10 de julho de 2026
Economia & Negócios

Fiado perde espaço com crise econômica

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 3 min

O tradicional fiado está sob ameaça de extinção. Não exatamente pelos avanços tecnológicos, como o cartão de crédito, mas pela recessão econômica. Hoje, só marca na caderneta quem é muito conhecido do proprietário do estabelecimento e, além disso, tem salário fixo.

Uma comerciante da Vila São Paulo, que não quis ter seu nome divulgado, afirma que, desde o início do ano, diminuiu sua carteira de fiado de 30 para apenas sete pessoas. “Perdi muito com isso”, diz. Ela, que possui um mercadinho, conta que só deixou quem é de muita confiança e tem salário fixo.

Apesar da seleção de clientes, a comerciante declara que algumas contas chegam a até R$ 500,00 ao final do mês. Ela reconhece o risco: “Tem aqueles que pagam certinho três ou quatro meses e depois dão os canos”.

De acordo com Maria Aparecida Ricordi, comerciante no Jardim Paraíso há mais de 30 anos, seus clientes mais antigos consideravam o pagamento da conta “sagrado”. De fato, a palavra fiado se origina de fiar - o mesmo que confiar. “Antigamente, eu tinha bastante fregueses que eram aposentados. Eles perguntavam: ‘Posso levar e acertar no pagamento daqui a 20 dias?’. Tudo bem, eu esperava. Era tudo pouco dinheiro, mas garantido”, relata.

O problema, segundo Maria Aparecida, é que o tempo passou e os antigos clientes foram adoecendo ou morrendo. “Eu perdi aquela turma que eu tinha”, lamenta. Com isso, diz ela, a opção foi aposentar a caderneta. “Pendurar a conta, hoje em dia, só em casos excepcionais e por pouco tempo - no máximo, 15 dias. Mais prolongado não dá para fazer”, afirma.

Mesmo assim, Maria Aparecida procura facilitar para o cliente. Como a especialidade da casa é miudezas e aviamento, ela sabe que costureiras, por exemplo, recebem conforme o serviço. “Tenho que ajudar também”, aponta. No entanto, sempre que possível, ela pede que os clientes deixem um cheque pré-datado.

Numa quitanda na avenida Nossa Senhora de Fátima, a comerciante Mati Tokuhara, proprietária do estabelecimento há cerca de oito meses, conta que deixou de fazer fiado para os antigos fregueses do local. A opção para quem está sem dinheiro no momento da compra acaba sendo o cheque pré.

Mesmo assim, há exceções, como no caso de clientes assíduos e que moram perto do local. “Tem pessoas que vêm duas vezes por semana. Por exemplo, ela compra na segunda-feira, volta na quinta-feira para comprar outras coisas e já paga tudo”, diz.

"Fiado sadio"

A prática do “fiado sadio” - comum nas pequenas cidades do Interior, onde todos se conhecem e uma mão lava a outra - é defendida pelo vendedor autônomo Cícero Ribeiro dos Santos, que há pouco mais de quatro anos percorre casas e empresas de Bauru comercializando alimentos. “Meu negócio é de comer. Bateu a fome e a pessoa está sendo dinheiro, eu espero para o pagamento”, declara.

Segundo Santos, a inadimplência de sua carteira está em menos de 10%, índice que ele considera normal para o comércio. Para ele, é preciso dar um voto de confiança aos clientes e, se necessário, cobrar com jeito. “Às vezes, a pessoa chega para comprar alguma coisa e lembra que estava devendo ou eu mesmo aviso”, diz, para completar: “Mas vender à vista é outra conversa”.