09 de julho de 2026
Ser

Minha história: Era uma vez, um cara anormal


| Tempo de leitura: 4 min

Escrever sobre a Vanna talvez seja a tarefa mais difícil a que me proponho... desde quando tive preconceito de mim mesmo... E agora é tarde! Mas ainda sou corroído pela mística que me consome... ainda mais quando sonho com ela... Linda, rica e sensível. É claro que me apaixonei!

Há muito tempo, e por dois anos, convivemos juntos por belas manhãs de juventude colegial. Naquela que deveria ser a melhor escola secundarista desta cidade. Foi durante o segundo e terceiro ano do colégio que conheci a Vanna e mutuamente ficamos amigos. Grande amizade e grande atração ao mesmo tempo... Saudades e lembranças das aulas que cabulamos somente para ficar ao sol nas manhãs de inverno, sentados à beira do caminho, em frente ao portão da escola, com o devido cuidado para nos esquivar do Bedel... entre outros momentos e segredos que dividimos...

Por muito tempo, guardei e beijei uma página de apostila, onde ela marcou seus lábios com batom rosa e deixou a frase: “One kiss for you”... Me apegava a tudo que levasse a ela: colecionei recortes de jornais, com notícias sociais dela, e ainda tinha o privilégio de roubar as fotos no arquivo da mídia; que na função de meu trabalho tinha acesso a estes materiais... Ela era demais para mim! Meu Deus como era bom sentir seu perfume, admirar sua beleza e ter dúvidas quanto às suas lágrimas, pois chorava sem motivo ou razão aparente, apenas de encantamento ou alegria; lágrimas de felicidade ou riso espontâneo... e como era lindo te ver sorrindo.

Foi nesta tortura absurda que me prendi, por dois anos maravilhosos de minha vida, e que gostaria que nunca tivessem terminado... Muitas vezes, ela me surpreendia com atitudes inesperadas, ou frases que me levavam a nocaute... Como da vez que me pediu carona para casa, pois não haviam lhe buscado... e foi então que encostei meu velho Fiat 147 em frente à sua mansão e ela me agradeceu com um doce beijo na face... Este fato, sem dúvida, se tornou um marco de antagonismo nos dias que se sucederam... e pelo resto do colegial. Mas afinal, naquela época, eu fui estúpido com minha moral idiota; acreditava que não fazia sentido um pobre operário bolsista, amar a garota mais linda e rica da escola! Pra mim, o mais certo, era fingir que não sentia sua presença sedutora ou ouvir frases murmurantes... estou amando. Talvez esta seja a única mulher que amei. Que eu gostaria que fosse pobre! Ou, talvez, não tão rica... ela poderia ser como as outras meninas normais desse País... Esse era meu martírio; embalado pela canção tema da minha angústia: a garota mais bonita, também era a mais rica, me fazia escravo do seu bel prazer...

Mas antes que termine esta história, que acabaria mais tarde, na festa de formatura da turma de 88, no salão da Luso, devo ainda relembrar uma dívida. Por dois anos como bons amigos que fomos, e pelo empréstimo de 100 mil cruzeiros que ela me pediu para encher o tanque do Santana que ela usou para vir a aula, num fato inusitado, pois, sempre alguém vinha lhe buscar... E foi na saída do colégio que me fez o pedido de empréstimo. Como pra ela, eu não negaria nada - eu acho - concordei... Mesmo quando aquele valor, representava uns 30% de meu salário... Como vê, eu só poderia abastecer um Santana três vezes, por mês. Não sei como meu 147 rodava tanto! E além disso, ela pediu para que lhe acompanhasse até o posto de gasolina... E assim, saí de frente da escola, diante da galera que babava, ao lado da garota mais linda e que dirigia um carro dos mais caros da época. Era um sonho, que virou pesadelo.

Quando saímos do posto de combustível na Duque, eu tive a infeliz idéia de dizer: sobe a próxima rua, que fica mais fácil pra voltar ao colégio. Foi quando ela me respondeu, nos seus 17 anos de linda mulher: “Ah, tá bom, você quer voltar, então vamos voltar”. E virou no sentido que indiquei. Eu, nessa hora, fiquei perplexo e embasbacado comigo mesmo... não dizia nada e só pensava: cara, como você é burro!

De volta ao colégio, ela parou o Santana zero, em paralelo ao meu Fiat scotch 12 anos, e nos despedimos, com um beijo frio... Fui embora - naquele que era, o último mês da turma - pensando: aonde iria ela me levar, aquela linda e doce princesa... Sei lá, mas deveria ser ao paraíso, sem dúvida.

Este fato me intrigou, me marcou, me corroeu, e sonho, às vezes, com isso e nunca vou me esquecer... Mas eu tinha a esperança e a convicção de que na festa da formatura, depois de alguns whiskys, eu declararia meu amor por ela... Era muito sufoco. Eu tinha que revelar a paixão que sentia, e o clima seria ideal... O nobre vagabundo dançaria uma valsa com a princesa e provaria o nectar de seus lábios...

Mas, para meu infortúnio, ela não foi à festa. E não foi por falta de combustível.

E agora quando for reabastecer, use a rede I Seek You e vamos para onde quiser.

By Xandão.