08 de julho de 2026
Geral

"Educação precisa de saúde social"

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 5 min

Um projeto de saúde social para a educação foi o que o psiquiatra Içami Tiba defendeu na última segunda-feira, em Bauru, quando ministrou a palestra “Quem ama, educa”, título de um de seus livros, considerado um dos principais best-sellers nacionais de auto-ajuda.

Para Tiba, a cidadania é o principal remédio para a saúde na educação. Mas ele acredita que atualmente já se pode pensar num diálogo mais próximo rumo a uma estabilidade do quadro clínico educacional de crianças e adolescentes.

Confira os principais trechos da entrevista que Içami Tiba concedeu durante visita ao JC, pouco antes de sua palestra em Bauru.

Jornal da Cidade - Quando o senhor comenta a questão da saúde social, qual seria o grande “câncer” na educação?

Içami Tiba - Na educação, o câncer é a perda de referência.

JC - Mas como isso se processa?

Tiba - A perda da referência é que o que serviu para os pais na infância deles, hoje não serve mais, e porque hoje eles não estão se preparando para ser pais. Alguns abrem mão, delegam para terceirizar e, com isso, os mais prejudicados são aqueles que inicialmente têm a intenção de receber benefícios. Benefício porque na realidade eles querem dar aos filhos o que de melhor eles podem e conhecem, e também porque eles querem saciar todas as vontades dos filhos. Isso é uma deseducação. O processo hoje para melhorar essa falta de paz ou para combater o “câncer” é a informação. Prova disso é que na lista dos livros mais vendidos existem pelo menos três de educação.

JC - Quer dizer que os pais já estão tendo uma atitude para buscar essa educação?

Tiba - Está começando. Mas a grande maioria ainda está muito longe de saber educar os filhos. Uma das minhas bandeiras é que a educação comece a chegar à grande massa, porque eu acho que quanto mais a gente se empenhar na educação, melhores formações terão nossos filhos. E eles, quando engrossarem a sociedade, vão melhorar o nível da saúde social. A nossa saúde social hoje está num nível muito baixo.

JC - Se fôssemos fazer um gráfico, existe um momento de queda nesse processo educativo?

Tiba - Tem nitidamente um processo de queda, uma reação que gerou a queda. Foi uma reação à educação que recebemos, ao abuso do poder, ao autoritarismo, que gerou uma queda. A recusa a repetir esse modelo e fazer às avessas gerou o atual modelo de educação. Isso passou a ser uma reação ao movimento que eles viveram e não uma organização que buscasse um melhor caminho. Então, na realidade, os filhos são beneficiários ou “prejudiciários” do que se operou na cabeça dos pais. Todos eles ganharam o filé, independente de merecer ou não. Isso é o que estragou a educação.

JC - Isso é uma compensação material em função do carinho?

Tiba - Vamos imaginar o contrário. Vamos imaginar que os pais entendem que deixar o filho contente é estar educando, o que não é. A educação é dar base para que ele enfrente contrariedades lá fora. Ficar bem quando todo o mundo está bom é muito fácil. Mas os pais muitas vezes dão a matéria achando que o filho vai ficar contente, e aí está o erro. O pensar que o filho precisa estar contente a qualquer custo. Afinal, ele fica contente porque o filho ficou feliz por ter ganho alguma coisa. Mas o filho vai querer sempre mais e mais. Chega uma hora que o pai não dá e o filho quer morrer. Ele não se contenta com o que tem e sofre pelo que não tem. Olha só que materialismo esquisito. É como se uma pessoa com muita fome só bebesse água. Ela não está resolvendo o problema.

JC - Para suprir essas necessidades materiais hoje em dia, a maioria dos pais e mães trabalha fora e acaba tendo que terceirizar a educação. Se a última alternativa é delegar, como fazer isso?

Tiba - Para um filho ter uma formação básica é preciso que receba pelo menos mensagens coerentes. Se o pai fala uma coisa, a mãe diz outra, o trocadilho é: “se o pai diz vinho, a mãe diz água, o filho desanda”. A falha está nos pais educarem a pessoa que fica com o filho: a babá, a avó, ou quem seja, para que ela possa exercer na ausência deles um papel semelhante. Isso se chama rede de educação. Não é passar a responsabilidade, mas é ensinar à pessoas valores para que o filho aprenda independente de quem fique com ele.

A grande sacada é perceber que a educação não precisa mais de uma coisa presencial, ela pode ser “virtual”, representada por outras pessoas. Mas o problema maior é que as mães são jurássicas. Elas ainda se consideram absolutamente poderosas dentro de casa, mesmo trabalhando fora. Na realidade, elas estão se dando mal. Como ela pode administrar a casa sem estar lá? Ela fica feliz porque deu uma ordem, mas não resolveu nada em casa. Então, nem ela está sabendo administrar. E o pai também é jurássico porque se o filho pede e o pai dá, ele fala para a mãe. Hoje, cada um tem que ser uma empresa e fazer o melhor que pode. O papai tem que aprender a ser papai e a mamãe tem que abrir mão de ser mãe.

JC - Nesse mundo de concessões, qual o momento de dizer não?

Tiba - Toda hora. Não tem hora propícia. Se não existe significado algum em dar alguma coisa, basta negar.

JC - E existe uma maneira correta para dizer não?

Tiba - Existe. Não é não porque eu não quero. É não porque não precisa, porque não é hora de comprar, porque você tem as coisas, e até porque você não fez por merecer. E isso vale para cada um dos filhos. Não adianta fazer dos filhos um pelotão. Cada um tem suas características e atitudes; um pode merecer, mas o outro não. É preciso dizer com muita clareza que um dos irmãos não merece, quem merece ganha e quem não merece não ganha. Quando os dois ganham, você desmerece aquele que merecia. É como dizer que vale a pena ser vagabundo porque ganha-se a mesma coisa de quem trabalha. Os pais têm o grave defeito de achar que os filhos são iguais a eles. Ainda bem que não são.