Morar em edifício ainda é novidade para o bauruense. Depois do brusco aumento da quantidade de prédios residenciais nas últimas duas décadas, muitas pessoas viram-se obrigadas a tentar se adaptar à vida em comunidade.
De acordo com a Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan), existem aproximadamente 750 edifícios em Bauru. A grande maioria deles foi construída nas décadas de 80 e 90, quando foi observado o boom da verticalização na cidade Quem não se acostuma às regras dos edifícios muitas vezes volta a morar em residências unifamiliares.
Até 1979, eram somente 42 prédios, sendo apenas 10 residenciais. Já até o final da década de 90, 90% dos 725 prédios construídos eram destinados à moradia. Neste período, mais da metade deles tinha até quatro pavimentos.
Quem está acostumado às residências unifamiliares e muda-se para um apartamento, certamente sente as diversas mudanças de comportamento que a vida num condomínio exige dos moradores.
O período de adaptação nem sempre é tranqüilo. Muita gente leva hábitos das casas para os prédios, gerando incômodos entre os vizinhos.
Muhles Ali Sakr mora há apenas dois anos em um apartamento no Jardim Marambá. A opção de mudar para o condomínio teve como objetivo garantir segurança à esposa, que passa boa parte do tempo sozinha.
Embora esteja gostando da nova moradia, Muhles afirma que ainda prefere a casa. â€œÉ muito mais tranqüilaâ€, argumenta.
No apartamento, ele sente-se incomodado quando vizinhos desrespeitam as regras. “Eu reclamo porque tem pessoa que não se toca. Tudo é negociável. Eu tento conversar da melhor formaâ€, afirma.
O condômino conta que certa vez estava na janela do seu apartamento quando o vizinho de cima atirou pela janela um rótulo de refrigerante. O objeto quase atingiu o rosto do morador.
“À noite, eu saí para ir à igreja e, antes de entrar no carro, eu coloquei o rótulo no pára-brisas do carro do vizinho. É um jogo de cintura que você tem que terâ€, comenta.
Outras vezes, o barulho do salto alto da moradora do andar superior também o incomodou. “Um dia, eu brinquei dizendo que daria uma pantufa de presente para elaâ€, lembra.
Aparecida (nome fictício), vive há cinco anos em prédio. O aspecto positivo, na opinião dela, é a segurança. “Em determinadas horas, a gente tem de se privar de algumas coisasâ€, diz.
A moradora não se esquece, entretanto, da época em que morou em casa. “Casa é casa. A gente tem mais liberdade. No apartamento, tem que ter aquele respeito, os determinados horários, aquele negócio todo. Priva um pouco a gente de liberdadeâ€, avalia.
Aparecida diz que os gatos de alguns condôminos a incomodam. Eles circulam no condomínio, desrespeitando o regulamento interno. “As crianças seguram os animais e é complicadoâ€, diz.
Apesar disso, nunca registrou reclamações. “Eu não converso com ninguém sobre coisas que incomodam ou não incomodam. Cada um sabe tudo o que é preciso. Se faz é porque querâ€, reclama.
Som alto
Florence Aguiar Dagostini vive em um prédio do Jardim Higienópolis há três anos. Acostumada a morar em casa, ela fala sobre a falta de privacidade nos condomínios. “Não tem uma área aberta que você pode usar. O que tem aberto é comum. Para fazer churrasco e outras coisas fica difícilâ€, avalia.
Embora ouça música em alto volume com freqüência, Florence diz que nunca recebeu reclamações de vizinhos. No edifício em que morou anteriormente, era uma vizinha que exagerava no barulho.
“Eu nunca cheguei a reclamar, mas não era agradável. Você acaba não reclamando para não criar conflito ou para depois poder fazer barulho e não dar motivo para a pessoa reclamarâ€, expõe.
Atualmente, um dos problemas no condomínio em que mora são as vagas de garagem. Há moradores que não respeitam o espaço reservado a cada apartamento. “Às vezes, o vizinho colocava o carro na minha vaga e eu não podia usar. Isso acontece com freqüência aquiâ€, conta.
Para Milena Marques Lopes, que mora sozinha em um apartamento, a grande vantagem do prédio é a segurança. “Mesmo assim, prefiro casa. Com certeza absoluta. É muito mais pessoal. No apartamento, você tem que dividir sua vida com pessoas que você nunca viu na sua vida. Casa é mais agradávelâ€, reforça.
Um dos problemas que ela já detectou no apartamento é o barulho do vizinho. “Ele ouve músicas horrorosas na maior altura. Eu ponho o meu som alto também e tudo bemâ€, diz.
“Prédio tem muitas regras que talvez você nem concorde com elas, mas você tem que aceitar. Casa dá uma sensação de lar mesmoâ€, acrescenta.