11 de julho de 2026
Política

Entrevista da semana: 'Conflito na Bolívia é étnico-político'

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 8 min

Um caldeirão em plena fervura que, graças à mistura de ingredientes étnicos, sociais e políticos, acabou explodindo. Talvez essa seja a melhor forma para definir o atual cenário da Bolívia, país latino-americano “sacudido” atualmente por violentos conflitos populacionais que culminaram com a renúncia do presidente Gonzalo Sanches de Lozada.

Para o doutorando em História pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Assis, Josinei Lopes da Silva, os motivos das sangrentas manifestações bolivianas, que já causaram a morte de centenas de pessoas, envolvem uma série de aspectos, entre eles o alto índice de desemprego registrado no país.

Mas, conforme destaca Josinei, os motivos da revolta na Bolívia vão além da falta de postos de trabalho. As centenárias diferenças étnicas entre a maioria de população indígena e os brancos, minoria mas detentores das maiores riquezas, também acirraram os ânimos no país, considerado um dos mais pobres da América Latina.

O doutorando comenta, ainda, que a histórica rivalidade entre a Bolívia e o Chile, aliado ao discurso nacionalista da oposição ao governo do então presidente Gonzalo Sánchez de Lozada, foi o principal estopim político para a deflagração dos conflitos. Confira os principais trechos da entrevista:

JC - Quais são as raízes do conflito da Bolívia? Josinei - Uma delas é a crise econômica, pois a taxa de desemprego é de 28%. Outra raiz recente é a forma como o ex-presidente Gonzalo Sanches de Lozada foi eleito. No primeiro turno sua vantagem foi de apenas 1,5% sobre Evo Morales, um dos líderes da mobilização popular.

No segundo turno, que é indireto, quem elegeu Lozada foi o Congresso através de conchavos políticos que o mesmo arranjou. Portanto, a eleição foi apertada e não houve maioria, como a registrada no Brasil com Lula e com Hugo Chávez (presidente da Venezuela). Com isso, as tensões não foram resolvidas.

Destaque também para o papel da Central Obrera Boliviana, outra arquiteta das mobilizações. Desde a década de 50, ela participa da política extravasando suas atribuições iniciais, como uma centralizadora dos desejos populares que entra em contato direto com o poder central no país.

Mas a raiz mais profunda nos faz voltar aos idos do século 16, quando os espanhóis entraram em conflito com os grupos indígenas, que faziam parte do império inca, onde hoje é a Bolívia. Não havia uma única etnia e até hoje se mantém duas muito fortes: os aimarás e os quechuas.

Desde aí, há uma forte rivalidade entre brancos e índios, que é a maioria da população boliviana. No entanto, se compararmos a renda per capita, ela é muito maior entre os brancos e há bairros exclusivos para brancos em La Paz (Capital da Bolívia).

Por isso, a Bolívia possui uma sociedade que, desde o século 16, formou-se através de um choque de culturas e à base de conflitos. Desde então, essas populações vêm tentando sucessivas vezes melhorar sua situação e, em algumas delas, tomar efetivamente o poder.

Outra força importante na deflagração dos conflitos é Felipe Quispe, um aimára que defende a tomada do poder pelos índios. Ele fala que a renúncia de Lozada não foi suficiente e que está descontente com o novo governo, pois afirma que é de um presidente branco.

JC - Seria exagero afirmar que por trás de todos esses conflitos está, acima de tudo, um duelo de etnias? Josinei - Há antropólogos e historiadores bolivianos que não vêem o fator étnico como o principal do conflito. Eles entendem que é uma parte importante, mas que não os explica sozinho. Isso porque tais aspectos misturaram-se, há muito tempo, com os problemas políticos na Bolívia.

JC - E qual foi o estopim dos conflitos? Josinei - Foi o anúncio do ex-presidente Gonzalo Sanches de Lozada de que estava disposto a exportar gás natural aos Estados Unidos e México via Chile. Com isso, ele forneceu munição ao inimigo para contestação.

Até 1872, a Bolívia tinha uma saída para o Oceano Pacífico, mas, quando um processo de concessão e exploração do estanho foi revisto, o país cancelou um importante contrato de uma empresa chilena que explorava esse serviço na Bolívia.

Em represália, o Chile tomou a região, que hoje lhe pertence, e cortou o acesso da Bolívia ao mar. Por isso, até hoje os bolivianos, e aí entram os discursos nacionalistas de Evo Moralez e Felipe Quispes, vêem o Chile como inimigo. A exportação do gás que o ex-presidente havia proposto e autorizado passaria justamente pelas terras que eram bolivianas e se tornaram chilenas.

Em um conflito em que já estão envolvidas questões étnicas, de expropriação de trabalho e de capital, isso torna-se um componente importante. Além disso, a oposição boliviana descobriu que, de todo gás que seria exportado, a Bolívia ficaria com apenas 18% do lucro, e que todo resto ficaria com os Estados Unidos e Chile que beneficiariam esse gás. Isso compõs um caldo sóciopolítico explosivo.

JC - Esses conflitos podem trazer reflexos ao Brasil, sejam eles positivos ou negativos? Josinei - Uma eventual vitória da oposição boliviana é uma hipótese que não está descartada, pois o atual presidente também poderá renunciar ou ser deposto por um levante popular. Caso isso ocorra, será que a exportação de gás natural para o Brasil seria afetada?

Apesar disso, há informações que o Brasil não é dependente do gás boliviano. As importações que já faz de petróleo e as jazidas brasileiras dão sustentação ao País. O risco que sempre pensamos também de imediato é o econômico no sentido dos mercados confundirem Bolívia, Argentina, Paraguai, Uruguai, Brasil, Equador e Colômbia como um só país. Mas parece que esta visão está mudando, pois entende-se que são nações que têm fronteiras e governos distintos.

Por isso, não acho que o Brasil possa ser prejudicado em quaisquer dessas hipóteses, seja economicamente via interrupção do gás ou entendimento do mercado financeiro que o Brasil também corre o risco dos conflitos. No entanto, é bom lembrar que, ainda hoje, Estados Unidos e alguns países europeus acham que a Capital do Brasil é Buenos Aires. Isso é uma verdade que temos de encarar.

JC - E você enxerga algum aspecto positivo dos conflitos para o Brasil? Josinei - Talvez esse tipo de mobilização traga para o Brasil uma maior atenção ao Movimento dos Sem-Terra (MST). Assistimos várias ocupações que têm sido duramente criticadas pela direita política, proprietários e até mesmo pelo Governo. Um levante dessas proporções na Bolívia, e que tenha um certo sucesso, acirra os ânimos dos integrantes do movimento e provoca maior tensão.

JC - Por seu “gigantismo” e expressão na América Latina, o Brasil não deveria atuar, a exemplo do que faz os Estados Unidos em vários países, como intermediário das tensões na região? Ou ele já se impõe devido a estas características? Josinei - De fato o Brasil é incomparável, em termos econômicos e territorias, com outros países latinos. Mas isto não foi suficiente para o País colocar-se como uma liderança importante. Acho que devemos fazer isso, pois as lideranças regionais são fundamentais. E o Brasil tem condições de se colocar desta forma.

Me parece que, até o governo anterior (de Fernando Henrique Cardoso), havia certo preconceito. O Brasil sempre voltou-se mais à Europa desde a colonização. Depois que os Estados Unidos se impuseram como potência mundial, a partir de finais do século 19, o Brasil passou a dirigir-se aos americanos. Parecia que o Brasil não queria ser confundido com republiquetas de bananas.

Se o Brasil não tem vontade de ser líder e não quer ser confundido, países europeus e os Estados Unidos não querem que ele seja. Por isso, o País tem de se posicionar de maneira independente de Europa e Estados Unidos e pensar inicialmente no seu bloco econômico, o Mercosul, mas negociar com outros países também.

JC - A Bolívia, mesmo sendo um país pequeno, registra manifestações da população lutando por seus direitos. Mas o brasileiro, freqüentemente, é taxado de “cordeirinho” e sem vontade de reivindicar. O brasileiro é tão passivo como se costuma apregoar? Josinei - Acho que o brasileiro é menos pacato do que pensamos. A história do País mostra que ocorreram várias revoltas, sendo a mais conhecida a de Canudos, por volta da década de 1890. Além dela, tivemos, entre outras, a Balaiada e a Revolução Farroupilha. Elas mostraram que o brasileiro também pode se revoltar e pegar em armas para defender seu ponto de vista.

Tenho essa impressão, mas acho que foi bastante eficiente a questão da informação. O Estado e a elite deste País, há muito tempo, conseguiram passar ao brasileiro a imagem que ele é pacato. Foi uma propaganda eficiente das elites que servem para elas mesmas.

Apesar disso, se o brasileiro fosse pacato, apelos como o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello não teriam se sustentado. E, recentemente, tivemos a questão das passagens de ônibus na Bahia, em Salvador. Lá, os estudantes simplesmente pararam a cidade.

Que brasileiro pacato é esse, ainda mais um baiano, que é taxado em todo Brasil de preguiçoso? Se fosse assim, ele não queria sair de casa nem lutaria por transporte para chegar à escola por um preço acessível. Definitivamente, o brasileiro não é pacato. Acho que querem que pensemos que nós somos.