A história da música popular brasileira, conhecida como MPB, está intimamente ligada à trajetória de um dos grupos vocais mais duradouros do País, o MPB 4.
Formado na cidade de Niterói, em 1965, pelos amigos Miltinho (voz e violão), Ruy Faria (voz e percussão), Aquiles (voz) e Magro Waghabi (diretor musical, teclados, percussão, voz e sopro), o quarteto - composto por estudantes de engenharia - inventou uma fórmula que traduzisse os sucessos nacionais que tocavam nas rádios da época.
Estava criada a sigla MPB, que deu nome ao grupo carioca e até hoje define um dos maiores gêneros musicais do Brasil.
Há 38 anos na estrada, o MPB 4 preserva os mesmos integrantes desde a sua formação, fato que rendeu ao quarteto um espaço no Guiness Book, o Livro dos Recordes, como o grupo vocal com mais tempo de carreira, sem nuca ter interrompido suas atividades.
A prova do incessante trabalho pode ser conferida em quase 30 álbuns lançados, que incluem discos/homenagens a feras como Tom Jobim, Quarteto em Cy, Noel Rosa e Chico Buarque, este último amigo inseparável do quarteto e que já chegou a se apresentar como o quinto elemento do grupo.
Cuidadoso na escolha do seu repertório, o MPB 4 se orgulha de ter gravado o que há de melhor na música brasileira.
Entre os destaques, estão - além do compositores já citados - canções de Milton Nascimento, Vinicius de Moraes, Ivan Lins, João Bosco, Djavan, Baden Powell, passando ainda por Cartola, Edu Lobo, Nélson Cavaquinho, Paulinho da Viola e Ary Barroso, que marcaram a carreira dos intérpretes, como “Roda Viva”, “Amigo É Pra Essas Coisas”, “Cio da Terra”, “Passaredo” e “Vira Virou”.
Entre outros sucessos, as canções integram o seleto repertório de “Melhores Momentos”, título do show que o grupo realiza hoje, a partir das 21h30, no Serviço Social do Comércio (Sesc), em Bauru. Como o próprio nome diz, a apresentação relembra diversas memórias do MPB 4, que gravou seu primeiro disco na década de 60 e esteve presente em diversos momentos políticos do País desde essa época.
Em entrevista concedida por telefone ao JC Cultura, Miltinho fala sobre as dificuldades enfrentadas pelo grupo após o AI-5, trabalhos que se destacaram na trajetória do MPB 4 e projetos para o futuro. Além disso, o músico comenta sobre o show de hoje à noite. “É um prazer ir a Bauru, onde o público é muito fiel”, revela Miltinho, que subiu ao palco da Cervejaria dos Monges no ano passado. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.
Jornal da Cidade - O MPB 4 presenciou momentos importantes na década de 60, como o Golpe de 64 e o AI-5. O grupo sofreu com a censura na época? Miltinho - Nós sofremos bastante, cantávamos muitas músicas com o Chico, e era uma época muito difícil, principalmente após o Golpe de 64. Houve uma censura em relação às letras, tivemos vários shows cancelados. Isso endureceu muito mais em 68, com a instituição do AI-5. Aí ficou muito complicado principalmente para nós, que fazíamos músicas com letras de denúncia. Nossa arte foi cerceada, sofremos não só censura política, mas econômica também, porque se existe um show que é proibido, a gente não pode trabalhar. O MPB 4 ficou nessa situação até 1980, quando houve a abertura. Aí nós gravamos um disco que simbolizava aquele momento, o “Vira, Virou”. Era um trabalho onde nós estávamos mais livres e o MPB 4 não precisava entrar no palco reivindicando coisas.
JC - O MPB 4 tem a mesma formação desde o início, em 1965. A que você credita essa união? Miltinho - São várias razões. Mas acho que a principal é porque a gente sempre se importou muito mais com o grupo MBP 4, do que com as coisas individuais. Temos essa preocupação democrática, e as personalidades individuais vêm somando a isso. O resultado é o MPB 4, que é o mais importante. É claro que tudo é difícil, mas a gente continua brigando.
JC - Uma vez, Chico Buarque se referiu como um quinto elemento do MPB 4. Qual é a ligação que o quarteto tem com o compositor? Miltinho - Quando a gente começou, o MPB 4 estava iniciando a carreira e o Chico também. Nós ficamos amigos. Chico sempre foi uma pessoa muito tímida, e ele praticamente não se apresentava sozinho, mas com o MPB 4. Nos ficamos quase oito anos, de 65 até 73, mais ou menos, juntos. Nós éramos chamados “escudeiros do Chico”.
JC - Como você avalia a MPB dos anos 60 até hoje? Miltinho - Eu me orgulho muito e acho que o grupo faz parte de uma geração de pessoas que viu e representa o Brasil musicalmente até hoje. Assim como Chico Buarque, João Bosco, Ivan Lins, que são nossos contemporâneos. Sem modéstia e não comparando uma geração com a outra, mas sinto um prazer imenso em fazer parte dessa geração maravilhosa. E não é só no Brasil. A década de 70 foi muito importante para todas as manifestações artísticas, no mundo inteiro, não só na música, mas na pintura e no teatro mundial. Era a época de Beatles, Rolling Stones, houve uma revolução artística que, no Brasil, nas décadas de 80 e 90, não foi tão ativa.
JC - Embora o repertório do grupo inclua algumas composições próprias, o MPB 4 é um grupo de cantores. O fato de interpretar músicas ajudou artistas brasileiros a desenvolverem seus trabalhos? Miltinho - Com certeza. Nós lançamos pessoas como a dupla Kleyton e Kledir e Guinga, por exemplo. Atualmente as gravadoras não apostam muito em discos novos e elas preferem lançar sucessos consagrados. Nós pretendemos fazer disco como fazíamos antigamente, não me refiro ao saudosismo, mas com a proposta de lançar discos em que a gente apostava nas músicas, se elas eram boas, nós gravávamos.
JC - Cite alguns trabalhos que mais se destacaram ao longo da carreira do quarteto. Miltinho - Tem dois discos chamados “Antologia do Samba”, onde a gente escolhia compositores famosos tipo Monsuetto, Cartola e Baden Powell. Mas nós também fizemos discos individuais, só com músicas do Quarteto e Cy, Tom Jobim, Chico Buarque ou Noel Rosa. Teve álbuns que a gente dividiu Ivan Lins com Djavan. Em outro CD, fizemos com o Quarteto em Cy uma homenagem a Vinicius de Moraes. Um dos discos solos mais recentes é o “Melhores Momentos”, gravado no Rio de Janeiro.
JC - O que o grupo está produzindo atualmente? Miltinho - Como estamos completando quase 40 anos, estamos gravando um novo CD, com músicas novas e inéditas.
JC - O MPB 4 está sempre trabalhando... Miltinho - Sempre. Se parar, cai. A gente vive de música, desde o início.
JC - O que o público pode conferir no show de hoje? Miltinho - Nós pinçamos alguns melhores momentos da nossa carreira de 38 anos. Então tem muita coisa, a gente leva para Bauru um show onde tocamos músicas como “Passaredo” e “Cio da Terra”, além de uma pequena homenagem ao Tom. Tem um momento também que nós relembramos compositores cubanos, como Pablo Milanês e Sílvio Rodrigues. Mas o show tem algumas surpresas, como um poema de Carlos Drummond de Andrade, recitado pelo Magro.
• Serviço
Show do MPB 4 hoje, a partir das 21h30, no Sesc. Avenida Aureliano Cardia, 6-71. Informações: (14) 3235-1750.