08 de julho de 2026
Geral

Cancelado embarque de leoa à África

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

O embarque para a África do Sul da leoa abrigada há 18 meses no Zoológico Municipal de Bauru foi cancelado. Ela faz parte de um grupo de 20 leões abandonados, que seriam enviados para Joannesburgo anteontem. A suspensão da viagem solicitada pelo Ministério Público Federal (MPF) de São Paulo, que investiga denúncias contra a instituição africana que receberia os animais.

No total, 60 leões seriam doados ao zoológico Animal and Reptile Park Zoo através de um acordo firmado com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Porém, organizações não-governamentais acionaram o MPF por suspeitarem que a entidade sul-africana esteja atuando de modo irregular e que os leões seriam enviados a fazendas de caça.

“Foram feitos inúmeros contatos (com o Ibama) e conseguimos impedir o embarque até que a situação seja esclarecida. Se as denúncias se confirmarem, vamos ter de encontrar um local no Brasil para acolher os animais, atualmente abrigados provisoriamente em zoológicos”, explica a procuradora da República, Maria Cristina Simões Amorim.

Ela recebeu das ONGs um documento em que o Departamento de Agricultura da África questiona o proprietário do parque sul-africano (Pablo Urban) sobre o recebimento dos animais.

“Ele não teria espaço para comportar os animais. Além disso, o proprietário alega que os leões do Brasil seriam utilizados para exposição e reprodução, mas estão mutilados e não são indicados para reprodução porque são originários do cruzamento entre membros da mesma família”, informa.

Segundo Amorim, a Interpol também está investigando o caso, mas por enquanto as denúncias não foram confirmadas.

Questionamentos

“Diante de situações duvidosas, é praxe o Ibama fechar acordos debaixo do pano. Em nenhum momento o Fórum Nacional de Proteção Animal foi solicitado para discutir o assunto (destinação dos leões), mas quando o Ibama tem qualquer abacaxi na mão, somos os primeiros a ser procurados”, critica a integrante do Santuário Ecológico Rancho dos Gnomos, Silvia Pompeu.

Ela levou alguns questionamentos ao MPF, quando soube do acordo entre o Animal and Reptile Park Zoo e o Ibama.

“Há dois anos, quando essa história começou, alertamos o Ibama sobre essa instituição sul-africana. Demonstraram indignação e não tocaram mais no assunto. Fiquei sabendo do embarque por acaso”, desabafa Pompeu, que também oferece tratamento a leões abandonados no Santuário, instalado em Cotia (Grande São Paulo).

A entidade é respeitada pelo Ibama, que contesta suas alegações por considerá-las sem subsídios. “Seria leviano por parte do Ibama desconfiar, com base apenas em suposições, dos documentos apresentados pelo governo da África (que atestariam a idoneidade da instituição). O embarque foi adiado por questões burocráticas”, diz a chefe substituta do Centro Nacional de Pesquisa para Conservação dos Predadores Naturais do Ibama de São Paulo, Rose Morato.

Segundo ela, o embarque foi adiado porque o Animal and Reptile Park Zoo não conseguiu aprontar a tempo a documentação de entrada dos leões, já que o Ibama atrasou para liberar as licenças da convenção internacional para o transporte de animais silvestres, necessárias para o processo de transferência dos felinos.

Morato não soube informar sobre as negociações entre o Ibama e o Ministério Público, que seriam realizadas em Brasília. O JC procurou o órgão no Distrito Federal, mas não conseguiu contato.

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Animal permanece no Zôo

Com a suspensão do embarque para a África do Sul, o Zoológico Municipal de Bauru continuará mantendo a leoa de 2 anos e meio. Ela permanecerá provisoriamente acolhida numa ala de 20 metros quadrados denominada quarentena, conforme explica o diretor do Zôo e secretário Municipal do Meio Ambiente, Luiz Pires.

“O ideal é que ela fosse remanejada para um recinto maior. Mas como ela não recebe visitação pública, pelo menos esse estresse ela não sofre”, comenta.

Em função da viagem que estava prevista para anteontem, a vermifugação da leoa foi antecipada o que, segundo Pires, não resultou em despesas para o Zoológico de Bauru, único responsável pela manutenção do bicho.

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), responsável pelo animal, confirma a impossibilidade de colaborar financeiramente com o zôo de Bauru.

Conforme o JC publicou, quando foi acolhida, a leoa estava desnutrida e corria risco de morte. Por essa razão, sua estatura é aquém da normal. Ela foi apreendida em Avaré, na casa de um particular, que a adotou depois que foi abandonada por um circo.