10 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de Pescador: Grande companheiro


| Tempo de leitura: 2 min

“Certa vez de pescaria eu descia o Paraná;

E o caboclo que remava não parava de falá;

E-eta Diocélio, menino de amargá.”

O meu amigo e sócio Diocélio é assim mesmo, resmungão, reclamão e teimosão que nem porteira de areião, daquela que enrosca para abrir e enrosca para fechar. Mas ele é leal na distribuição de tarefas, de peixes, das despesas e etc. Se for preciso também empresta de coração sua rica tralha de pesca, grande parte dela vinda do estrangeiro. Mas é teimoso.

E por falar nele, quando é seu aniversário patrocina um belo assado de peixes com muita cerveja e refrigerantes para os seus amigos de futebol lá da Luso. Parabéns Diocélio, não me convidou...

Como vêem, ele é bom menino, mas é teimoso.

Certo dia eu sugeri:

- Vamos subir o rio para pescar piaparas.

- Não. Vamos descer para pescar tucunarés, respondeu ele.

No dia seguinte, eu inverti a sugestão:

- Vamos descer para pescar tucunarés.

- Não. Vamos subir para pescar piaparas, respondeu e ainda completou com seu jargão de pesca mais do que manjado:

- Eu sou o proprietário, comandante, imediato, marinheiro, piloteiro e chefe de pescaria.

Certa vez, de pescaria, descíamos o Paraná, com o nosso inseparável piloteiro Lino, quando o Diocélio me pediu um alicate para soltar o plug do barco e eu estendi a ele um desses alicates de oficina que foi recusado e lá veio ele com sua explicação:

- Eu não sou mecânico, sou dentista e pescador.

Assim, ele disse e apoderou-se do meu alicate de travar peixes, novinho em folha, cromado, niquelado, importado, com balança, trena e até GPS ele tinha, mas como não fora feito para aquele tipo de serviço, partiu-se em dois.

Então eu implodi ou explodi, nem sei explicar:

- Velho gagá, teimoso, mula-sem-cabeça, vai pra ponte que caiu com toda a sua teimosia e leva junto o seu avô, seu bisavô, seu tetravô, seu pentavô...

Mas como o erro era dele, então ele mesmo achou graça e ainda completou com mais um dos seus ditados:

- Tudo o que eu faço é bonito e gostoso, até a minha bosta que o Lino gosta.

Agora, quem ficou nervoso e explodiu foi o nosso piloteiro que é mato-grossense de estopim curto:

- Agora você vai levar um tiro, disse o Lino ao Diocélio.

Eu estava perto, mas não deu tempo de acudir meu companheiro, aliás, nem tentei, só fechei os olhos. O Diocélio também não teve tempo de reagir, só tapou os ouvidos, cerrou os dentes e esperou...

Mas a garrucha 22 do Lino estava enferrujada, as balas picotaram nos dois canos e não saiu tiro algum.

Então, eu fiquei em pé e falei em alto e bom som:

- Prestem atenção aqui vocês dois. De hoje em diante, eu sou o proprietário, comandante, imediato, marinheiro, piloteiro e chefe desta porcaria de pescaria.

E usando minhas novas qualidades de chefe, completei:

- Vamos subir o rio.

- Não. Vamos descer, respondeu o Diocélio.

Eurico de Oliveira - membro da Associação dos Pescadores de Avaí - APA