Muitos profissionais fazem da voz um potente instrumento de trabalho. O problema é que nem sempre ela recebe o tratamento correto. Preocupada com estatísticas desfavoráveis, a fonoaudióloga e doutora em distúrbios da comunicação humana Daniela Maria Cury Ferreira Ruiz, do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo - Centrinho/USP -, em Bauru, está lançando a campanha “A voz é para trabalhar, não para dar trabalhoâ€.
Segundo a assessoria de imprensa do Centrinho, a iniciativa prevê palestras gratuitas em duas segundas-feiras - 24 de novembro e 1.º de dezembro - na sala 2 da pós-graduação do próprio hospital, às 19h, além de esclarecimentos sobre o assunto por meio de divulgação na imprensa.
O resultado dos excessos na utilização inadequada da voz e articulações pode ser desde uma incômoda rouquidão a problemas mais graves, como nódulos e edemas nas pregas vocais.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Laringologia, 40% da população ativa utiliza a voz como instrumento de trabalho. Só no Estado de São Paulo trabalham 220 mil professores, dos quais 60% têm (ou já tiveram) algum tipo de problema vocal de maior ou menor gravidade. Estima-se, ainda, que até 35% das pessoas podem ter algum tipo de anormalidade nas pregas vocais em decorrência do uso excessivo da voz, segundo informa o Centrinho.
A escolha deste período do ano para lançar a campanha sobre os cuidados com a voz não foi por acaso. No último dia 14 foi comemorado o Dia Nacional da Alfabetização. “As orientações que passamos valem para qualquer pessoa, porém, temos uma preocupação especial com quem dá aulas, mas não educa a própria vozâ€, explica Daniela.
No dia-a-dia da profissão, a fonoaudióloga constata que os chamados “profissionais da voz†têm dificuldade em desacelerar o ritmo vocal, o que é perigoso. “A pessoa continua usando a ‘voz profissional’ fora do ambiente de trabalho, quando deveria estar utilizando um tom mais coloquial.â€
Ela sugere que quem fala muito durante o dia também precisa colocar a voz “para dormir†depois do expediente. “Isso significa que um professor de ciclo básico, por exemplo, que tem turmas de mais de 40 alunos, deve saber usar a voz entre amigos e familiares sem a intensidade com a qual se vê obrigado a falar nas aulas para se fazer entender.â€
Por isso, a fonoaudióloga engrossa a fileira dos profissionais que defendem a adoção de microfone em sala de aula. “Conheço professor que comprou o equipamento do próprio bolso para continuar lecionando, uma vez que sua voz já estava apresentando alterações por causa do esforço diário em sala de aula.â€
Daniela explica que as pregas (ou cordas) vocais precisam estar livres de sobrecargas para evitar o surgimento de um fonotrauma (trauma de voz), que pode ser um nódulo (calo) bilateral, ou edema (lesão que se espalha por toda a prega vocal). Ambos provocam rouquidão e podem obrigar uma intervenção cirúrgica. Também há o risco da manifestação de um cisto, que é o resultado da explosiva combinação entre excesso no uso da voz e herança genética.
Segundo a fonoaudióloga, a ingestão de álcool e o uso do tabaco podem provocar algo ainda pior, como um câncer de laringe. “Com hábitos saudáveis e medidas simples de prevenção, como a adoção de técnicas de aquecimento da voz e intervalos em sua utilização diária, é possível obter muitos resultados positivosâ€, afirma Daniela Ruiz.
Para prevenir problemas, a fonoaudióloga do Centrinho orienta falar pausadamente, sem exagerar no volume; evitar gritar para se fazer entender no trabalho; se for beber, faça-o com moderação e prefira bebidas fermentadas (como o vinho), e não fumar.
Serviço
Mais informações sobre as palestras da campanha “A voz é para trabalhar, não para dar trabalho†podem ser obtidas no setor de eventos do Centrinho/USP pelo telefone (14) 3235-8437, ou pelo e-mail eventos@centrinho.usp.br.