliar toda a condição de saúde daquela pessoa. Se o paciente apresentar alguma alteração importante, ele faz um tratamento pré-operatório específico.

“Nós sempre avaliamos essa relação de custo x benefício. Se o doente está em situação crítica, mas a cirurgia aumenta sua possibilidade de viver, nós o operamos. Mas se é uma cirurgia estética e ele tem uma pequena alteração de pressão arterial, nós esperamos. Tudo isso de acordo com critérios e classificações padronizadas internacionalmente”, garante.

Além disso, o paciente é monitorado durante toda a cirurgia. São vários aparelhos medindo seus batimentos cardíacos, consumo de oxigênio, pressão arterial, temperatura do corpo, atividade cerebral, concentração de anestésicos - tudo feito por computadores que sinalizam à menor alteração. Isso permite que o médico tenha condições de intervir ao menor sinal de reação.

Bonjorno Júnior ressalta que a ansiedade exagerada do paciente no momento da cirurgia acelera o metabolismo. Uma pessoa que já sofra de hipertensão, por exemplo, pode atingir níveis de pressão arterial proibitivos para a realização do procedimento. “O medo é natural e importante, mas o medo exagerado pode nos atrapalhar”, completa.

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Uma longa história

De acordo com o anestesiologista Olegário Bastos, a primeira tentativa de abolir a dor remonta da criação do homem bíblico. “Está no livro do Gênesis, 2-21: ‘Mandou pois o Senhor Deus, um profundo sono a Adão...’ (para retirar dele uma costela e criar a mulher)”, afirma.

Ao longo da história, registros indicam que os povos antigos sempre usaram substâncias narcóticas e alucinógenas para driblar a dor. Também havia outras técnicas, como estrangular o paciente ou aplicar-lhe golpes de martelo na nuca até a perda da consciência. Certamente, muitos não voltavam.

“Já pelos séculos 12 e 13 até o início do século 18 foram utilizadas largamente a morfina, a escopolamina e as bebidas alcoólicas para os procedimentos cirúrgicos - substâncias que levam ao torpor e à prostração”, salienta.

Como arte médica, a anestesia surgiu em 1842, com Crawford Long, na Geórgia. Segundo Bastos, o cientista obteve bons resultados com a inalação de éter sulfúrico. Um pouco mais tarde, Horace Wells usaria o gás óxido nitroso para tirar a dor do paciente em extrações dentárias.

Bastos conta que o primeiro procedimento anestésico propriamente foi registrado em 16 de outubro de 1846 - há exatos 157 anos. O estudante de segundo ano de ciências médicas William T. C. Morton, depois de muitas experimentações, foi convidado para demonstrar sua descoberta no Hospital de Harvard, nos Estados Unidos.

“O paciente Gibert Abbott seria operado para a retirada de um tumor de mandíbula. O fato se deu perante vários assistentes médicos (...) Morton usava um aparelho muito rudimentar, uma máscara acoplada a uma esfera metálica revestida por uma esponja embebida em éter sulfúrico. Havia uma entrada e saída de ar com válvulas e uma bexiga de carneiro que inflava e desinflava indicando a respiração do paciente”, conta.

Poucos minutos depois de ligar a máquina ao paciente, Morton o entregou ao cirurgião J. C. Warren, dizendo que estava preparado. A operação foi realizada sem nenhuma reação dolorosa, o que se confirmou após a reanimação do paciente.

Segundo Bastos, diante de assistentes perplexos, o cirurgião anunciaria “Senhores, não há farsa”. E estava consolidado o domínio do homem sobre a dor.

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