Entre as várias medidas adotadas pelo atual governo, há uma que me está preocupando muito. É a da chamada Fome Zero, ao meu ver utópica, demagógica e infantil. Sempre me indago se não estaria sendo radical demais nas minhas conclusões e, para não ficar adstrita aos meus nem tão poderosos alicerces culturais, decidi-me por ler um pouco e embasar-me em grandes mestres.
Vendo alguns papas da matéria, especialmente Peter F. Drucker, cheguei à conclusão que meu raciocínio não é tão enviesado como possa parecer à primeira vista. Das obras que tenho lido, chego à conclusão que a distribuição, quer estejamos preocupados com a pobreza de nosso país, quer estejamos estarrecidos com idêntico problema em todo o planeta, não levará a lugar nenhum. O prato que hoje se enche, estará, de novo, vazio amanhã e assim sucessivamente. Como solucionar, então, a questão? Tornando o pobre mais produtivo. De que forma? Promovendo o crescimento econômico dos países desenvolvidos e dos países em desenvolvimento como o nosso.
Ah! dirão muitos, mas isso levaria décadas e mais décadas. Sem dúvida, não se mata definitivamente a fome de milhões de seres humanos, da noite para o dia. A palavra mágica parece ser a tecnologia. Enquanto não criarmos uma tecnologia nacional, ficaremos à mercê de uma péssima distribuição de recursos.
Não dispomos de mão-de-obra qualificada, daí a necessidade de se investir em educação que formará empregados com conhecimento que, por sua vez, produzirão mercadorias e serviços de alto conteúdo. De nada adiantarão bravatas ou ameaças destemperadas se não temos armas para fazer frente à tecnologia que vem de fora, e por isso mesmo nem para matar a fome dos que estão aqui dentro. Há muita tecnologia nova sendo criada que nenhum país, nenhuma empresa, afirma Peter F Drucker, pode esperar criar toda a tecnologia de que necessita. E a única forma de pagar a tecnologia estrangeira é exportando tecnologia nacional.
Infelizmente, estive vendo na mídia que os recursos para a educação minguaram. Foram reduzidos para o próximo ano e, dessa forma, nem mesmo a longo prazo sairemos dessa miserabilidade de que somos acometidos há centenas de anos. Quando Collor comparou novos veículos a “carroças”, queriam matá-lo a pau. É preciso deixar de lado esse ufanismo que a nada leva. Ou as economias pagam o custo do conhecimento para obter todos os benefícios da produtividade do novo conhecimento ou, então, ficarão, indefinidamente, enchendo os pratos vazios dos que têm fome, numa continuidade sem fim. Tal como Sísifo, subiremos indefinidamente ao alto da montanha, arrastando a pedra de nossa incompetência, que, de novo, rolará sob seu próprio peso, renovando ilimitadamente o suplício do condenado.
Maria da Glória De Rosa, professora dra. da Unesp, Campus Marília - Rg 1.946.380