08 de julho de 2026
Cultura

Direto dos canfundós

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

Quando o cinema brasileiro retomou seu rumo após o golpe que representou o governo Collor para produção nacional, na metade dos anos 90, Paulo Betti foi um dos rostos mais vistos nas telas. Protagonista de filmes como “Lamarca”, “Ed Mort” e “Mauá”, o ator ajudou com o seu trabalho a recuperar a moral da produção nacional diante do público brasileiro, que nos últimos anos tem lotado as salas para prestigiar os longas locais.

“Cafundó”, filme que conta a história do ex-escravo e líder religioso João de Camargo, é um projeto de vida que Paulo Betti finalmente levará às telas no ano que vem. Na entrevista a seguir, concedida ao JC Cultura, o ator revela suas expectativas sobre a produção.

Jornal da Cidade - Quando “Cafundó” chega aos cinemas? Paulo Betti - Nossa intenção é de que em junho ou julho de 2004 o filme esteja nas telas.

JC - A produção foi rodada no Interior com apoio da iniciativa privada? Alguma prefeitura? Betti - A produção foi rodada no Interior do Paraná. Em Ponta Grossa, principalmente, cuja prefeitura apoiou o filme. Temos o apoio também da prefeitura de Sorocaba (SP), onde a historia real aconteceu a dois séculos. Temos também o apoio da BR Distribuidora, Eletrobrás, Banespa, Nossa Caixa, Correios, Petroquimica União, além das empresas de Sorocaba: Iharabras e Coopertools.

JC - A produção gerou 2 mil empregos? Betti - Sem dúvida. E todos aparecem na tela! Além dos que trabalharam atrás das câmeras. Além do fator cultural, didático. A filmagem estimula a auto estima, provoca as cidades a reverem conceitos arquitetônicos. Ex: tivemos que tirar 8 postes em Paranaguá, numa belíssima praça e rua central. A população adorou ver seu patrimônio valorizado no filme. Todos comentavam que os postes não deveriam voltar, que os fios deveriam ser colocados para sempre em galerias subterrâneas. Ficou a discussão na cidade. A filmagem tem sempre uma magia que impregna os lugares que servem de locação. As equipes de cinema tem consciência da excitação que provocam. É como um grande circo. Anões, engolidores de fogo, câmeras, fotógrafos., maquinistas, eletricistas. O cinema desperta um sonho positivo. De memória e respeito pelos valores culturais. Sempre aparece o pessoal da congada, do samba, os artistas se mobilizam e se reafirmam perante seus conterrâneos. A preocupação com a reconstituição histórica faz um grupo muito grande de pessoas vivenciarem dramaticamente o que estão representando. Isso não tem preço!

JC - “Cafundó” parece ser o seu projeto mais pessoal em cinema. Você tem preferência pelo trabalho no cinema do que em outros meios? Betti - “Cafundó” foi um sonho meu e de muito queridos amigos de Sorocaba, como o inesquecível Adilson Barros (ator maravilhoso de “Marvada Carne”), do saudoso poeta Paulo Tortello, do grande diretor teatral Ademar Guerra, do saudoso e maravilhoso ator Pedro Salomão. Esse sonho passou a ser também do Clóvis Bueno, do Rubens Gennaro, da Virgínia Moraes. Assim fomos formando uma equipe maravilhosa que realizou o filme. Cinema é partilha, é divisão de trabalho e responsabilidade. E unidade em torno de um tema. A historia de Nho João de Camargo galvanizou toda a equipe. Todos sabiam que estavam fazendo algo muito especial. Falando de um homem iluminado. E o espírito do grande taumaturgo conduziu o clima das filmagens. Muita harmonia e fé no trabalho fez com que todos se esmerassem. Tenho certeza que isso vai imprimir na tela!

JC - E sobre suas preferências? Betti - É muito bom variar. Ser ator é mais confortável, tanto no cinema quanto no teatro ou na televisão. Produzir e dirigir é outra história. E no cinema é uma empreitada muito grande. Precisa ter um ímpeto missionário. Esse projeto levou 11 anos até ser filmado! Manter a vontade, correr atrás dos patrocínios, lutar contra todas as dificuldades. Manter a confiança que o projeto é bom durante anos de recusas e intempéries. O grande risco financeiro que se correr quando se está produzindo. Se chover uma semana seguida todo o orçamento estará comprometido. Precisa ter muita vontade! Como ator adoro estar num set de filmagem, num estúdio de televisão, e adoro ainda mais estar num palco, ensaiando. O palco é a oficina onde me restauro, onde afino meu instrumento, onde recarrego minhas baterias. Mas o mais importante, mesmo, é o material com o qual se está trabalhando. Se a historia é boa se é um bom texto, um bom roteiro, se os companheiros são queridos, então pode estar certo que estarei extremamente feliz em qualquer desses três lugares.

JC - No últimos dois anos o cinema brasileiro fez dois fenômenos de público para os padrões nacionais: “Cidade de Deus” e “Carandiru”. Fora os bons desempenhos de filmes menores em orçamento como “O Homem que Copiava” e “Madame Satã” ... Você acha que o brasileiro está perdendo o preconceito da produção nacional? Betti - O cinema brasileiro já foi muito querido pelo público, e agora, novamente ele reencontra o caminho das salas. É evidente e decisiva a participação da TV Globo nos sucessos acima referidos. A massiva campanha pela televisão só vem a confirmar que o cinema precisa muito da televisão. Nossos filmes são bons, boas histórias. Tecnicamente houve uma grande evolução também. O brasileiro precisa se acostumar a se ver na tela.

JC - Aliás, temos um grande problema de distribuição dos nossos filmes que têm de brigar por espaço com os blockbusters americanos. Como superar esse obstáculo e o que você pretende fazer para levar “Cafundó” ao maior número possível de pessoas? Betti - Esse é o grande problema. Sem uma grande rede de televisão não adianta nem tentar. Espero ter o apoio da Globo no lançamento do “Cafundó”, mas além disso pretendo criar um circuito universitário, indo para as faculdades e levando o filme para debates.