08 de julho de 2026
Auto Mercado

35 anos de paixão e saudade

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 7 min

Há exatos 34 anos e 361 dias, no dia 19 de novembro de 1968, surgia no Brasil, durante o VI Salão do Automóvel, na Capital paulista, um modelo que transformou-se em um carro “mítico” e, atualmente, ainda inesquecível na memória - e na garagem - de milhares de apaixonados: o Chevrolet Opala.

Não é difícil encontrar fãs confessos do veículo, que vendeu mais de um milhão de unidades no País. Em Bauru, há até um clube organizado especificamente para reuni-los.

Seus integrantes - 12 no total -, mais do que curtir a paixão pelo modelo, fazem tudo para preservá-la. “Ele foi um carro que soube sintetizar o requinte que o consumidor brasileiro aprendeu a admirar e depois passou a exigir”, considera Emerson Antônio da Silva, presidente do Opala Clube Bauru. “Foi uma geração de automóveis que cumpriu papel destacável na trajetória de vida de milhões de famílias”, acrescenta.

Outro “fanático” pelos “Opalões” é o vice-presidente do clube, Eduardo Jacobini Germano, que atribui o sucesso alcançado pelo modelo no Brasil às suas origens americanas. “O fato da mecânica utilizada por ele vir dos Estados Unidos, um país de extrema tradição automobilística, foi decisivo”, ressalta.

E foi também por isso que, ao despedir-se do mercado, em 1992, o modelo deixou não apenas saudades, mas também uma marca no coração de muitos brasileiros, conforme Emerson. “São verdadeiros admiradores desse mito da indústria automobilística brasileira”, enfatiza. “É um carro clássico, que todo mundo tem uma história para contar dele”, garante o presidente.

Prova disso foram as maneiras curiosas com que Emerson e Eduar-do tornaram-se proprietários de seus Opalas, respectivamente um cupê 1973 e um modelo 1975. Normalmente, muitos donos de automóveis antigos herdaram das famílias a paixão pelos mesmos, o que não ocorreu com ambos. “Ninguém gostava ou sequer chegou a ser proprietário de um”, recorda Emerson.

Em seu caso, a história de amor começou a ser desenhada ao observar seus vizinhos “opaleiros”. “Como éramos amigos, dava umas voltas nos Opalas deles. Por isso, quando tirei carta, já queria estar com um na garagem”, lembra o jovem.

E, para sua sorte, dois dias depois realizou seu sonho. “Vinha procurando há algum tempo, mas não encontrava um bom negócio. Graças ao destino, um vizinho apareceu com o modelo que eu desejava e acabei comprando-o”, recorda Emerson. “Na seqüência, passei dois anos restaurando-o para deixar a lataria em ordem”, completa.

Já Eduardo, que a exemplo de Emerson também perdia horas reparando nos modelos da vizinhança em São Paulo, onde residia, a paixão começou a despertar a partir do lançamento do Opala Diplomata. “A partir daquele momento, decidi que seria o carro da minha vida”, conta ele.

Desta forma, mesmo contra as opiniões da família, passou a trabalhar para juntar dinheiro e comprar um Opala, o que só conseguiu fazer após mudar-se para Bauru e uma longa e árdua negociação com um garagista da região. “Era um cara de difícil trato e pavio curto, que resistiu o quanto pôde. Mas, depois de muito esforço e papo, convenci-o a vendê-lo”, relembra o vice-presidente.

E eles não pretendem parar por aí. Emerson e Eduardo querem transmitir a seus futuros filhos o mesmo carinho pelos Opalas. O presidente define-se até como “radical” nesse ponto. “Eles terão a mesma paixão que eu. Quero plantar uma semente para que eles transmitam este gosto para várias gerações e não deixá-lo morrer. Eles poderão até comprar outro carro, mas irão curtir os Opalas também”, promete.

Ciúme

Se há algo em comum entre os “opaleiros” e demais fãs de automóveis é o ciúme pelos carros. O presidente do Opala Clube Bauru, Emerson Antônio da Silva, não tem vergonha em admitir: é um ciumento assumido. “Quando saio com o Opala, estaciono em duas vagas e nunca paro embaixo de árvores para que tanto as fezes de pássaros quanto as resinas vegetais não caiam nele”, revela.

Outros procedimentos adotados por Emerson é nunca sair debaixo de chuva para não sujá-lo. “No dia em que fui obrigado a fazer isso para ir ao trabalho, não dormi enquanto não o limpei e sequei por inteiro”, jura. “Apenas zelamos pelo que é nosso”, justifica Eduardo, outro ciumento.

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Cronologia

1966 A General Motors baseia-se no projeto 676 para o lançamento do seu primeiro automóvel fabricado totalmente no Brasil, com uma mistura de carroceria alemã e mecânica norte-americana.

1968 O Opala faz sua estréia como vedete do VI Salão do Automóvel, onde foi apresentado ao público na versão sedã quatro portas, com opção de motores quatro e seis cilindros e versões de acabamento luxo e standard.

1970

É lançado o câmbio de quatro velocidades. Poucas foram as mudanças estéticas, permanecendo o Opala quase inalterado, a não ser pelas novas opções de acabamento/cores e melhorias na parte mecânica.

1971

É lançado o cupê de duas portas sem coluna lateral. Novas grades reestilizam o Opala. O motor seis cilindros ganha nova versão de 4.100 cilindradas e passa a equipar o também lançado Opala SS, versão esportiva que, entre outros itens de série, contava com bancos separados e alavanca de câmbio no assoalho. Surgem as versões DeLuxo e GranLuxo, a versão standard passa a ser chamada de Especial.

1972 O motor seis cilindros com 3.800 cilindradas é abolido da linha, permanecendo o 4.100. A versão GranLuxo tem como opcionais câmbio de SS e bancos separados. O SS quatro portas deixa de existir e é substituído pelo Opala SS cupê, um esportivo com “cara” mais jovem.

1973 O modelo pré-1973 ganha novas mudanças estéticas, com piscas nos cantos dos pára-choques e as chamadas “setas falsas” deixam de existir. Na traseira, as luzes de ré passam a ficar do lado das sinaleiras nos modelos DeLuxo e GranLuxo.

1974 O Opala alcança a marca de 300 mil veículos produzidos. É lançado o SS4 com o novo motor 151S. Todas as demais versões da linha sofrem pequenas modificações externas e mecânicas, mudanças para serem sentidas e não vistas, segundo propaganda da época.

1975 A GM completa 50 anos de Brasil. A data também marca grande mudança da linha, que ganha nova frente, grade e capô, que passaria a abrir no sentido horário. As sinaleiras traseiras de canto dão lugar a duas de cada lado redondas. A versão GranLuxo sai de linha substituída pelo luxuoso Comodoro com teto de vinil Las-Vegas. É lançada a versão perua, a Chevrolet Caravan.

1976

É lançado o motor 250S, com 170 cavalos de potência. A Caravan é eleita como carro do ano.

1977 O Opala SS sofre mudanças estéticas e ganha novas rodas, faixas, volante e logotipos. O restante da linha permanece inalterada.

1978 O Opala completava 500 mil unidades vendidas.

1980 A linha recebe frente de formas retas e lanternas traseiras amplas.

1981 Era a vez do interior ser modificado, com novo painel, instrumentação e volante.

1982 Lançamento da série especial Silver Star.

1983 Chegada do câmbio de cinco marchas e modernização das linhas. Por fora, faróis retangulares e lanternas envolventes substituíam as circulares, ao mesmo tempo em que era lançada a luxuosa versão Diplomata.

1985 Mais modificações estéticas e de acabamento eram introduzidas, com novas lanternas traseiras, rodas, calotas, retrovisores e fechaduras.

1988 Ano em que foram adotadas nova frente, faróis trapezoidais e lanternas traseiras. Por dentro, novo grafismo do painel, volante de três raios escamoteável e inclusão de opcionais inéditos, como alarme sonoro para lanternas e faróis ligados, controle temporizado de faróis e luz interna, vidros elétricos com temporizador e ar-condicionado com extensão para o banco traseiro.

1989 A versão cupê sai de linha, permanecendo as versões quatro portas e Caravan.

1990 O motor 4.1 litros ganhava mais suavidade de funcionamento e potência.

1991 Novas modificações estéticas: pára-choques envolventes, rodas de aro 15 polegadas com pneus 195/65 e portas dianteiras sem quebra-vento e com novos retrovisores (só no sedã). Na parte mecânica, freios a disco nas quatro rodas e direção hidráulica de controle eletrônico.

1992 No dia 16 de abril de 1992, o último dos Opalas saía da linha de montagem da General Motors, em São Caetano do Sul.