10 de julho de 2026
Saúde

Primeira consulta: Ginecologia e urologia são tabus na adolescência

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Lidar com o despertar da sexualidade na adolescência sempre foi um dos grandes desafios para pais e mães. Os jovens nem sempre se sentem à vontade para perguntar e muitos adultos ficam intimidados na hora de responder. A melhor alternativa, nestes casos, pode ser uma consulta com o ginecologista ou urologista. E quanto mais precoce, melhor.

Pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde mostra que 26% dos partos realizados no ano 2000 pelo Sistema Único de Saúde (SUS) foram adolescentes com menos de 19 anos de idade. O que assusta é que 78% delas afirmam que conhecerá os métodos contraceptivos.

A conclusão dos especialistas é que só a informação não basta; é preciso promover educação e conscientização sexual. Sexo e sexualidade ainda são tabus para boa parte das famílias brasileiras e as meninas são as mais prejudicadas.

“Elas têm uma educação clássica em casa, onde aprendem que sexo é algo imoral, proibido e pecaminoso. Mas têm contato com a mídia, que escancara o sexo como algo bom, bonito e prazeroso”, observa a ginecologista Carla Lambertini Bonjorno.

Esse conflito pode ter inúmeras conseqüências. Entre elas, a do fazer escondido. A proibição familiar não impede o adolescente de experimentar o sexo. Quando a gravidez acontece, surgem os argumentos: não tinha dinheiro para comprar o preservativo, tinha medo que os pais encontrassem as pílulas e assim por diante.

Para os especialistas, a melhor maneira de lidar com esse despertar da sexualidade e também com outros conflitos da adolescência, como o aparecimento da acne, as mudanças do corpo, as cólicas menstruais, as mudanças de comportamento da tensão pré-menstrual (TPM), é buscar uma orientação profissional adequada e precisa.

“Não existe uma idade certa para se procurar o médico. Basta que a menina tenha uma dúvida para ser esclarecida. A maioria das pessoas só procura o médico depois que a menina menstrua pela primeira vez ou quando aparece um corrimento. Não se deve esperar essas mudanças no organismo. O ideal é fazer uma consulta preventiva”, salienta Bonjorno.

Nessa consulta, o médico usa livros e ilustrações para mostrar tudo o que acontece com o aparelho reprodutor naquele momento. Ele fala dos hormônios, das alterações físicas, da fertilidade. Explica em detalhes como ocorre a fecundação e dá uma aula sobre prevenção, abordando métodos contraceptivos, gravidez indesejada e doenças sexualmente transmissíveis.

“É muito comum a adolescente aparecer grávida e também contaminada com uma doença sexualmente transmissível. Aí, você cria outro problema, porque não é todo tratamento que pode ser feito durante a gestação e muitas destas doenças deixam seqüelas no bebê ou até levam ao aborto”, ressalta a ginecologista Cristiane Mariano Castilho, médica do programa municipal de atendimento às gestantes.

“A maioria das mães que leva a filha ao ginecologista está preocupada com uma menstruação irregular ou cólicas. Para o médico, a preocupação é outra - é a orientação sexual, a importância da prevenção, como prevenir, como comportar-se depois do início sexual, as consultas periódicas e assim por diante”, destaca.

____________________

Meninos também precisam

Ginecologistas e urologistas concordam que, para os meninos, é bem mais fácil atravessar essa fase da adolescência e do despertar sexual. Isso ocorre porque, historicamente, o sexo sempre foi liberado para os homens. No entanto, os casos de gravidez precoce aumentam ano após ano, indicando que eles também precisam ser melhor orientados.

“O garoto é criado mais solto, descobre tudo com maior precocidade e de uma maneira bem mais tranqüila, inclusive sob o aspecto emocional”, comenta o urologista Paulo César Marques.

“Só que não existe um grande preparo para isso. E a gravidez não acontece só por descuido feminino. O que ocorre é que o ônus maior recai sobre as meninas, mas se os garotos estivessem orientados, não aconteceria”, adverte.

Na opinião dele, o encaminhamento da menina ao ginecologista acaba acontecendo naturalmente, enquanto os meninos resolvem seus conflitos dentro ou fora de casa. “A maioria dos homens só procura o urologista quando apresenta problemas ou depois dos 40 anos, para prevenir o câncer de próstata. O menino acaba aprendendo sobre sexualidade sozinho e, às vezes, de forma muito dolorosa”, encerra.

____________________

Leia mais sobre este assunto

• Contracepção é dúvida mais freqüente