Inserido na amplíssima esfera dos programas educacionais, o Brasil fala mais ou menos 170 línguas indígenas, mas a maior parte com apenas alguns poucos milhares de falantes e, por isso, correndo o risco de vê-los desaparecer do cenário em futuro não muito distante. O que esse desaparecer representaria para o País se traduziria em uma perda cultural irreparável, pois que afetaria negativamente não apenas a intelectualidade nacional, mas, em pé de igualdade, todos quantos se comprimem no mundo, no qual, segundo estudos realmente sérios, há pelo menos, somente no continente americano, entre 50 e 60 milhões de indígenas, enquanto na África habitam 15 milhões, nas ilhas do Pacífico Sul, Austrália e Nova Zelândia 16 milhões, na Ásia Oriental 7 milhões e no Sudoeste Asiático 80 milhões, totalizando cerca de 250 milhões. Sobretudo no chamado Primeiro Mundo tem-se uma imagem completamente distorcida do vocabulário indígena, vale dizer-se dos descendentes ou herdeiros do sangue dos primeiros habitantes da terra, semelhantes aos das espécies humanas que iniciaram a comunidade e, conseqüentemente, implantaram vínculos seguros na coletividade internacional através de suas raízes ancestrais, aquelas que vieram para nosso país antes que Cabral nos trouxesse o português e nas outras nações os descobridores implantassem seus idiomas. Chega-se à conclusão mais que lógica, então, de que cumpre ao Estado brasileiro e dos demais países assegurar a essa simpática camada de seres humanos, tão pacíficos, de peles tostadas e sorrisos sempre presentes nos lábios, a ampliação dos programas de ensino de todos os seus idiomas junto às outras comunidades, de forma a impedir que eles desapareçam. É necessário que se rompam as condenáveis distorções. E não só nesse campo mas, igualmente, favorecer maior aprendizado da língua portuguesa entre aquela gente, naturalmente sem quaisquer imposições. Trata-se de uma necessidade cultural que exige imediata adoção, tendo-se em vista que já é tempo bastante tanto de se aproveitarem suficientemente as inteligentes utopias indígenas para melhor uso da humanidade, como de levar os índios do universo todo a usarem as outras línguas recorrendo à sabedoria de uns e de outros. O novo governo da Bolívia, recém-empossado, está aí dando um exemplo de preocupação para com a problemática, inserindo representantes indígenas na administração pública, o que também é merecido pelos simpáticos habitantes das tabas brasileiras. É a nossa opinião.
O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.