Havia certa vez um grande elefante chamado Dino. Dino era azul do rabo até a ponta de sua tromba. Isso fazia com que o pobre elefante fosse totalmente infeliz. Seu sonho era ser como todos os outros elefantes: um grande e impressionante animal de cor cinza.
Um dia, Dino teve uma idéia: “Talvez se eu comer coisas verdes, eu poderei aos poucos modificar a minha cor para cinza!” Dino, então, começou a procurar alimentos que fossem verdes: frutas ainda não maduras, verduras, feijões verdes, grama, etc. Dino, porém, acabou transformando-se em um elefante verde. O animal tornou-se, então, uma grande piada para os outros elefantes.
Todos o chamavam de o gran de sapo verde. Totalmente irritado Dino resolveu comer somente coisas brancas, talvez assim poderia tornar-se finalmente um elefante cinza. Dino, com certa dor no es tômago, comia flores e folhagens brancas. Foi então que o animal se tornou um elefante branco.
Quando andava sobre a neve ninguém podia vê-lo, ele simplesmente desaparecia. Ou quando entrava em um caderno de criança, a folha parecia vazia e a criança mudava para a outra página rapidamente sem percebê-lo. Não deu outra, Dino entrou em depressão. Sua vida já não possuía mais sentido e o elefante não conseguia saber exatamente quem, na verdade, ele era.
A depressão foi tão forte que Dino não parava de chorar. Como não poderia deixar de ser, as lágrimas do elefante, como eram enormes, formaram um grande lago à sua volta. Dino acabou banhando-se em suas próprias lágrimas e voltou a ser um elefante de cor azul. A consciência humana é uma faculdade que vai se formando e se desenvolvendo com o passar de nossa existência. Ela não é estática e muito menos corresponde ao clichê de ser a “voz de Deus” em nosso interior.
Ao surgir na vida, o ser humano traz consigo toda uma carga hereditária que caracteriza sua individualidade. Porém, ao se desenvolver como pessoa, este ser humano entra em um processo constante de socialização se relacionando com outros seres humanos e seu meio ambiente. Nesta relação entre sua individualidade e a influência das relações sociais surge a consciência humana, ou seja, a faculdade de julgamento ético sobre seu universo na busca de discernir entre o bem e o mal.
Para Tomás de Aquino, a consciência humana possui três dimensões interdependentes: synderesis, sapientia e scientia. A synderesis constitui-se na busca de fazer o bem a nós mesmos e aos outros. Por pior que seja, todo ser humano possui esta tendência. O que significa, na verdade, o bem a ser realizado não entra aqui em consideração.
A synderesis é somente a inclinação que temos para a vida, mesmo que esta tenha um significado necrófilo. Tomás de Aquino define a sapientia como a postura que temos diante das situações. Esta parte da consciência constitui-se no conteúdo moral do bem. Aqui sim, nós definimos o que é bem para satisfazer a nossa inclinação fundamental (synderesis).
Por fim, a consciência é formada pela scientia, ou seja, o conhecimento técnico sobre os fenômenos que serão julgados pelos seres humanos. É a scientia que nos dá a base necessária para formarmos o conteúdo do bem, talvez por esta razão que a faculdade de julgar eticamente recebeu o nome de “con-sciência”.
Muitas vezes temos um posicionamento diante de determinado fato (sapientia) para satisfazer nossa busca do bem (synderesis), pois possuímos um determinado conhecimento sobre este fato (scientia). Mais tarde, quando aprofundamos este conhecimento, podemos perceber que nossa postura era equivocada ou injusta e, portanto, em contradição com nossa busca do bem. Nesta contradição surge a chamada “consciência pesada”.
A consciência se desenvolve nesta dinâmica entre as três dimensões. À medida que vamos conhecendo o mundo através de nossas experiências de vida, na dinâmica de nossa individualidade com nossas relações sociais, vamos definindo melhor o que é bem e o que é mal e reajustando nossas posturas na busca de fazer o bem e de nos realizarmos como pessoa.
Portanto, a consciência é sempre algo dinâmico e mutável. É por isso que muitas vezes ouvimos dos mais idosos: “Se eu fosse mais jovem, com a cabeça que tenho hoje...” Com o passar dos anos mudamos nossa consciência e percebemos o quanto nós poderíamos ter aproveitado a vida e realizado melhor aquilo definimos como o bem. Neste sentido, a consciência pode ser ao mesmo tempo cruel e libertadora.
Ela é expressão de que a nossa mentalidade pode se transformar, esta transformação, porém, depende de nossas experiências de vida, ou seja, do tempo. De qualquer forma, a consciência não significa uniformidade moral entre os seres humanos.
Ela é individual e permite que existam elefantes azuis e verdes, dependendo da definição do bem que possuímos. “Quando minha escolha é consciente, nenhuma repercussão me assusta. Quando não é, qualquer comentário me balança” (José Eustáquio).