07 de julho de 2026
Regional

Para assentados, sofrimento compensa

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

Depois de passar seis anos sob a lona da barraca, a sem-terra Maria Aparecida Silva, 40 anos, finalmente conquistou seu pedaço de terra. Ela e sua família foram assentados em Guarantã. A homologação saiu no início de outubro e ela ficou com cerca de oito alqueires.

A área, onde será plantado milho e mandioca, já está toda arada. â€œÉ cultura de subsistência. Não temos maquinário e nem recursos para investir na terra, que precisa ser tratada.”

Segundo ela, o governo liberou o fomento, uma verba de R$ 1,5 mil. “Temos que comprar ferramentas e alimentação”. Mesmo assim, ela confia no governo atual e acredita que muita coisa vai melhorar para aqueles que lutam por um pedaço de terra.

Vivendo sob a lona há mais de cinco anos, a assentada que passou por vários acampamentos, diz que aprendeu muito no movimento. “Aprendi a conviver em comunidade. Não sinto falta de televisão, por exemplo. Prefiro conversar com as pessoas. Adquirir e doar conhecimentos.”

Da mesma opinião compartilha o casal Antônio Divino dos Santos e Luciana Cristina Bulgarelli. “Aprendemos a ser unidos e não se preocupar só com os nossos problemas. Somos uma família depois de cinco anos no acampamento.”

Assentado, o casal, já sonha com a plantação de milho e mandioca.

“Recebemos o fomento e temos três anos para pagar. O pessoal do movimento esclarece a gente sobre os financiamentos que podemos pleitear. Tem um projeto do governo, ‘Compra Antecipada’, que poderá ajudar a gente a adquirir ferramentas e sementes.”

Para sobreviver, a família cria porcos e galinhas que garantem a “mistura” diária. “Estamos em 27 assentados e todos estão na mesma situação. Um ajuda o outro a vencer os obstáculos.”

Acampados buscam uma nova vida

A esperança é a bandeira daqueles que abandonaram a área urbana em busca de um pedaço de terra para plantar e colher o sustento da família. Ideologias e opiniões à parte, a vida dos acampados não faz inveja a ninguém. Em dias de chuva ou de sol, o sofrimento é constante. Se chove, a lama toma conta do acampamento. Se o sol brilha, o calor castiga debaixo das lonas.

A dona de casa Nilza Aparecida de Souza, 34 anos, tem quatro filhos. Chegou de Matão e está morando em uma casa de madeira no acampamento do grupo Terra Nossa, próximo de Bauru. O capricho com a construção da casa pode ser constatado do lado externo. Uma chaminé feita com latas de óleo é responsável pela retirada da fumaça do fogão.

Vivendo sempre na roça, ela confessa que trabalhar a terra não assusta. “Na cidade, a violência está muito grande. Eu tenho um filho com 16 anos, isso é o que me assusta”, confessa.

Viver em comunidade não é tarefa difícil para ela e sua família. “As pessoas daqui são boas. Umas ajudam as outras. A única dificuldade é para lavar roupas. Tenho que fazer esse serviço no córrego.”

A escola das crianças está garantida. “Eles estudam na escola Ada Cariani. O ônibus vem buscar. Eles não podem ficar sem estudar.”

Cláudia dos Santos Tavares, 38 anos, vivia no Jardim Manchester, em Bauru, mas a ânsia de melhorar as condições de vida, fez com que ela e os três filhos trocassem a cidade pelo acampamento Terra Nossa. “Tenho o barraco no Manchester, porém, mudei para cá. Quero melhorar a vida de minha família.”

Depois de passar 40 anos vivendo na área urbana, Maria Helena Pedroso, 51 anos, trocou a cidade de Pirajuí pelo acampamento Maria Margarida Alves, em Presidente Alves. “A primeira noite eu estranhei dormir em barraca. Agora, já acostumei”, diz a mãe de cinco filhos - um deles ficou trabalhando na cidade.

A falta de iluminação do acampamento já não assusta a sem-terra. “A escuridão da noite permite ver o céu.”