Os movimentos sociais que reivindicam um pedaço de terra por todo o Brasil “incharam†para 200 mil famílias em um curto espaço de tempo. Em apenas dois meses, houve um acréscimo de 33% no total de pessoas acampadas, segundo um levantamento feito pela Agência Folha nas 29 superintendências regionais do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
Pelo menos 197.078 famílias estão vivendo em acampamentos em todo País. O número, porém, deve chegar aos 210 mil, pois algumas regiões ainda trabalham com dados parciais. Em nossa região, os acampamentos cresceram mais de 100%, em função do alto índice de desemprego nas áreas urbanas. Os movimentos de sem-terra cobram a reforma agrária historicamente prometida pelo Partidos dos Trabalhadores (PT).
O acampamento mais próximo de Bauru, localizado numa área particular perto do Horto Florestal de Aymorés, denominado Grupo Terra Nossa, começou com 70 barracos em janeiro de 2003. Passados dez meses, os barracos triplicaram para 210 e o número de famílias quase que duplicou, saltando de 130 para 240, garante um dos coordenadores, Celso Costa.
No acampamento de Presidente Alves (56 quilômetros a Noroeste de Bauru), coordenado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), o número de famílias triplicou de agosto a outubro deste ano. A ocupação da área foi feita com 50 famílias e 50 barracos. Dois meses depois, são 150 famílias e 150 barracos. Há quem duvide desse número, mas a verdade é que o acampamento cresceu numa velocidade além da esperada.
Irineu Xavier de Oliveira, integrante do movimento e parte da direção, faz a mesma alegação de Celso Costa do Grupo Terra Nossa. “A maioria são desempregados de famílias que sempre trabalharam na roça. O mercado de trabalho está ruim nas cidades e eles encontram alguma esperança no movimento.â€
No acampamento do MST de Guarantã (78 quilômetros a Noroeste de Bauru), a ocupação da vicinal que liga a cidade a Pirajuí começou com 13 famílias em setembro de 2003. Em menos de dois meses, o número saltou para 80 famílias.
O coordenador Aparecido Vaz da Silva repete o mesmo discursos dos outros líderes entrevistados. “A maioria dos acampados tem a esperança de cultivar a terra e sobreviver, uma vez que estão desempregados e viviam de pequenos serviços, os chamados bicos.â€
Em Itapuí (44 quilômetros a Nordeste de Bauru), a fazenda Olho D’Água foi ocupada por 22 famílias em 2000. Atualmente, são 56.
Aumento de barracos
Terra Nossa: 70 para 210 - 200%
Presidente Alves: 50 para 150 - 200%
Guarantã: 13 para 80 - 515%
Itapuí: 22 para 56 - 154%
Emprego em troca da esperança na terra
O tratorista Pedro Donizete Marcelino, 31 anos, morava em Reginópolis e trabalhava como tratorista quando surgiu a oportunidade de ir morar no acampamento em Presidente Alves. “Tenho um objetivo: lutar pela terra. Eu nunca tive um pedaço de terra para plantar.â€
Marcelino explica que na cidade ganhava pouco e ainda pagava aluguel. “Tenho três filhas e pagava R$ 150,00 de aluguel da casa. Tenho esperança de ser assentado e então vou plantar arroz, feijão e milho.â€
A vontade de trabalhar na terra levou o motorista Duvílio Félix Barbosa a deixar São Carlos para ir morar no acampamento da Fazenda Olho D’Água, em Itapuí. “Estou há dois anos no acampamento. Já plantei milho, feijão e legumes para consumo próprio.â€