As cinco instituições privadas de ensino superior de Bauru são responsáveis, hoje, por 78% dos alunos matriculados no município, número que pode aumentar ainda mais no próximo ano, com a abertura de novos cursos particulares e o início das atividades da Faculdade Fênix . No total, essas instituições contam com cerca de 15,7 mil estudantes, contra 4,3 mil das duas universidades públicas da cidade.
O crescimento dos cursos privados é visto por quem atua na área como forma de suprir a carência de investimentos estatais no setor de educação e também de atender a demanda de alunos. “Hoje, todo jovem tem o desejo de ingressar em uma universidade e como não há vagas para todos, surge esse interesse em estudar de alguma forma”, opina a reitora da Universidade do Sagrado Coração (USC), irmã Jacinta Turolo Garcia.
O diretor da Universidade Paulista (Unip) em Bauru, Geraldo Magela Alves, concorda. “As instituições públicas estagnaram e oferecem o mesmo número de vagas há muito tempo. Ao mesmo tempo, existe uma demanda muito grande, que vem crescendo nos últimos anos”, diz.
A mesma constatação é feita é pelo presidente do Grupo Administrativo do Câmpus (GC) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, José Carlos Plácido da Silva. “O número de vagas na universidade pública ainda está aquém do que ela precisaria estar oferecendo à comunidade. Para você garantir a qualidade que a universidade pública preza, há um investimento muito grande e as públicas têm um fator de verba limitador”, justifica.
Ele acredita que o avanço das instituições particulares não prejudica as universidades estatais do município, já que os públicos são diferentes. “Entre 75% e 80% dos alunos da universidade pública de Bauru são de fora, e não da região. Por outro lado, as particulares atendem a quem é da região e necessita de vagas”, diz.
Para a diretora acadêmica das Faculdades Integradas de Bauru (FIB), Chiara Ranieri, as condições do mercado de trabalho também influenciam nessa procura por um curso superior. “Estamos em uma era em que as pessoas buscam cada vez mais estarem atualizadas e a competitividade do mercado exige isso. As empresas pedem a titulação acadêmica e muitas têm investindo no profissional, subsidiando parte das mensalidades”, relata.
O discurso também é adotado pelo diretor da Instituição Toledo de Ensino (ITE), Márcio Toledo. “Quando o aluno entra em uma universidade, o objetivo dele é o mercado de trabalho. No nosso caso, ele vem para melhorar a colocação dentro da empresa ou conseguir uma oportunidade melhor em outras. Ele não vem simplesmente para adquirir conhecimento ou se reciclar”, explica.
O diretor geral do Instituto de Ensino Superior de Bauru e Centro de Educação Tecnológica (Iesb-Preve), Said Yusuf, afirma que o crescimento das instituições privadas poderia ter começado antes. “A proliferação do ensino superior pelo País é uma iniciativa tardia do Ministério da Educação (MEC). Nos países desenvolvidos, normalmente não é o governo que acaba gerindo a questão do ensino superior”, declara.
Concorrência
A ampliação do número de cursos superiores também faz com que parte deles sejam oferecidos em mais de uma instituição. Para o diretor da Unip, essa concorrência é saudável. “Na medida em que isso ocorre numa mesma cidade ou região, gera automaticamente uma melhoria de qualidade. Quem investir na qualificação de pessoal conseguirá sobreviver. Os demais acabarão, gradativamente, definhando”, opina Geraldo Magela.
O diretor-geral do Iesb-Preve também é a favor da livre concorrência. “Até a década de 70, com a limitação do credenciamento de instituições, nós tínhamos uma acomadação nos cursos. Hoje, não dá para deixar um curso estático. É preciso uma melhoria contínua, buscando um aperfeiçoamento do aluno”, diz Said Yusuf.
A opinião é compartilhada pela reitora da USC. “Em uma cidade como Bauru, quanto mais faculdades surgirem, melhor. Algumas pessoas falam da concorrência, mas ela é importante para que as pessoas possam escolher com liberdade aquilo que elas podem e querem”, justifica irmã Jacinta.
A diretora acadêmica da FIB defende uma expansão ainda maior das instituições de ensino superior. “Há espaço para se abrir vários cursos que a cidade não possui e esse crescimento é necessário”, afirma Chiara Ranieri.
A FIB aguarda autorização do MEC para abrir, no próximo ano, os cursos de fisioterapia, enfermagem e direito. “Estarei recebendo nas próximas semanas a comissão de avaliação do Ministério”, revela.
Já o diretor da ITE, Márcio Toledo, se mostra preocupado com a proliferação de cursos e instituições. “Se fizermos uma avaliação dos últimos dez anos, o crescimento de escolas foi uma coisa absurda. Hoje, a nossa preocupação não é só a concorrência. Você tem que fazer alguns malabarismos para colocar na mesma balança o preço e a qualidade”, declara.
A reportagem também entrou em contato com o prefeito do câmpus da Universidade de São Paulo (USP) de Bauru, José Fernando Castanha Henriques, mas em razão de compromissos profissionais assumidos anteriormente ele não pode falar sobre o assunto.