Não é preciso mais que se chegue às últimas conseqüências para que as mulheres, vítimas de agressão de seus companheiros, peçam socorro. Nos últimos anos, as ameaças já são suficientes para levá-las a procurar ajuda. “Antes, quando a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) foi inaugurada, elas chegavam até nós com fraturas, lesões graves. Hoje, um insulto já é suficiente para a mulher se mobilizar até a delegacia”, diz a titular da DDM, Rejani Borro Ortiz Tiritan.
Segundo ela, isso é sinal de que as mulheres estão se conscientizando de seus direitos. “As denúncias estão aumentando gradativamente ano a ano e o teor já é voltado à proteção e não só à acusação”, destaca a delegada.
Para a coordenadora do Centro Integrado de Atendimento à Mulher (Ciam), Geni Destro, a divulgação de que os acusados por agressão poderão pagar com penas alternativas pelos seus atos têm estimulado as denúncias. “As mulheres se sentem mais seguras sabendo que haverá uma punição”, ressalta.
O órgão, que é ligado à Prefeitura Municipal de Bauru e tem por objetivo oferecer apoio psicológico, jurídico e social às mulheres carentes, também tem registrado aumento na procura por ajuda.
Destro não soube precisar qual a porcentagem desse crescimento, mas salienta que o movimento tem sido muito mais intenso no Ciam. “Uma das coisas que impulsionaram essa procura foi o fato de estarmos instaladas ao lado da DDM”, destaca.
Isso porque, segundo a coordenadora, muitas mulheres deixavam de recorrer ao órgão por falta de condições financeiras. “Algumas não tinham nem o dinheiro para o passe de ônibus para chegar até nós”, revela.
Ela diz que o Ciam presta um atendimento complementar, ajudando a mulher a se recuperar depois da violência. “Temos de estimulá-la a enfrentar o dia-a-dia, a voltar a viver em sociedade e, em alguns casos, a se divorciar ou separar dos companheiros agressores”, ressalta Destro.
Vassouradas
Mais da metade das denúncias que chegam até o Ciam por mês refere-se à pensão alimentícia. Destro explica que esse índice está em torno de 55% do total de ocorrências do órgão. “Hoje em dia, as mulheres sabem que, se o pai não garantir o alimento para os filhos, vai para a cadeia”, destaca.
Outro tipo de caso muito comum no Ciam é com relação à paternidade. “Quando há dúvidas com relação ao pai da criança, entramos com uma ação para o reconhecimento, recorrendo, inclusive, ao teste de DNA”, esclarece.
Destro salienta que falta em Bauru uma casa-abrigo para as vítimas das agressões. “Precisa ter um local sigiloso para proteger a denunciante enquanto corre o processo”, diz.
O projeto para esse centro de atendimento já está pronto e foi apresentado à Prefeitura Municipal. A verba federal para a manutenção do abrigo também já foi planejada. Falta apenas a administração municipal entrar com a sua parte, que é a estrutura física. “Conseguimos até algumas máquinas de costura para instalar na casa, visando oferecer uma formação para as vítimas”, salienta Destro.
Segundo ela, uma das saídas para a mulher tentar se livrar da convivência com o agressor é conseguir se sustentar sem a dependência do marido ou companheiro. “A submissão financeira compromete a reação contra a violência”, afirma a coordenadora do Ciam.
É o que acontece com a empregada doméstica S.A.S.S.. Agredida pelo marido há oito anos, só agora ela decidiu procurar ajuda, já que a situação ficou insuportável e ela não tem para onde ir com a separação. “O meu salário não dá para nada, não consigo me manter e sustentar a minha filha. Não tem para onde ir”, reclama.
Ela conta que as agressões sempre foram constantes dentro de casa. Começaram com discussões diárias e terminaram em tapas e vassouradas. “O meu marido é alcoólatra e, todos os dias, quando chegava bêbado em casa, ele partia para cima de mim”, relata.
A reação de S. era imediata. Ela apanhava, mas também batia, tentando se defender. “Eu dava vassourada nele e ele fugia”, conta. Depois de passado o efeito do álcool, S. lembra que o marido voltava para casa tentando a reconciliação. “Eu sempre perdoava, pois não via outra saída para mim e para minha filha”, diz.
Ela chegou a denunciá-lo na DDM, mas voltou atrás depois que ele prometeu mudar. Como a situação piorou, decidi procurar ajuda.
S. conta que a gota d’água foi ter apanhado dele sóbrio. “Enquanto a agressão acontecia por causa da bebida, havia essa desculpa. Mas, quando ele me bateu logo pela manhã, depois de acordar, eu fiquei muito magoada e resolvi me separar”, destaca.
Mesmo sob ameaça de morte, ela fez a denúncia e está contando com a ajuda jurídica e psicológica do Ciam.