10 de julho de 2026
Articulistas

Pra não cair do cavalo


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Quantas vezes “caímos do cavalo”, fazendo críticas, comentários ou acusações que depois são desmentidos ou contestados. Isso porque somos levados a conclusões precipitadas ou induzidos por preconceitos, não tendo o cuidado de verificar se é verdade, antes de abrir a boca. São comuns os desmentidos ou retratações de pronunciamentos críticos ou acusatórios, feitos em discursos, entrevistas ou publicados pela imprensa. Muitas vezes a situação não passa de bate-boca, mas às vezes bate às barras dos tribunais ou chega a causar danos irreparáveis. Tudo isso pela falta de ponderação, por aceitar informações sem verificar se de fato são verdadeiras. E não é somente com as pessoas que isso acontece. Acontece também com os colegiados, como temos visto ultimamente a justiça anulando decisões de Câmaras Municipais, por falta de fundamento.

Quem formulou um método para evitar as decisões precipitadas e os julgamentos injustos foi o filósofo e matemático francês René Descartes. Esgotado pelas numerosas polêmicas que precisou sustentar para defender suas idéias e rebater as falsidades com que os adversários o alvejavam, Descartes, num momento de meditação, na Alemanha, criou as bases do método científico, estabelecendo quatro preceitos que norteariam sua conduta. O primeiro, que ficou conhecido como princípio da dúvida ou da evidência, disse ele, “consistia em nunca aceitar como verdadeira nenhuma coisa que eu não conhecesse evidentemente como tal, isto é, em evitar, com todo o cuidado, a precipitação e a prevenção, só incluindo nos meus juízos o que se apresentasse de modo tão claro e distinto à minha mente que não houvesse nenhuma razão para duvidar”. O segundo, conhecido como princípio da análise, consistia “em dividir cada uma das dificuldades que devesse examinar em tantas partes quanto possível e necessário para resolvê-las”. O terceiro, conhecido como princípio da síntese, consistia “em por em ordem nos meus pensamentos, a começar pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para chegar, aos poucos, gradativamente, ao conhecimento dos mais complexos, e supondo também, naturalmente, uma ordem de precedência de uns em relação aos outros”. O quarto e último, conhecido como princípio da enumeração, consistia “em fazer, para cada caso, enumerações tão completas e revisões tão gerais que tivesse certeza de não ter omitido nada”.

Além do método cartesiano, para evitar conseqüências desagradáveis ou desastrosas, antes de emitir uma opinião ou fazer uma afirmação é bom parar para pensar e seguir o que diz a teoria da comunicação humana: Deve ser dito? Pode ser dito? Convém ser dito? Assim, evitando de logo aceitar como verdadeiro aquilo que nos chega ou afastando preconceitos que possamos ter contra pessoas ou instituições, procurando analisar e reconstruir os fatos, como um bom médico ou um bom advogado, para tirar conclusões seguras e fazer afirmações defensáveis, evitaremos complicações para os outros e para nós. Isso é óbvio, mas não é nada fácil, pois como diz o próprio Descartes, ao iniciar o seu Discurso sobre o Método: “O bom senso, no mundo, é a coisa mais bem dividida, pois cada qual julga estar tão bem dotado dele que mesmo os mais difíceis de contentar-se em outras coisas não costumam desejá-lo mais do que possuem.” (O autor, Pedro Grava Zano-telli, é administrador e ex-diretor da Faculdade de Ciências Econômicas de Bauru)