Gênio, louco, professor Pardal, abilolado... muitos são os apelidos dados aos inventores. O certo é que, no Brasil, eles têm que ser também - e principalmente - persistentes. Aqui, criatividade, percepção e imaginação têm que se somar à força de vontade e determinação para enfrentar as enormes dificuldades entre a idéia, o desenvolvimento de seus produtos e a colocação no mercado.
Poucos sabem, por exemplo, da existência da Associação Nacional dos Inventores (ANI), que funciona desde 1992 em São Paulo.
Para dar conta de tantos inventos foi criado, em 96, o Museu das Invenções, único na América Latina. Um dos andares do museu é totalmente dedicado a projetos que um dia ainda vão ser novos produtos no mercado.
Lá, as pessoas podem encontrar produtos como o telefone que emite uma nota fiscal de cada ligação, polidor de CD, cueca descartável, teste de fertilidade e outros.
Antena "Chama garçom"
Célio Teixeira, morador há 34 anos de Serra Madureira, no Estado do Acre, trabalhou na última década para criar inventos. Observando o movimento em bares e restaurantes e incomodado com os gritos, assovios e algazarra que os clientes tinham que fazer para chamar os garçons, ele teve criou a “Antena Chama Garçom”.
“Essa antena tem um dispositivo eletrônico que, ao ser acionado, faz piscar uma lâmpada que chama a atenção do garçom”, explicou.
A Antena deverá custar cerca de R$ 8,00 cada uma - caso seja confeccionada em plástico - ou até menos, se contar com patrocínio de empresas de alimentação e bebidas.
"Cartão chuveiro"
O paulista Mário Godinho, 32 anos, morador de Piracicaba, aprendeu uma coisa importante na época do racionamento de energia. “Percebi que o chuveiro era o grande vilão do consumo de energia”, explicou.
A lição rendeu um invento que alia economia de energia elétrica e de água, vantagem fundamental nestes dias de ameaça de racionamento de água. “Pensei em criar um aparelho que desse a possibilidade das pessoas, tanto em suas residências, quanto em estabelecimentos comerciais, controlarem o tempo de banho”, disse. Foi o nascimento do “Chuveiro a Cartão”.
O Cartão funciona como um cartão de telefone, que permite uma quantidade de minutos de conversação ao telefone. No caso da invenção, ele aciona o chuveiro para um banho que dura, digamos, 5 minutos. Após o prazo, a água pára de cair.
Bina
A tecnologia que permite identificar as chamadas telefônicas dos mais de 1 bilhão de usuários de celulares, no mundo inteiro, foi inventada por um brasileiro autodidata que não ganhou um tostão pela sua revolucionária invenção. Nélio José Nicolai, 63 anos, criou o Bina há mais de 20 anos.
Até hoje ninguém o reconhece como o inventor, ainda que ele detenha a patente da tecnologia registrada não só no Brasil, no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI), como em outros 38 países.
Há quem conteste a originalidade de seu invento, reclamando para si a autoria da invenção. A norte-americana Carolyn Doughty, dos Laboratórios Bell, é uma das que supostamente teria tido a idéia antes de Nicolai. Inventora do “caller ID”, ou identificador de chamadas, Doughty pediu o registro da patente de seu invento em 1983, um ano depois que o produto havia sido lançado comercialmente no Brasil.
Outros inventos
Nicolai tem várias outras invenções. A tecnologia chamada por ele de Multilinha, por exemplo, é dessa época. Ele conseguiu que uma mesma linha de telefone pudesse ser usada por 10 assinantes. As linhas falavam entre si e, quando um dos usuários recebia uma ligação e outro precisava usar o telefone, o primeiro recebia um sinal. Em três minutos, a ligação caía caso o usuário desprezasse o aviso, para dar direito ao segundo usuário a fazer sua chamada.
Alguma semelhança com algum sistema adotado hoje em dia? Não é coincidência. Esse é o micro PABX, pequena central de ramais telefônicos explorada comercialmente por grandes empresas de telefonia.
Nicolai também criou um sistema pelo qual uma linha telefônica só possa receber e não originar chamadas (sem registro de patente); inventou uma máquina de escrever acoplada a um aparelho de telefone que registra as informações datilografadas numa espécie de memória e envia para outra máquina com as mesmas características, tal como um fax, mas sem a necessidade de imprimir o documento; e um sistema de proteção bancário que permite que o correntista seja avisado, pelo telefone celular, sobre qualquer movimentação financeira que haja em sua conta.
Injustiçados
Nicolai cita, entre tantos brasileiros que trabalham com criatividade, o inventor Nelson Guilherme Bardini. Há 135 inventos no nome de Bardini, mas um em especial passa pela mão de milhões de brasileiros todos os dias, fazendo com que se comuniquem sem ter de carregar peso na bolsa e ainda sem correr o risco de perder dinheiro. É o cartão telefônico. “Até as máquinas que fabricam o cartão são invenção dele”, conta Nicolai.
• Serviço
O Museu das Invenções fica na rua Dr. Homem de Mello, 1.109, Perdizes, São Paulo.