07 de julho de 2026
Ser

Samurai das madeixas

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 8 min

“Se não for para fazer as pessoas felizes, não faça nada”, filosofa o cabeleireiro paulistano Celso Kamura, um guerreiro das tesouras que está completando 25 anos de carreira e vai inaugurar no próximo dia 1 o salão dos seus sonhos, espaçoso e moderno, na rua da Consolação, em São Paulo.

Quando ingressou num salão de beleza como maquiador, nem sabia que a profissão existia de fato. Tornou-se cabeleireiro por curiosidade e hoje cuida de madeixas de famosas como as da prefeita de São Paulo Marta Suplicy. Foi ele o responsável pela mudança radical no visual da apresentadora Angélica, que nunca tinha cortado os cabelos e agora já pensa no visual curto que a loira quer para 2004.

Kamura assina capas de revistas e o stylist de desfiles de moda internacionais como o de Walter Rodrigues, em Paris. Mas confessa que o trabalho foi árduo. “Fiz muito rodapé sem foto ou só aquele olhinho no canto de um certo ou errado antes de chegar na capa.”

Apesar da fama e do estilo, sempre marcante, o cabeleireiro sabe dosar o talento e a humildade com bom-humor e paciência.

Na última segunda, Kamura esteve em Bauru dando um workshop para profissionais de beleza de todo o Estado realizado pela franquia local da Aneethun Cosmética Profissional. Depois de oito horas de dicas e cortes, o cabeleireiro conversou com o caderno Ser. Na próxima semana, a página Mulher traz os conselhos de Celso Kamura para o visual do verão 2004. Confira.

Jornal da Cidade – A carreira de Celso Kamura começou há 25 anos como maquiador. Mas como você descobriu que seria um profissional da beleza? Celso Kamura – Como eu descobri? Foi meio que por acaso. Eu tinha um amigo que era meu vizinho e era cabeleireiro e eu gostava muito de maquiar. Maquiava as amigas, as minhas vizinhas, maquiava a minha irmã, minha prima... E um dia esse vizinho me convidou. Disse que no salão que trabalhava estavam precisando de um maquiador e se eu não queria trabalhar. Eu disse: quero. Fui lá, fiz o teste, o dono do salão gostou e aí me empregou como maquiador. Mas eu não sabia nem que existia de fato essa profissão de maquiador. Aí depois de um ano como maquiador no salão, eu me tornei cabeleireiro, mas de curiosidade mesmo. Comecei a mexer no cabelo das pessoas e virei cabeleireiro...

JC – E hoje você não se vê fazendo outra coisa? Kamura – Não. (acena com a cabeça repetidamente)

JC – A gente sabe que o cabelo, principalmente para a mulher é um reflexo da alma. Um corte, uma cor, pode mudar tudo. Você tem uma sensação de onipotência quando alguém chega para você e diz que quer mudar e deposita em você a responsabilidade? Você se preocupa ou diz: vamos mudar? Kamura – Há muito tempo, uma pessoa virou para mim e perguntou: você sabe qual a sua missão na vida? E disse: não sei. Mas depois eu cheguei à conclusão de que a minha missão era embelezar as pessoas mesmo. Toda pessoa que senta na minha cadeira, o que eu mais quero é que ela se sinta mais bonita. Então, eu acho que essa coisa de querer e de saber que tenho essa responsabilidade com as pessoas faz com que eu execute um trabalho com segurança e o que faço dê tudo certo.

JC – Acontece de você acordar de mau humor, cansado ou preocupado e dizer para si mesmo: hoje eu queria fazer outra coisa, mas não cortar cabelo? Kamura – Não, acontece, como está acontecendo agora, que desde outubro eu não parei nenhum dia. Eu trabalhei todos os dias. Eu tenho meu salão, mas de outubro para cá eu fiz, duas viagens para o Nordeste, umas cinco para o Rio de Janeiro... E eu não paro e vivo cansado. Mas a única coisa que eu penso, quando estou muito cansado, é que sou uma pessoa privilegiada por ter sucesso na minha profissão e eu tenho que fazer, entendeu? Eu acordo, às vezes, cansado, com pouca vontade de trabalhar, acordo. Mas a hora que entro no salão e começo a trabalhar, a coisa já vem e tudo muda.

JC – Ao observá-lo cortando cabelo, eu percebi que quando empunha a tesoura e a navalha, você se transforma. Parece que foi ligado na tomada. É assim que funciona? Kamura – É assim mesmo. Às vezes, vou para o salão cansado, mas começo a trabalhar e não sinto cansaço parece mesmo que a tesoura me energiza.

JC – Por falar em salão, hoje todos os cabeleireiros estão montando uma sucursal em outro Estado ou filiais nas grande cidades. E você, ao contrário, parece preferir manter o seu estúdio com a sua presença e identidade. Isso é até uma questão de filosofia oriental? Kamura – Eu acho que é uma característica da filosofia do meu trabalho. Eu não tenho mulher, não tenho filhos, sou uma pessoa sozinha e o que ganho está muito bom, é suficiente. Então, tenho que fazer com que o meu trabalho me torne uma pessoa feliz e me fazer feliz é assim: ter uma equipe reconhecida, em que todas as pessoas que trabalham comigo sejam bem remuneradas, que elas sejam felizes. O que eu quero é um equipe poderosa, reconhecida no Brasil inteiro, e em conseqüência disso, que todo mundo à minha volta tenha uma vida boa.

JC – Isso já lhe recompensa? Kamura – É isso. É lógico que eu acredito em franquias, nessa massificação do trabalho. Mas não acredito que isso seja verdadeiro porque a beleza é individual, mas existem muitas tribos e eu quero atender todas. Não quero atender especificamente um tipo de pessoa. Eu quero atender todo mundo. Só que para atender todo mundo eu tenho que ter uma equipe sintonizada com aquilo que eu penso, tenho que ter a pessoa certa na hora. Não existe mais cabelo cafona, nem cabelo horroroso. Tem o cabelo certo para cada pessoa.

JC – E você? É vaidoso? Kamura – Eu sou.

JC – Extremamente? Kamura – Ah! Extremamente não porque eu acho que com a idade você vai mudando.

JC – Você define a mulher em três tipos: a moderna, a clássica e a exuberante. Você tem predileção por alguma delas? Kamura – Eu gosto de todas. A clássica é aquela mulher cheirosa que preza pela qualidade. A moderna é antenada, está ligada em tudo, e a exuberante é um luxo, aquela que entra num lugar e pára tudo.

JC – Esse poder de levantar o astral das pessoas, de ter uma função até de cartomante para uma cliente vem de onde? Você é místico? Kamura – Místico não, mas eu aprendi que as pessoas têm uma missão, um destino e que você tem que fazer as pessoas felizes. Se não for para fazer as pessoas felizes, não faça nada. Mas eu acredito num monte de coisa. Num banho de sal grosso... (enfatiza). Sou supersticioso.

JC – E para manter essa juventude e a boa forma, o que você faz? Malha? Vive de dieta? Kamura – Malho um pouco. Eu sei que tenho que malhar porque daqui a pouco a barriga cresce e eu não vou gostar. Então, malho para ter um corpo bacana e me dar disposição. Estou sempre procurando algo que me dê disposição, que me energize. Já fiz ortomolecular, parei. Fiz um pouquinho de ioga. Agora, estou tomando um energizante que veio lá do Mato Grosso, que é tudo (risos). Como você viu, estou sempre em busca de energia.

JC – Você hoje é um cabeleireiro famoso, que corta as madeixas de celebridades, faz capas de revistas e desfiles internacionais. É diferente para você cortar o cabelo de uma Angélica que tem dinheiro de sobra e de uma mulher que economizou quatro meses para poder cortar com o Kamura? Kamura – A diferença é que seu trabalho é muito analisado. Eu estou consciente que tanto a cliente simples, quanto a famosa olha para a cabeça de uma pessoa e fica avaliando. Às vezes, isso me incomoda, mas é o preço. Essa história de atender famosa é complicado.

JC – Alguma vez você fez algum corte que não gostou do resultado? Kamura – Quando não gosto, eu desmancho. Eu não consigo ver uma coisa que não gosto. Vamos supor, eu faço um penteado de festa, acabei e não gostei. Eu faço de novo.

JC – Isso é perfeccionismo ao extremo? Kamura – Eu tenho que gostar. Mas tem cliente que não está com um cabelo de acordo, mas não é porque eu não quero, mas sim porque ela não quer.

JC – E quando chega aquela cliente teimosa e diz: “Eu quero isso” e você sabe que não vai dar certo. Por exemplo, eu digo a você que quero ficar loira e de cabelo curto (sou morena e tenho uma farta cabeleira). Você faz? Kamura – Em você, eu faço. Mas uma coisa muito absurda, eu não faço. Mas isso é difícil acontecer, porque eu consigo convencer. Existe uma coisa muito absurda, tem gente que diz que quer ter cabelo comprido, mas eu aconselho então que use preso. Tento dar algumas opções para ela ter o que gosta e me satisfazer também.

JC – Para isso tem que ter paciência oriental? Kamura – É. Porque eu tenho que satisfazer a cliente, mas nem tudo o que eu gosto, ela gosta. Mas agora tem mil e uma coisinhas para isso. Você sempre consegue alguma coisa para melhorar.