Pré-adolescentes e adolescentes gostam de ler, certo? Nem sempre. Raramente. Não, principalmente quando são obrigados a ler livros indicados por professores e sabem que, no final do bimestre escolar, uma prova vai testar seus conhecimentos sobre aquela história.
No entanto, algumas turmas do Colégio Fênix estão invadindo a biblioteca e até as livrarias da cidade e transformando a leitura em mais do que um hábito, poderia-se dizer um vício saudável. Duas professoras do colégio tiveram a iniciativa, no começo deste ano, de oferecer aos alunos de 5.ª a 6.ª, 7.ª e 8.ª séries do ensino médio, a oportunidade de conhecer o universo da literatura de uma maneira pouco convencional, principalmente por se tratar de uma aula. São os alunos que escolhem o que vão ler.
A professora Oeni Custódio Marins explica que o incentivo à leitura foi necessário porque muitos alunos possuiam dificuldades para escrever. “Não sabíamos como fazer para melhorar a qualidade dos textos. Mas se ele tem dificuldade na construção, falta um pré-requisito: a leitura, o vocabulário. Efetivamos a aula de leitura como parte do currículo, e depois decidimos dinamizá-laâ€, explica.
Os alunos foram levados à biblioteca para ter contato com os livros, e também puderam escolher títulos próprios para sua faixa etária em catálogos de editoras. “Tivemos de agir de maneira prática. Desse contato direto deles com os livros, hoje colhemos os frutos. Eles falam que não conseguem mais parar de lerâ€, diz a professora.
E os alunos confirmam. Miqueli Romano Páez, aluna da 5.ª série, conta que não era muito fã de leitura. “Minha mãe e minha irmã sempre me incentivaram, mas eu pegava o livro, lia a primeira página e largava, ia fazer outra coisa. Com a professora incentivando e depois dos primeiros trabalhos que a gente apresentou, agora eu não largo mais o livroâ€, afirma.
Guilherme Lopes, também da 5.ª série, diz que tem mais vontade de ler atualmente. â€œÉ mais legal assim, pois não é um livro que você tem que ler porque tem uma prova no final do bimestre. A gente lê porque gosta, e se diverte depoisâ€, diz.
Para Gisele Parreira, a grande descoberta dos professores e dos alunos foi tomar contato com o universo próprio dos adolescentes. Depois de uma experiência em que ela lia um livro para os alunos - e que até deu certo, considerando que eles permaneciam em silêncio e atentos, segundo Gisele -, foi pedido para que os próprios alunos trouxessem seu livro para a escola.
“Meus alunos escolheram livros dos catálogos e eu dava as orientações. Uma aluna de 6.ª série veio me perguntar sobre Machado de Assis e isto foi uma surpresa. A Gisele deixou mais aberto, os alunos traziam seus livrosâ€, conta Oeni.
A aluna Olívia Leradini Buzzo comenta que prefere escolher sua leitura, mas também gosta de saber a opinião da professora. “A gente tem que escolher alguma coisa que vai gostar, e a professora dá opinião. Mas não adianta ela dar um livro que eu não vou gostar, porque eu perco o interesseâ€, reitera.
Nas turmas mais novas, as professoras utilizaram outros incentivos para que a leitura se tornasse mais prazerosa. Cada grupo de alunos deveria arrumar uma maneira diferente de apresentar a história ou um trecho dela para a sala. E os alunos divertem-se preparando apresentações de teatro, quadrinhos, paródias, músicas.
“Nós vamos até o auditório e o grupo representa da maneira que escolher. Alguns alunos da 5ª série contaram a história do cavalo de Tróia. Trouxeram os soldadinhos de casa, fizeram um cavalo de papelão e o grupo ficou atento. Isto estimula muito, principalmente porque eles querem trocar os livros entre eles depois, tem um rodízioâ€, relata Oeni.
Para as turmas mais velhas, Gisele deu a oportunidade dos alunos escolherem um tema dentro dos livros e realizar uma verdadeira palestra para os colegas. “Tivemos trabalhos sobre aids e doenças sexualmente transmissíveis, estrangeirismo no vocabulário, com exemplos da cidade, nutrição, gravidez na adolescência, que são problemas do universo deles. A interação foi muito legal, todos participaramâ€, diz Gisele.
Gostos
As professoras puderam perceber, com a liberdade de escolha dada para os alunos, que os temas que eles buscaram são muito próprios para cada faixa etária, pela paixão dos alunos pela leitura e até pelo incentivo dos pais. Segundo Oeni, os estudantes mais novos buscam sempre histórias de aventura, e para as meninas, se houver um toque de namoro, melhor ainda.
“Já na 7ª série, por exemplo, todos buscam leitura com relacionamentos, namoros, que é uma coisa própria da idade esta descoberta. Os livros com respostas para suas dúvidas fizeram muito sucesso, como ‘Nós, os garotos’ e ‘Nós, as garotas’. Mas eu tenho uma aluna da 7.ª série que me pediu Clarice Lispector, o que é excelenteâ€, afirma Oeni.
Gisele observa que os alunos não têm a obrigação de completar a leitura quando não gostam de um livro. “Eu dou esta liberdade, porque não tem nada mais chato do que você ser obrigado a ler um livro que não está curtindo. E é por isso que eles devoram, escolhem um depois do outro, não ficam sem leitura. Para esta geração, eu vejo como uma coisa incrívelâ€, diz.
Os pais conseguem notar essa mudança de comportamento nos filhos e mostram-se felizes com o resultado. Solange Iwasaki Drimel é mãe de Vinícius, aluno da 6ª série, e confirma que a atitude de seu filho mudou depois das aulas de literatura no colégio. “Hoje, ele pega revistas para ler e vem comentar comigo depois, não fica só nos livros. Com esta liberdade de escolha, ele se interessou muito mais pela leitura, e vejo que as notas dele, o jeito de escrever e até o jeito de conversar mudaram muito, para melhorâ€, conclui.