09 de julho de 2026
Polícia

Novo diretor da Febem busca apoio

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 5 min

O novo diretor da unidade de Bauru da Fundação para o Bem-Estar do Menor (Febem), Paulo Orti, quer o apoio da sociedade no processo de recuperação dos adolescentes. Ele assumiu a função, há uma semana, com a preocupação de fazer um trabalho conjunto com poder público e com a sociedade civil.

A tarefa é um desafio visto que em menos de um mês a Febem registrou duas fugas em massa - no total, 35 internos escaparam da unidade - e uma rebelião. Nas três ações, os adolescentes, armados com pedaços de cabo de vassoura e facas improvisadas, feitas com materiais retirados do próprio prédio, fizeram funcionários reféns.

Para alcançar o objetivo, Orti pretende trabalhar com o acompanhamento da família dos internos e com uma equipe de servidores coesa que tenha identidade com o projeto de recuperação dos menores.

Sua proposta parte da convicção de que é possível recuperar os adolescentes infratores e de que a transparência nos relacionamentos - dentro e fora da unidade - é quesito básico para uma gestão bem-sucedida.

Para tanto, vai lançar mão da experiência conquistada em 12 anos de trabalho na área de recursos humanos, desenvolvimento de pessoas, gerenciamento de qualidade e administração participativa. Ele é formado em psicologia e administração de empresas, com pós-graduação em recursos humanos.

Numa visita ao JC ontem, ele esclareceu dúvidas e comentou sobre a conduta que vai adotar à frente da unidade. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - A conduta do senhor será diferente de sua antecessora? Paulo Orti - Eu tenho o máximo de respeito pela proposta sociopedagógica da Febem. Ela é fantástica. Se levada de uma maneira correta, coerente e coesa, tem excelentes chances de conseguir bons resultados. Minha proposta é seguir nessa direção. Mantendo tudo o que for compatível com essa proposta e melhorando o que talvez precise ser melhorado. Eu disse a seguinte frase: Nada que tenha sido feito numa outra gestão deixará de ser feito porque foi feito por uma outra gestão e nada que foi feito por uma outra gestão deixará de ser mudado porque foi feito por uma outra gestão.

JC – Quais as mudanças que o senhor pretende implementar? Orti - O que eu tenho são os meus compromissos, independentemente do que estava sendo feito anteriormente. Quero seguir a proposta sociopedagógica da Febem, que é a de criar alternativas de vida para o adolescente. Para que ele possa sair e não ser reinternado. Isso inclui formação de valores morais, espirituais, proteção à integridade física do adolescente e dos funcionários. Vamos trabalhar noções de limite e respeito. Quero também trabalhar na formação de equipe, criando uma identidade de grupo e uma coerência de trabalho, valorizando as pessoas que aderem à essa proposta. Vamos ainda preparar a família dos menores para recebê-los.

JC - Como trabalhar a questão da disciplina com os menores? Orti - Nós fizemos reunião com as famílias e recebemos o apoio para alimentar essa proposta. Quando a gente fala de limite, estamos falando de regras de convivência social. Estamos falando de respeito, de coisas que as famílias querem que nós estabeleçamos com os adolescentes. A palavra disciplina não tem nada a ver com agressividade, violência, autoritarismo ou intransigência.

JC - De onde os adolescentes conseguem material para fazer armas durante as rebeliões? Orti - A Febem não é uma prisão, ela é uma escola com características peculiares. É um local de formação. Eles têm atividades pedagógicas durante o dia e oficinas de formação profissional, têm contato com inúmeros materiais. Seguindo os procedimentos de segurança, que são ditados e estão previstos, esses materiais ficam fora do acesso do adolescente. Algumas dessas ferramentas não estão inicialmente nas mãos do adolescente (durante um motim, por exemplo). Mas a partir do momento que eles tomam a área externa do módulo deles, pegam coisas pelo caminho. Mas também isso tudo tem sido retirado.

JC - Algumas armas são visivelmente preparadas com antecedência... Orti - São falhas de procedimento de revista.

JC - Como são feitas as revistas? Orti - O procedimento de revista nunca deixou de ser feito. A revista completa é semanal, dessas que você olha tudo. Mas a revista ao menor tem que ser a cada saída de oficina, a cada entrada no quarto. Várias revistas diárias. É um procedimento da Febem. Seguindo a recomendação, a gente reduz tremendamente a possibilidade de que um desses materiais sejam fabricados.

JC - Na gestão do senhor a revista será intensificada? Orti - Nós estamos buscando possíveis materiais que estejam escondidos. É um trabalho diário, horário, permanente. Os procedimentos da Febem estão sendo cumpridos à risca. Isso minimiza a chance de que a gente possa ter uma situação difícil.

JC – Situações difíceis amedrontam a população... Orti - Não foi a Febem que criou esses adolescentes. A Febem não produziu um adolescente infrator. Ela recebe da sociedade o adolescente infrator. Nosso trabalho é de ressocializá-lo. É um trabalho difícil, mas cheio de esperança, de vitórias. Temos muitas alegrias. Já valeria a pena se um só se recuperasse. Isso é uma posição pessoal: eu estou ali com vários tesouros. Eu tento devolver essas pedras polidas, bem cuidadas.

JC - Como é que o senhor pretende convencer a sociedade dessa proposta? Orti - A proposta moderna da Febem é estar o mais aberta possível à comunidade. Nós queremos todo e qualquer apoio. A nossa intenção é fazer um trabalho conjunto com o poder público municipal, estadual e com a sociedade civil para que essa situação se transforme num motivo de esperança para todos nós, não de preocupação e angústia. Existe um ditado chinês que diz que um grão de arroz pode pender a balança. Então, que ninguém deixe de colocar seu grão de arroz para fazer as coisas funcionarem.