11 de julho de 2026
Articulistas

Futebol: para onde caminha a paixão?


| Tempo de leitura: 3 min

O progresso é avassalador na alteração dos valores e crenças. A racionalidade deve ser invariavelmente fria, ausente de emoções. É bom, é ruim, é moderno, é, enfim, mais uma faceta da globalização? Anteriormente, a imprensa esportiva rejeitava a tese da “pátria de chuteiras”, mas defendia o lúdico do futebol, valorizando os espetáculos, incentivando as torcidas e mantendo elevado o astral dos jogadores. Nossos craques eram domésticos e raros os casos de exportação. Os dirigentes eram amadores. No entanto, os estádios viviam superlotados e sem violência. Na época, o rádio era uma eficaz ferramenta incentivadora da imaginação e do entusiasmo do torcedor.

Atualmente, o futebol é patrulhado por jornalistas fomentadores de críticas generalizadas a tudo e a todos, sejam jogadores, juízes ou dirigentes. Os times, sob a nova legislação, passaram à condição de “propriedade dos empresários” e os clubes ficaram dependentes do poder da televisão. Neste novo contexto, o ministro dos Esportes virou figura de destaque nas páginas do futebol e o próprio presidente Lula, segundo a imprensa, tornou pública a sua preferência nas próximas eleições do Vasco. Isto sem esquecermos que, no Dia das Crianças, os clubes jogaram seus clássicos regionais, estampando a logomarca Fome Zero em seus uniformes.

A grande questão é buscar entender aonde vamos chegar. No caso brasileiro, constata-se como impressionante o esvaziamento dos clubes, cada vez mais economicamente fragilizados. O Juventus de São Paulo é um caso emblemático, ao constatarmos que no seu apogeu deteve mais de 130 mil sócios e hoje possui por volta de cinco mil. O Vasco, com inusitado esforço de marketing, trombeteia que conquistou quatro mil sócios-torcedores que, na verdade, proporcionam a tímida arrecadação mensal de R$ 60 mil, valor insuficiente para cobrir o salário de seu principal jogador. Neste mundo de finanças internacionais, envolvendo negociações com cifras vultosas – e, segundo os iniciados, com elevado grau de informalidade -, é bom lembrar que o Santos teve a sua atual e vitoriosa diretoria eleita em assembléia com comparecimento de minguados votos, representando apenas cerca de 500 sócios. Este fato demonstra o baixo custo financeiro necessário para assumir o poder de gestão de um grande clube de futebol no Brasil.

Considerando o cenário de retração da economia e dada a importância sócio-política dos clubes de futebol em nosso país, é surpreendente que, entre tantos brilhantes economistas, não se conheça um único estudo que aponte a existência de eventuais caminhos de viabilidade econômica para nossos times (na verdade não são clubes) ou se a globalização é fator determinante para a sua privatização, em que os novos proprietários-capitalistas decidirão o futuro do negócio com base na taxa de retorno dos seus investimentos. Para o povão, restariam os jogos pela TV da seleção brasileira, representada pelos craques que jogam no exterior, cujas liberações por seus times tendem a ficar cada vez mais rarefeitas. Caso esta tendência seja inexorável, já imaginaram o Corinthians sendo de propriedade de um banco sob controle acionário estrangeiro? (O autor, Horácio de Mendonça Netto, executivo e engenheiro, é sócio do Club de Regatas Vasco da Gama)