08 de julho de 2026
Saúde

Trânsito deixa seqüelas em 60% das vítimas

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Registros do Sistema de Informação de Mortalidade (SMI) do Ministério da Saúde revelam que cerca de 30 mil brasileiros morrem anualmente em decorrência dos acidentes de trânsito. E de acordo com o Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas de São Paulo, 60% dos acidentados que sobrevivem ficam com lesões permanentes.

As seqüelas vão desde a amputação de membros (dedos, mãos, braços, pés e pernas) até as lesões neurológicas graves, como os danos cerebrais e a perda de movimentos (paraplegia e tetraplegia).

“A maioria das vítimas está numa faixa etária economicamente ativa - entre 15 e 35 anos. Imagine uma pessoa nessa idade que sofre um trauma grave e fica incapacitada pelo resto da vida. Você vai ter impactos sociais, financeiros e familiares muito graves”, observa o neurocirurgião Luís Gustavo Ducati.

O Brasil não tem dados específicos, mas o governo dos Estados Unidos estima gastar entre US$ 1,5 milhão e US$ 4 milhões para cada paciente traumatizado. Os custos incluem desde o pronto-atendimento até cirurgias, internações (principalmente em Unidades de Terapia Intensiva - UTI), reabilitação e acompanhamento médico a longo prazo.

Nos últimos anos, a medicina tem considerado o trauma como uma doença. E segundo a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), essa doença já se constitui uma das principais causas de morte na faixa etária entre 11 e 45 anos, com pelo menos 100 mil vítimas fatais por ano no País.

“Trauma, em seu sentido literal, significa uma agressão aguda ao corpo humano. Vários são os mecanismos pelos quais eles acontecem: acidentes automobilísticos, quedas, brigas com ou sem armas e atropelamentos - para citar os mais freqüentes”, explica Ducati. “Mas os acidentes de trânsito são, disparado, a principal causa. Eles respondem por 50% a 70% deste total”, acrescenta.

Dentre os mais diversos traumatismos, o neurotrauma (que acomete o sistema nervoso, incluindo cérebro, medula espinhal e nervos) é considerado o mais grave, com alta taxa de mortalidade e de seqüelas graves, segundo o médico.

“Ele traz conseqüências ruins não só para a vítima, mas também para seus familiares. A família tem que se reestruturar para cuidar desse doente que, muitas vezes, fica acamado ou paralisado”, salienta.

De acordo com Ducati, a equipe de neurocirurgia do Hospital de Base (HB) de Bauru atendeu, só no primeiro semestre deste ano, 186 pessoas vítimas de traumatismo de crânio ou coluna. “Isso nos dá, em média, uma internação por dia. Se você considerar que somente uma parcela dos pacientes que chegam ao pronto-socorro são internados, você deduz que o número de vítimas é muito maior”, observa.

O médico explica que a maioria dos pacientes não chega ao hospital. “Muitos porque apresentam lesões leves e não precisam de internação. Outros porque sofreram traumas tão graves que não dá tempo de internar - eles morrem a caminho ou no próprio pronto-socorro. Sem contar as vítimas de outros tipos de traumatismos que não chegam ao neurocirurgião, como fraturas e perfurações de abdômen”, comenta.

De cada dez pacientes internados no HB com trauma de crânio ou coluna, aproximadamente dois (18,2%) necessitam de cirurgia. São pacientes em que a pancada causa um hematoma (coágulo) no cérebro. Conforme o sangue circula, esse coágulo aumenta e pressiona o cérebro, o que dificulta a passagem de oxigênio. Se não for retirado a tempo, a pessoa morre.

“Quando se fala em operar o cérebro, as pessoas pensam que é um procedimento raro. Mas se registramos uma internação por dia, pode-se dizer que fazemos uma cirurgia dessas a cada cinco dias, em média. Esta semana, por exemplo, já operamos seis acidentados (entre segunda-feira e quarta-feira)”, afirma.

De acordo com o Conselho Federal de Medicina, mais de 90% dos acidentes no trânsito são causados por falha humana. Descuido e negligência são os principais vilões. No intuito de combater estes fatores, o Ministério da Saúde acaba de lançar um concurso que premiará as melhores iniciativas de prevenção às ocorrências automobilísticas no País.