Com toda justiça recebeu o nome de “muro da vergonha” a construção que durante anos separou as duas Alemanhas, dividindo também a Europa em dois blocos rivais. Lembro de ter visitado, em 1960, a parte ocidental quando ainda muito jovem participei de um congresso de advocacia que se realizava em Bonn. Ainda funcionava a famosa “ponte aérea” para Berlim ocidental, única maneira de romper o bloqueio forçado. Recordo de maneira especial a terrível sensação de impotência e desalento que experimentei na presença daquele deprimente espetáculo de incapacidade dos políticos...
Após quase três décadas, derrubou-se o muro em um impulso de alegria e esperança. Caiu a “cortina de aço” com a naturalidade e a lógica das coisas que hão de acontecer. O mundo suspirou aliviado e se dispôs a viver melhor, sobretudo na velha Europa, marcada durante todo o século passado por guerras, opressões, desgraças e sofrimentos. A espiral de violência que caracteriza o conflito palestino-israelense desde que Ariel Sharon decidiu aproveitar a onda contra o terrorismo se cristalizou agora na construção de um novo e insólito “muro”, que vem destruir o que restava da Autoridade Nacional Palestina e tenta eliminar física e politicamente Yasser Arafat.
Nesta linha, Israel, a pátria dos perseguidos pelo nazismo que tanta simpatia e esperança causou no mundo por ocasião da criação do Estado, em maio de 1948, iniciou, em meio à indignação geral, a construção de um novo “muro da vergonha”, para dividir, controlar, e em última instância dominar melhor os palestinos, como se fossem colonos (cidadãos inferiores) submetidos por Israel.
Que insensatez assola o mundo para que um projeto tão perverso, de verdadeiro extermínio e “terrorismo de Estado”, possa ser gerado e enraizar-se em um país como Israel, com sua história de sofrimento e perseguição de que foi vítima, com seu patrimônio tão rico de cientistas, professores universitários, escritores e filósofos de suma excelência? Afortunadamente, na sociedade civil, tanto israelense quanto palestina, subsistem ainda forças defensoras da paz cujo trabalho deve ser classificado de lúcido, valente, discreto e constante em favor das boas relações entre as duas comunidades. É um raio de esperança em um horizonte fosco que tanto a União Européia quanto todas as forças progressistas têm a obrigação de apoiar um compromisso de paz entre Israel e Palestina, baseado no reconhecimento mútuo e na convivência dos Estados, pode ser uma das chaves para se encontrar um novo e inteligente equilíbrio geoestratégico e pacífico no Oriente Médio. Seria, por conseguinte, altamente estimulante para reforçar o papel da ONU e o multilateralismo. É possível que os tempos sejam propícios a esse caminho. As tentativas de instaurar a “pax americana” imperial no Iraque e no Afeganistão estão se revelando um tremendo fracasso. A sociedade civil norte-americana está, por fim, reagindo. A opinião pública européia segue de perto o curso dos acontecimentos. As receitas neoliberais parecem ter se esgotado. Vislumbra-se uma virada. Velhos e obsoletos “muros”, inadmissíveis no sentimento e na consciência das pessoas de boa vontade, cairão. A esperança nunca deve morrer. (O autor, Mario Soares, foi presidente de Portugal entre 1986 e 1996)