08 de julho de 2026
Geral

Bauru coleta célula que pode salvar vida

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

Pela primeira vez foi coletada em Bauru células-tronco presentes no sangue da placenta e do cordão umbilical de um bebê, que nasceu na cidade há uma semana. Elas podem ser utilizadas anos mais tarde na cura de doenças que a criança possa desenvolver, como a leucemia, por exemplo.

A coleta para um autotransplante foi realizada no Hospital da Unimed por uma enfermeira obstetra treinada por uma empresa privada do Rio de Janeiro, que funciona como um banco de sangue de cordão umbilical. Lá, as amostras são numeradas, os dados são codificados nas bolsas de sangue e mantidos sob sigilo.

A rede pública de saúde só dispõe de bancos de doação, ou seja, acessíveis a qualquer paciente que necessite das células durante o tratamento. É o caso, por exemplo, do Hemocentro de Ribeirão Preto, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Hospital das Clínicas de São Paulo, que não cobram pelo serviço.

Embora Vítor tenha nascido grande e saudável, seus pais decidiram colher as células-tronco por garantia.

“Tive interesse porque existe um potencial muito grande de que as células-tronco possam ser utilizadas para os mais variados fins, no tratamento de patologias que hoje ainda desafiam a medicina. Existindo a possibilidade e sendo acessível, não vou correr o risco de eventualmente precisar e não ter. É uma janela para o futuro”, explica Rodrigo Moraes Garcia, pai da criança.

Para ter acesso à tecnologia é preciso desembolsar, inicialmente, R$ 3.100,00. Isso inclui o material de coleta, o processamento do material, os testes de controle de qualidade e o armazenamento no primeiro ano. Depois, paga-se R$ 400,00 por ano para a manutenção do material que pode ficar congelado por até 20 anos.

“Acredito que nos próximos anos, tenhamos bancos públicos para que todas as gestantes façam a coleta para o transplante na própria criança e para doação. Quem sabe no futuro, nossos filhos e netos não possam ter um pouco mais de tranqüilidade graças à tecnologia”, diz a enfermeira obstetrícia Sandra Alia Abib Valentim, que trabalha na Clínica Guerini e é responsável pela coleta.

De acordo com ela, se a técnica tivesse sido desenvolvida antes, uma criança que ela viu nascer e que depois desenvolveu leucemia não teria sofrido tanto durante o tratamento.

Aplicações

Além dessa patologia, as células-tronco ainda podem ajudar no combate à paraplegia, na recuperação cardíaca e da visão, além de auxiliar na regeneração do fígado e de neurônios.

O avanço do uso das células na cura das doenças também é visto com otimismo pelo hematologista e oncologista do Hospital Manoel de Abreu, Rogério Jorge de Castro.

Ele encaminhou para a Unicamp o sangue do cordão umbilical do irmão de uma paciente com leucemia. O bebê nasceu em julho e o médico aguarda o resultado das análises sangüíneas que indicarão a compatibilidade.

“O ideal é que todo mundo congelasse as células-tronco, mas é um procedimento ainda muito caro”, diz Castro.

Devido ao custo e à pequena chance de uma doença - que possa ser tratada com a célula-tronco - se manifestar, a hematologista da Unicamp, Ângela Cristina Malheiros Luzo, considera o procedimento de autrotransplante discutível.

“A incidência (da manifestação do moléstia) é de um para cem mil. Por isso é discutível se vale a pena. É um procedimento muito caro. Para a gente, livre de qualquer lucro, ele custa cerca de R$ 2 mil”, conta.

A Unicamp dispõe de um banco do cordão umbilical e da placenta, que recebe doações. O autotransplante é exclusivo para famílias que têm caso de doenças na família. A universidade, que atende pelo Sistema Único de Saúde (SUS), tem bancado os procedimentos com recursos próprios, já que o Ministério da Saúde ainda não desembolsa verba para essa finalidade.

Diante de dificuldades orçamentárias, o hemocentro da Universidade Estadual Paulista (Unesp) suspendeu a implantação do banco em Botucatu. Já o Hospital Amaral Carvalho (HAC) de Jaú está viabilizando um banco dessa natureza. Por enquanto, ele mantém cerca de sete amostras de crianças cujos irmãos tiveram leucemia.

• Serviço

Outras informações podem ser obtidas através do telefone (14) 3234-2806.

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