08 de julho de 2026
Geral

Escambo torna-se solução para a crise

Diego Molina
| Tempo de leitura: 6 min

Quando o dinheiro não existia, a economia era baseada na troca, o chamado escambo. Atualmente, com a crise econômica, o desemprego e os baixos salários, muitas vezes o dinheiro é escasso. Para muitas pessoas, a solução encontrada para cumprir seus compromissos e pagar suas contas é tentar fazer um acordo e promover uma troca de mercadorias e serviços.

Na opinião do economista Said Yusuf Abu Lawi, este “escambo moderno” é decorrente direito da crise pela qual o País está passando e do achatamento dos salários.

“Esta prática vem aumentando dia a dia, e se tornando até comum. As pessoas oferecem um serviço em troca de outro, ou uma mercadoria em troca de outra. Se você trabalha com material de construção, por exemplo, e não pode pagar o posto de combustível, oferece ao proprietário e faz um acordo para pagar com areia, brita, cimento”, esclarece.

Foi o caso da empresária Lúcia Setsuko Itoman Oshiro, que possui uma fábrica de massas alimentícias. Suas duas filhas, Amanda, 7 anos, e Carolina, 5 anos, estudam em um colégio particular da cidade, e uma solução encontrada pela empresária para arcar com o pagamento das mensalidades foi um acordo com a direção da escola.

“É uma parceria de prestação de serviços. Eu forneço a massa de pastel para a cantina do colégio e abatemos o valor da mensalidade. É um benefício para todos, porque não prejudica nosso trabalho na empresa, as meninas continuam freqüentando as aulas e o colégio recebe o pagamento das mensalidades”, demonstra Lúcia.

A coordenadora administrativa do colégio, irmã Vilma Rubio de Lima, comenta que este tipo de acordo é realizado em decorrência da necessidade da escola e da oferta dos pais dos alunos.

“Se a pessoa tem um serviço que precisamos, com um preço dentro do mercado, nós contratamos. Fazemos isso com fornecedores, prestadores de serviço, lojas. Se o preço for bom, nós acertamos, fazemos o negócio com nota, e depois abatemos na mensalidade”, afirma.

Na opinião da irmã Vilma, este “escambo moderno” traz vantagens para todas as partes. “É ótimo para o colégio, porque o aluno fica em dia, contribuindo com sua mensalidade. Além disso, temos os serviços ali, não precisamos ir buscar com outras empresas. E os pais, claro, não ficam inadimplentes”, declara.

Para a empresária Lúcia, o acordo foi a melhor saída para garantir às filhas uma boa educação. “O colégio quer ter alunos, e nós queremos o melhor para nossos filhos. Se pudermos dar a melhor educação, passando o que a gente tem em benefício disso numa troca, é um ótimo negócio”, diz.

Trabalhar em casa

Além das despesas com aluguel, alimentação, transporte, água, luz, telefone e tantas outras, quem mora em apartamento ainda tem mais uma conta mensal que chega por debaixo da porta: a taxa do condomínio. Para evitar a inadimplência e ao mesmo tempo conseguir funcionários de confiança, o síndico de um grande condomínio residencial de Bauru encontrou uma solução praticamente ao seu lado.

O síndico Marcelo Vieira Pinto explica que, dos 37 funcionários que o residencial mantém, dez são moradores do próprio local. “Preferimos dar o emprego para uma pessoa que está passando por dificuldade. Temos um cadastro de currículos dos moradores interessados, e quando abre uma vaga, indicamos as pessoas para a empresa terceirizada, que seleciona e faz o treinamento”, conta.

Os moradores-funcionários que tinham dívidas com o condomínio podem, assim, acertar seus pagamentos. A idéia desta iniciativa toca em outro ponto importante, que segundo Pinto, garante a qualidade do serviço.

“Se eles estão trabalhando dentro do próprio condomínio, cuidando da segurança e do local, eles se preocupam com tudo, porque é a casa deles também”, afirma o síndico.

Tânia Maria Nova mora em um dos 640 apartamentos do residencial há cerca de cinco anos, e trabalha na portaria há pouco mais de 12 meses. Para ela, o emprego só trouxe facilidades.

“Eu tenho todas as vantagens, ainda mais com o desemprego que temos no Brasil. Hoje em dia, seria muito difícil encontrar um salário como o meu em outro lugar, ainda mais na minha idade, com 40 anos. É muito difícil um emprego para uma mulher da minha idade começar de novo”, diz a porteira.

Tânia se diz muito contente com o emprego “dentro de casa”. Ela tem dois filhos pequenos e um adolescente, e outro grande benefício, segundo ela, é a possibilidade de estar sempre próxima. “Se tem alguma emergência em casa, com meus filhos, eu estou por perto. Além disso, com o salário que eu ganharia em outro lugar, teria de pagar transporte, alimentação. No condomínio, eu já saio com o uniforme de casa e minha mãe leva o almoço para mim na portaria”, comenta.

O economista Lawi lembra que, em casos como estes e tantos outros, se um acordo não fosse realizado para o pagamento dos serviços e dívidas o caminho da empresa seria muito mais árduo. “Se você não aceita um acordo, tem de mandar para a Justiça, cria um mal-estar. Então, é preferível optar pela via mais fácil, em um acerto que vai beneficiar a todos os lados”, afirma.

Ele pondera, no entanto, que a prática do “escambo moderno” não deve ser considerada uma tendência de mercado ou a única solução para a crise. “Esta não é uma prática usual para nossa realidade, não é um fenômeno generalizado. Ela vem se tornando mais comum porque é uma maneira das pessoas saírem da crise. Como não há possibilidade de pagar as dívidas, acertamos com mercadorias ou serviços, na base da troca. A negociação é a base de tudo”, finaliza.

Como surgiu o dinheiro

Uma nota de papel ou uma moeda de metal têm um valor definido e são uma reserva de valor, por convenção. Valor este que é muitas vezes superior ao preço real daquele pedaço de papel ou da porção de metal fundido. Isto é o dinheiro, notas, moedas e títulos que têm seus valores fixados para que a sociedade organizada possa comprar, vender, economizar e gastar.

No passado, muitos séculos antes de Cristo, não havia moedas. Praticava-se o escambo, a simples troca de mercadorias, sem equivalência de valor. Devido a sua utilidade, algumas mercadorias passaram a ser mais procuradas do que outras, como o gado bovino e o sal, assumindo praticamente a função de moedas. Elas circulavam como elementos de troca e também como base para avaliar o valor de outros produtos.

Palavras como pecúnia (dinheiro) e pecúlio (dinheiro acumulado) são derivadas de pecus, gado em latim. Já salário tem como origem a utilização do sal para pagamento, em Roma.

No entanto, o fato destas mercadorias não serem fracionáveis ou facilmente perecíveis, o que não permitia o acúmulo de riquezas, tornaram sua utilização inconveniente. Com a descoberta do metal, a produção de moedas possibilitou a facilidade de transporte do dinheiro, além do acúmulo de riquezas.

No começo, elas tinham forma de objetos, como chaves ou facas. Somente no século 7 a.C., as primeiras moedas com as características atuais surgiram: pequenas, com peso e valor definido e impressão oficial, garantindo seu valor. Na Grécia eram cunhadas em prata, e na Lídia, feitas de uma liga de ouro e prata chamada eletro.

Na Idade Média surgiu a figura do ourives, que guardava e negociava objetos de ouro e prata, e como garantia, entregava um recibo às pessoas. Com o tempo, os recibos passaram a ser utilizados para realizar pagamentos, dando origem ao dinheiro de papel.

No Brasil, os primeiros bilhetes, emitidos pelo Banco do Brasil em 1810, ainda eram preenchidos à mão, e foram os precursores das cédulas.

Fonte: Portal Econômico