A filósofa, pesquisadora e mestre em educação Tania Zagury trabalha há mais de 13 anos com o tema da relação entre pais e filhos e os conflitos nesta interação. Nesta semana, ela vem a Bauru participar da Jornada de Adolescência: Significados e Mitos.
Tania lançou seu primeiro livro, “Sem padecer no paraíso”, em 1991, como resultado de sua observação de que a geração que começara a ter filhos após a década de 70 vinha exagerando no excesso de liberdade às crianças. Segundo ela, os pais estariam passando por um processo de rejeição dos limites, influenciados por teorias da psicologia e da pedagogia. Confira a entrevista.
JC - Este modelo de criação mais liberal refletiu-se negativamente no comportamento das crianças? Tania Zagury - Esta idéia foi levada até seu extremo, e como trabalho com jovens, percebi que houve uma mudança muito grande na conduta deles. Com a idéia de que é proibido proibir, as crianças começaram a crescer sem limites, e os pais ficaram inseguros, porque a vida na família ficava muito difícil. Os pais queriam dar toda a liberdade, e quando tentavam dizer “Não, isso não pode”, a criança, que estava habituada a fazer só o que queria, tinha uma série de conflitos.
JC - Esses conflitos ganham mais força durante a adolescência? Tania - Um dos problemas do jovem que cresce sem nenhum ou com poucos limites é que eles começam a alongar a adolescência. Eles têm todos os direitos e praticamente nenhum dever, tornam-se irresponsáveis. Já estamos assistindo a algumas conseqüências disso, como a marginalização dos jovens, os filhos agredindo os pais e usando drogas. Quando eles têm algum desejo contrariado, partem até para a agressão física, como foi o caso da Suzane Von Richthofen (garota de 19 anos que participou do assassinato dos pais junto com o namorado).
JC - E qual seria o equilíbrio ideal entre os limites rígidos e a liberdade? Tania - Essa situação de não dar limites demais nem de menos, eu chamei de correspondência no paraíso. Hoje, realmente não há como recair naquele modelo de antes dos anos 60, com pais autoritários e sem diálogo. Mas também não se pode recair no liberalismo total, na falta de limites. Esta seria a correspondência no paraíso, dialogar e dar ao filho todos os direitos que ele tem, mas exigir, para cada direito, um dever que lhe é correspondente. Por exemplo, o filho tem o direito de estudar, que é garantido no Estatuto da Criança e do Adolescente. Ele, por sua vez, tem também um dever, que é estudar.
Os pais dão educação, roupas, carinho, afeto, segurança, saúde, alimentação, que são os direitos. E a contrapartida por parte da criança é não jogá-los fora.
JC - E como os pais podem proceder para que os filhos cumpram seus deveres? Tania - Os pais têm que mostrar que não é possível a criança fazer só o que ela quer. Este equilíbrio é fundamental. É claro que é muito mais difícil na prática do que em palavras. Os pais estão descobrindo isto. Por exemplo: as crianças têm direito de ter sua saúde preservada, na questão da alimentação, vacinação, bons médicos. Vejo pais que têm dificuldade em vacinar os filhos, porque eles dizem que não querem ir, que não gostam. Uma hora, os pais têm que exercer sua autoridade, porque neste caso, não é uma escolha da criança.
JC - Como começou a mudança no processo da educação dos filhos? Tania - Até as décadas de 1960 e 70, as crianças eram educadas da mesma maneira que seus pais. Havia uma hierarquia muito rígida, as crianças obedeciam sem reclamar, havia castigos físicos, muita autoridade e até autoritarismo por parte dos pais.
Nos anos 70, houve uma conjugação de fatores que levaram essa geração, a minha geração, a mudar o modelo: o movimento hippie; o posicionamento dos jovens contra a guerra (do Vietnã), com uma proposta ideológica de paz, liberdade e direito de escolha; o movimento existencialista na França, que colocava como mais importante a autodeterminação; os movimentos de liberação feminina, o surgimento da pílula anticoncepcional, a saída da mulher para o mercado de trabalho após a Segunda Guerra Mundial. Outro fator é o surgimento da psicanálise, que trouxe a idéia de que os pais seriam os responsáveis pelos problemas emocionais dos filhos.
JC - E foi essa geração que exagerou na liberdade dos filhos? Tania - Quando eles se casaram e tiveram seus filhos, quiseram promover uma mudança na forma de ver o mundo e de educá-los. É a geração do diálogo, os pais procuraram não ter nenhum assunto tabu com os filhos, não provocar medo, dar liberdade para conversar sobre qualquer assunto. Mas na hora de colocar em prática, as coisas não são tão simples. Os pais começaram a usar o diálogo, a persuasão, o convencimento para fazer os filhos estenderem que determinadas coisas não eram permitidas.
O inesperado é que sobressaiu-se a característica do ser humano de egocentrismo, de hedonismo, buscar só o prazer. A geração que criou os filhos assim, com a melhor das intenções, substituiu a geração do dever pela geração do prazer.
JC - E como é esta geração que foi criada por pais que buscavam um novo modelo, e hoje são pais jovens? Tania - Eles estão mais inseguros do que seus próprios pais, justamente porque cresceram como uma geração que tende a fazer só o que gosta. Quando eles têm filhos, descobrem que têm de deixar de fazer muita coisa que eles gostam e não estão acostumados com isso. Vemos jovens pais que não conseguem entender a idéia de deixar de ir a um restaurante, uma festa ou um cinema porque não estão habituados a abrir mão das coisas, são muito individualistas.
JC - E qual é a função da escola neste processo da educação e da imposição dos limites? Tania - Os pais de hoje estão muito inseguros e com dificuldade em colocar limites. Como alguns pais não têm paciência para isso, porque é um papel cansativo, eles deixam a criança fazer o que quiser e procuram uma instituição que faça o papel deles, e escolhem uma escola mais rígida e tradicional. Eles dizem: “Não agüento mais esse moleque, não me obedece”, e escolhem uma escola que, eles pensam, poderia fazer isso por eles.
JC - Mas a criança consegue se adaptar? Tania - Não adianta querer que a criança tenha um modelo em casa e outro diferente na escola. Ela vai ficar confusa e ter problemas de comportamento. A escola tem muito mais dificuldade, porque desenvolve o trabalho de educação do ponto em que os pais pararam. Não adianta o pai deixar fazer tudo e querer que a escola resolva o problema, e nem o contrário, ser durão em casa e escolher uma escola superliberal. A criança vai ficar com duas orientações opostas e vai ficar confusa, ou escolher o que é mais agradável, que é fazer o que quiser. Daí vem a indisciplina na sala de aula.
JC - E qual seria a orientação para os pais? Tania - Manter o diálogo, mas nunca achar que dialogar significa ser coleguinha do seu filho. Você conversa, mas é pai e mãe, e deve manter essa postura. Se o diálogo não funcionar, em algum momento você vai ter de usar a autoridade de pai e mãe. Não que alguém seja superior ao outro, mas a hierarquia dentro da família tem de ser preservada. Se a coisa fica muito misturada, a criança começa a ver o pai e mãe como um colega qualquer, e vai agir de qualquer modo com eles. É preciso dialogar, conversar e argumentar, mas pode ser que em alguns momentos você tenha que interferir com autoridade.
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Evento
A Jornada de Adolescência: Significados e Mitos será realizada nesta terça-feira, a partir das 13h, no Colégio São José. O evento é promovido pelo Centro de Integração Psicológica e Profissional (CIPP).
Os conferencistas convidados tratarão de temas como sexualidade na adolescência, violência doméstica, drogas e comunicação com adolescentes.
As inscrições custam R$ 65,00 para profissionais e R$ 45,00 para estudantes, e podem ser realizadas no CIPP, que fica na praça D. Pedro II, 2-14, sala 23, Centro. Mais informações pelo telefone (14) 3224-3515.