08 de julho de 2026
Cultura

Fatia da vida

Da Redação
| Tempo de leitura: 4 min

Um espetáculo que destaca o ser humano através da figura do ator, dispensando o uso de refletores, aparelhagem de som, assistentes de palco ou aparatos de um teatro convencional.

É essa a síntese do método Prêt-à-Porter, desenvolvido há cinco anos pelo diretor Antunes Filho no Centro de Pesquisa Teatral (CPT) do Serviço Social do Comércio (Sesc) Consolação, um local que, mais do que abrigar uma companhia teatral, busca incentivar a formação pessoal do elenco.

Coordenando um grupo de jovens atores, Antunes propõe, através do método, uma revisão dos conceitos sobre o papel do ator, a dramaturgia e a própria encenação, em busca de uma nova “teatralidade”, onde as cenas são escritas e interpretadas pelo próprio elenco. O objetivo é centralizar o trabalho na figura do ser humano (vivenciado pelo ator), deixando de lado os holofotes e o glamour dos palcos.

“O CPT forma indivíduos. Paralelo a nossa formação artística, existe o ser humano. Nós lemos muita filosofia oriental, taoísmo, estudamos críticas de teatro e cinema e buscamos desenvolver o auto-conhecimento e opinião crítica sobre o mundo”, revela a atriz bauruense Arieta Corrêa, que integra o grupo teatral orientado por Antunes e que participou do elenco da minissérie global “A Casa das 7 Mulheres”.

O resultado desse trabalho - que apresenta uma edição com esquetes diferentes a cada ano - pode ser conferido em “Prêt-à-Porter 5”, que reúne três movimentos: “Uma Fábula”, “Mulher de Olhos Fechados” e “O Poente do Sol Nascente”. O espetáculo será exibido hoje, às 21h, no ginásio do Sesc em Bauru.

Além de Arieta, o elenco traz como atores Suzan Damasceno, Emerson Danesi e Juliana Galdino, intérprete da personagem Medéia nas duas edições da tragédia de Eurípedes recentemente montadas por Antunes.

Após a apresentação da noite, o elenco programou um bate-papo com o público para falar sobre a figura do ator, o processo de criação teatral e também discussões filosóficas que giram em torno da vida e do homem.

Cenas

Cada performance envolve dois atores e resulta em uma esquete que dura no máximo meia hora. Em cena, as duplas interpretam personagens com diferentes experiências, mas que acabam se completando. Em “Mulher de Olhos Fechados”, Juliana Galdino e Arieta Corrêa dão vida à uma escultora neurótica e uma senhora autodestrutiva, que se encontram em um mundo de solidão, medo e carência afetiva.

“É uma conversa, onde o público pode observar dois seres humanos respirando naturalmente, humanamente. O espetáculo é uma fatia da vida. Supondo que, metaforicamente, nossa vida é um oceano, uma gota desse oceano é uma cena de Prêt-à-Porter”, explica Arieta.

Segundo a atriz, o espetáculo enfatiza os gestos e expressões dos atores e, dessa forma, os objetos em cena ficam em segundo plano. “A estrutura é simples, o Prêt-à-Porter pode ser feito em qualquer espaço, usamos luz fria, e não optamos por adereços. Trabalhamos apenas com a riqueza dos detalhes”, diz.

Ensaios

O projeto “Prêt-à-Porter” é fruto de um trabalho criado em 1998 por Antunes Filho no CPT do Sesc Consolação. O processo exige extrema dedicação por parte do diretor e do elenco, envolvendo meses de pesquisa, experimentação e ensaios constantes. “É um trabalho diário que inclui prática corporal e exercícios de voz elaborados pelo Antunes. O CPT é um lugar que a gente só não vai aos domingos, por enquanto”, brinca Arieta.

Nesse processo tudo é decidido pelos atores, dos cenários ao texto, passando pelo figurino, maquiagem e todos os demais detalhes da apresentação. Além disso, o grupo pratica exercícios físicos diariamente para o desenvolvimento dos músculos e da respiração, itens essenciais para evidenciar cada gesto dos personagens em cena.

“As esquetes têm a ver com os olhares e a respiração dos atores. É essa interação com o outro que nos interessa. A partir daí, podem surgir movimentos dramáticos, trágicos ou cômicos. A dramaturgia não é só o texto, é o contato humano”, aponta Arieta.

• Serviço

Apresentações do “Prêt-à-Porter 5” hoje, às 21h, no ginásio do Sesc. Avenida Aureliano Cardia, 6-71. Informações: (14) 3235-1750.

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Movimentos

“Uma Fábula”, de Suzan Damasceno e Arieta Corrêa

A primeira história coloca frente a frente duas mulheres que se conheceram numa festa à fantasia: a primeira é a Chapeuzinho Vermelho - uma dona de casa, acomodada no casamento e aparentemente feliz; a outra é o Lobo Mau - jovem solitária repleta de neuroses e perfeccionista. Ao se encontrarem, elas conversam sobre a vida, família, hábitos, costumes e descobrem que têm em comum a solidão.

“Mulher de Olhos Fechados”, de Juliana Galdino e Arieta Corrêa

No segundo movimento, uma jovem escultora recebe a visita de uma vizinha desconhecida, uma senhora de meia idade que lhe leva uma torta de maçã como presente. A iguaria desencadeia as transformações e desilusões das duas personagens, que terminam irmanadas pela tristeza.

“O Poente do Sol Nascente”, de Suzan Damasceno e Emerson Danesi

A história coloca em xeque a relação entre um homem entediado com sua vida perfeita e uma prostituta romântica. Ele recusa os serviços da moça e pede a ela que lhe conte coisas de sua vida. Ela começa a falar sobre seus sonhos e uma estranha relação se estabelece entre os dois, que acabam se tornando cúmplices e antagonistas num episódio constrangedor.