O excesso de peso na população está se tornando uma preocupação cada vez maior para os órgãos de saúde pública mundial. Só no Brasil, a incidência tem aumentado progressivamente desde 1989 e já atinge mais de 32% da população adulta - cerca de 40 milhões de pessoas.
Por isso, autoridades de todo o mundo buscam estratégias de combate à doença. A mais nova delas é a campanha mundial de incentivo ao consumo de frutas e verduras, que será lançada esta semana durante o Fórum Global para Doenças Crônicas não Transmissíveis.
O encontro internacional é promovido pelo Ministério da Saúde brasileiro em conjunto com a Organização Mundial de Saúde (OMS). As discussões começam hoje e seguem até quarta-feira no Rio de Janeiro.
A obesidade está entre os principais fatores de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas, como o diabetes, o câncer de cólon, a hipertensão arterial, os problemas reumáticos e cardiovasculares.
De acordo com a Agência Saúde - assessoria de imprensa do ministério - as estatísticas mostram que o excesso de peso está aumentando entre os brasileiros e isso aparece em todas as faixas etárias e níveis sociais.
Embora as pessoas de maior poder aquisitivo sejam mais atingidas - até pelo acesso facilitado que têm aos alimentos mais calóricos -, uma pesquisa mostrou que houve um crescimento de casos na população de baixa renda também.
“Antes, tinha-se a idéia de que a obesidade era mais ligada aos países desenvolvidos, com Estados Unidos. Porém, hoje sabe-se que a obesidade também está presente nos países em desenvolvimento”, salienta a nutricionista Anelise Rízzolo, assessora técnica da Coordenação Geral de Políticas de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde.
Ela defende que fatores como a globalização e a urbanização social foram responsáveis pelo agravamento da incidência da obesidade no mundo. “Antigamente, os homens viviam em lugares distantes e saíam à caça de alimentos. Eles tinham um modelo de vida que envolvia atividades físicas e hábitos alimentares mais saudáveis”, ressalta.
Para ela, a globalização e a própria evolução tecnológica levaram a sociedade a um sedentarismo cada vez maior. “Temos hoje videocassetes, controle remoto, microondas e vivemos em apartamentos pequenos onde se anda pouco. As ocupações de trabalho também envolvem menos gasto de energia”, comenta.
Paralelamente, houve um aumento calórico nas dietas, principalmente em função do “fast-food”, em que são ingeridas muitas calorias em pequenos volumes de alimento.
A Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição realizada em 1989 também mostrou aumento de peso acelerado entre jovens e crianças de 5 a 14 anos. Um dado ainda mais alarmante é o crescimento da obesidade em crianças menores de 2 anos.
O aumento de peso com acúmulo excessivo de gordura corporal pode estar vinculado a diversos fatores, desde alterações genéticas até situações ambientais. Na maioria dos casos, ele ocorre quando o gasto de energia do indivíduo é menor que a quantidade de calorias ingerida em determinado intervalo de tempo.
O aumento da ingestão de frutas, verduras e legumes, por um lado, ajuda a reduzir o consumo de alimentos gordurosos e calóricos. Além disso, os vegetais são a principal fonte de fibras da dieta humana. Elas regulam o funcionamento intestinal e ajudam o organismo a “varrer” o excesso de gordura junto com as fezes.
Na opinião de Anelise Rízzolo, além das ações nutricionais, é necessário investir também em estratégias de incentivo à realização de atividades físicas regulares, que foram deixadas de lado em função da falta de tempo e segurança do mundo moderno.
Ações federais
Diante das estatísticas, o Ministério da Saúde criou, em 1999, o Programa Nacional de Alimentação e Nutrição (Pnan), em parceria com mais de 180 entidades. De acordo com a Agência Saúde, o Pnan atua com base em sete diretrizes, das quais duas enfocam o combate à obesidade.
Uma delas é a promoção de práticas alimentares e estilo de vida saudáveis, caracterizada pelo incentivo à saúde. A outra é a prevenção e combate aos distúrbios nutricionais e doenças associadas à alimentação e desnutrição.
A nutricionista Anelise Rízzolo destaca que a promoção da alimentação saudável é a nova estratégia do governo. Uma das ações nesse sentido foi a elaboração dos “Guias Alimentares da População Brasileira” - um material educativo. O guia para crianças menores de 2 anos já está disponível e outro para a população acima de 2 anos está sendo preparado.
Outro avanço brasileiro foi a rotulagem nutricional obrigatória de produtos alimentícios, regulamentada no ano passado. A informação nutricional foi padronizada e dividida em porções.
“A idéia de usar como medida a porção é mostrar a pirâmide alimentar. Até porque facilitou para o consumidor ter a idéia de quantidades”, destaca. “O uso da porção mostra que você pode comer de tudo - moderadamente”, completa.
Segundo a Agência Saúde, o Brasil está entre os quatro países que contam com a rotulagem obrigatória e serve de modelo para outros.
Além disso, o Ministério da Saúde está integrado no desenvolvimento da “Estratégia Global para Promoção da Alimentação Saudável, Atividade Física e Saúde”. O projeto está em fase de discussão e é liderado para OMS e pela Organização Panamericana de Saúde (Opas).
“O objetivo dessa estratégia global é fazer com que o mundo perceba o perigo da obesidade e pensar numa ação de combate padronizada”, explica Rízzolo. Para isso, uma das propostas desse grupo é a regulamentação da publicidade e propaganda de alimentos.
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Sedentarismo custa caro
Um dos assuntos mais debatidos este ano no 10.º Congresso Brasileiro de Obesidade, realizado em Campinas no último mês de agosto, foi o papel do sedentarismo no excesso de peso da população. De acordo com o médico Victor Matsudo, uma pesquisa realizada nos Estados Unidos mostrou que o custo do sedentarismo naquele país ultrapassa US$ 24 bilhões ao ano.
Segundo ele, a pesquisa usou como critério de sedentarismo a falta de atividades físicas nos momentos de lazer. Esse dado determinou uma prevalência de inatividade física em 28,8% dos norte-americanos.
Multiplicando esses números pelo custo anual com doenças relacionadas ao sedentarismo, estimou-se que 22% das doenças cardiovasculares, 22% dos cânceres de cólon, 22% das fraturas decorrentes de osteoporose, 12% dos casos de diabetes e hipertensão arterial e cerca de 5% dos cânceres de mama poderiam ser atribuídos à inatividade física, segundo Matsudo.
Durante o congresso, o especialista defendeu mudanças simples no dia-a-dia, como ir a pé até a padaria, usar menos o carro, descer do ônibus um ponto antes, trocar o elevador pelas escadas e até levantar do sofá para trocar os canais da TV. “Acumular pelo menos 30 minutos diários de atividade física, seja qual for, não dá medalha, mas melhora muito a saúde de uma pessoa”, comentou.
Para as pessoas que alegam falta de tempo, ele esclarece que esses 30 minutos não precisam ser de uma atividade contínua; eles podem ser acumulados durante o dia. E para aqueles que alegam falta de equipamento, habilidade ou conhecimento, ele lembra que qualquer pessoa pode tornar-se mais ativa, seja caminhando, dançando, levando o cachorro para passear, cuidando do jardim, lavando um carro ou subindo escadas.
“Não precisa estar em forma para começar a ser ativo; não precisa sair de casa para ser ativo; não precisa dispor de muito tempo - as atividades podem ser facilmente acumuladas em sua rotina diária”, enfatiza.
Matsudo sugere que é preciso programar a população para a mudança de comportamento. Nesse sentido, ele salienta a importância de se ler sobre os benefícios da atividade física. A partir daí, cada pessoa deve identificar pelo menos cinco vantagens de ser fisicamente ativo e cinco desvantagens de ser sedentário.
Outra dica do especialista é repetir todos os dias pela manhã e à noite afirmações como: “Vou curtir e desfrutar mais sendo mais ativo”; “Vou ser mais saudável”; “Vou me sentir melhor”; “Terei uma aparência melhor”; “Eu vou permanecer independente”.
Paralelamente, ele sugere que cada pessoa identifique os locais e horários em que pode ser mais ativa, tanto em casa, quanto no trabalho e nos períodos livres. Uma boa companhia pode ser um ótimo incentivo. “E mostre seu programa de atividades para alguém. Peça a essa pessoa que cobre você sobre o cumprimento dessas metas”, completa.