A crise de confiança em um eventual governo do PT, desencadeada no início da campanha eleitoral do ano passado, terminou. A manutenção de uma política econômica conservadora e pró-mercado, nestes primeiros dez meses do mandato de Lula, mostra-se suficiente para acalmar as piores previsões dos mercados. A sólida figura do ministro Palocci, tanto em termos políticos como econômicos, representa hoje o sinal de confiança na manutenção deste caminho, ao longo do mandato do presidente brasileiro. Os estragos que a crise do ano passado fizeram à economia - disparada da cotação do dólar e da inflação - já fazem parte do passado. Restou apenas uma economia enfraquecida pelo torniquete dos juros aplicados nos últimos meses do ano passado e mantida por Palocci nos últimos meses.
A inflação está retornando ao leito normal de um aumento geral de preços da ordem de 6% ao ano. O real recobrou a confiança, de investidores e sociedade, que havia sido conquistada pelo presidente Fernando Henrique ao longo de seu primeiro mandato. Um regime cambial flexível representa, inclusive, uma segurança a mais para todos. Nada de artificialismos com o compromisso oficial de se manter um determinado valor da taxa de câmbio como na época de Gustavo Franco como diretor e presidente do Banco Central.
Sob a perspectiva do cidadão comum e de seu bem-estar, tudo se passa como se tivéssemos perdido quase uma década de nossas vidas. O nível de emprego e o rendimento médio do trabalhador voltaram ao período anterior à posse de Fernando Henrique. O debate sobre o porquê, depois de termos melhorado tanto no período de 1995 a 1997, demos uma marcha a ré continua vivo e igual. As opções de política econômica para chegarmos finalmente, depois de mais de 25 anos de estagnação, a um período de crescimento econômico sustentado, são as mesmas. O governo deve cuidar apenas das condições macroeconômicas de nossa economia e deixar o resto nas mãos do mercado ou deve a política econômica oficial cuidar, também, de articular ações do setor privado e ficar responsável por algumas ações, principalmente no setor da infra-estrutura. A política cambial deve deixar o mercado definir a taxa de câmbio ou será preciso uma intervenção do Banco Central para defender um determinado nível de câmbio real para favorecer as exportações do País como fazem hoje o Japão, a China e outros países asiáticos.
Estas e outras questões fundamentais para definir nossa política econômica na próxima década continuam a ser debatidas, embora o governo Lula parece ter optado pelo caminho proposto pelos economistas mais liberais. Mas o ministro Palocci parece ter uma capacidade maior de ouvir as críticas do grupo, chamado hoje pela imprensa, de desenvolvimentistas.
Temos pouco tempo para escolher nosso caminho a partir do ano que vem, pois a economia internacional está passando por uma destas fases de mudança em que as economias em desenvolvimento podem redefinir suas prioridades. Depois do bonde andando, vai ficar muito mais difícil encontrar um lugar confortável para o Brasil.
O autor, Luiz Carlos Mendonça de Barros, é economista, publicador do site e da revista Primeira Leitura, ex-ministro das Comunicações e ex-presidente do BNDES.