Elogiar qualquer coisa no Brasil é, no mínimo, arriscado. Os fatos costumam desmentir aqueles corajosos críticos que, de vez em quando, se aventuram a falar bem de pessoas, de instituições e, principalmente, de políticos. Mas vou correr o risco.
É impossível deixar de enaltecer a ação desenvolvida pelas polícias (estadual e federal), justiças de ambas as esferas, ministérios públicos estadual e federal, além do Fisco do Rio de Janeiro, pela apuração e condenação de 22 pessoas, envolvidas no caso conhecido como “Propinodutoâ€, em – pasmem, leitores – dez meses!
Esse caso envolveu várias autoridades e fiscais cariocas, na gestão do ex-governador Anthony Garotinho, que “perdoavam†dívidas de grandes empresas daquele Estado em troca de propinas, algumas das quais foram diligentemente rastreadas e localizadas em contas bancárias abertas pelos condenados na Suíça.
A bem da verdade, essa não foi a primeira vez que a Justiça carioca se comportou exemplarmente. No início da década de 90, uma quadrilha de fraudadores do INSS foi desmantelada e cerca de duas dezenas de envolvidos, todos juízes, procuradores e advogados, portanto, meliantes de “colarinho brancoâ€, foram condenados a duras penas de prisão.
Mais do que isso: a Justiça daquele Estado, com o auxílio de órgãos federais, rastreou contas abertas em bancos dos Estados Unidos e da Costa Rica pela advogada Jorgina de Freitas, uma das participantes da quadrilha, atualmente cumprindo pena, e conseguiu repatriar parte dos recursos desviados para o Exterior.
Leio, diariamente, na mídia, notícias sobre a rápida evolução de outros casos semelhantes, igualmente espetaculares, dentre eles o do Banestado, no Paraná; e a chamada “Operação Anacondaâ€, em São Paulo, cujas investigações começaram a ser divulgadas.
Nesses três casos, é preciso destacar a colaboração e a troca constante de informações entre autoridades estaduais e federais, encarregadas de apurá-los.
Será que, finalmente, as polícias estadual e federal, juízes estaduais e federais, os fiscos dessas duas esferas de governo e os respectivos ministérios públicos resolveram deixar as divergências de lado e atuar juntos em benefício do contribuinte? Espero que sim. E, como todos os brasileiros, torço para que tal colaboração se aprimore cada vez mais.
É inegável também que o crime organizado já está sendo combatido com maior eficácia. A recente onda de atentados a postos da Polícia Militar, em São Paulo, planejados por líderes criminosos, que cumprem penas em cadeias, é a melhor prova disso. A seqüência de derrotas dos meliantes os enfraquecerá de maneira irreversível.
A análise fria de todos esses dados sugere a existência de núcleos de inteligência estaduais e federal por trás das ações de investigação às fraudes, à sonegação de impostos, ao contrabando de mercadorias, ao narcotráfico, à “lavagem†de dinheiro, e ao crime organizado.
Se isso é para valer ou apenas mais uma onda de moralidade, só o tempo dirá. De qualquer forma, é bom que contribuintes, eleitores e, por enquanto, ainda candidatos a cidadãos, todos nós, brasileiros, fiquemos atentos e cobremos das autoridades o cumprimento do seu dever.
Estaremos prontos a criticar e cobrar, quando for o caso, mas também – e por que não? – a elogiar quando for preciso e justo. (O autor, Miguel Ignatios, é presidente da Federação Nacional das Associações dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil - Fenadvb)